Ser pobre é colocar biquini pra ,tomar sol na laje......

veja todos os voos de drone em

www.Zmaro.tv/Drone

 

 

Mais
acessados

Principal

Modelos de
Documento

Receitas

Resumos
de Livros

 Perguntas e Respostas
 Jurídicas

Idéias para
ficar rico

Dicas gerais

Dizem que

Ser pobre é


Memorização

Curso de Memorização

Memorização:
que dia cai?

Demais
Cursos e
apostilas


Gastronomia

carnes

bacalhau

dicas gerais

microondas

 receitas diversas

Receitas

em vídeo

tudo sobre congelamento

vinhos


Download

delivery

palpites para loteria

simulador keno (bingo)

treine digitação

ringtones de graça

Saiba quais números
mais e menos saem
na MEGASENA


Contato

Fale com o Zmaro
e/ou
PobreVirtual

Site do
Programa Zmaro

Vídeos do
Programa Zmaro
Humor inteligente
de forma descontraída...

 
Quase Memórias. Quase Romance - Carlos Heitor Cony
envie seus resumos e sugestões, clique aqui
Dois Parlamentos é dividido em duas partes. A primeira é Congresso no Polígono das Secas, onde o autor compara permanentemente o sertão com um cemitério auto-suficiente, onde nasce e morre o sertanejo e nem mesmo os vermes proliferam. A segunda é Festa na Casa-grande. Nesta parte fala-se dos habitantes do engenho (os engenhos na época já eram poucos, definhando com a competição das usinas), sempre referidos pelo autor como cassacos (um pequeno mamífero), sempre pobres, sujos e famintos, com pouca instrução, chance de desenvolvimento e uma única certeza na vida: a morte na miséria. Todas as duas partes de Dois Parlamentos tem seus fragmentos precedidos por números aleatórios. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Mãos de Cavalo, obra de Daniel Galera, começa com capítulos curtos, escritos em terceira pessoa.

O autor intercala duas histórias. A primeira destaca a trajetória de um garoto que - dos dez aos quinze anos de idade, metido em suas aventuras de bairro, entre corridas de bicicleta e campinhos de futebol - vive justamente as primeiras descobertas em relação à sua própria identidade. Na segunda, o foco aponta um jovem cirurgião plástico que, ao chegar aos trinta anos depois de uma rápida, árdua e bem sucedida trajetória de estudos e experiências profissionais, começa então a colocar sua escolhas em cheque, bem no momento em que sai para uma longa viagem com um amigo. Esses acontecimentos vão aos poucos se conectando no tempo e no espaço dramáticos, e compõem uma delicada trama sobre memória, perda e culpa.

Com habilidade, costura os capítulos e mistura as referências de uma maneira que traz ao leitor um grande prazer em acompanhar, ele próprio, o processo de auto-descoberta vivido pelo personagem. Tanto o garoto como o cirurgião vão entender que, tragicamente, só se conhece a própria identidade a partir de eventos-limite, extasiantes ou cruéis, momentos que vão ser carregados pela vida a fora. Entre ritos de passagem e acertos de contas, forma-se um indivíduo.

Durante as duas trajetórias, o escritor não perde a oportunidade de explorar temas bastante interessantes. O fascínio pela violência estética em contraponto à covardia frente a agressividade real, o recalque das emoções, o desejo e a impressão de vermos nossas vidas registradas pelas lentes de uma câmara de cinema.

O protagonista de Mãos de Cavalo não é uma pessoa simples. Talvez ninguém seja mesmo. E pouco a pouco o vemos exposto pelo autor. Através das descrições ultra-detalhistas de cada situação, vemos dissecadas suas impressões frente a cada situação, seja ela o descer vertiginoso de uma ladeira montado numa CaloiCross aro 20', seja testemunhar o ventre de sua esposa ser rasgado durante o parto enquanto a anestesia não fazia efeito.

Primeiramente independentes, as duas tramas vão, aos poucos, ganhando elementos que as aproximam, até que o passado e o presente praticamente se transformam em um só acontecimento, mostrando como foi e como poderia/deveria ter sido determinado fato aos olhos do protagonista. Durante essa trajetória, o autor constrói uma gradativa imersão do personagem do presente em fatos do seu passado que o ajudaram a afirmar sua própria identidade. Em um momento em que dúvidas em relação à vida levam o protagonista a buscar e assumir novas referências de mundo, há uma volta no tempo até um momento traumático, mas que o ajudou a encontrar a si próprio. E essa rememoração é decisiva também para os rumos do seu próprio futuro. Nesse momento as duas histórias se fundem em uma imagem única e definitiva.

Segundo o autor, a obra é uma síntese de diversas histórias que guardou na cabeça durante anos, mas que vieram se transformando e atualizando ao longo do tempo. Algumas cenas e personagens têm origem em coisas que ele imaginava desde os dez ou doze anos de idade, muito antes de sonhar em escrever. Segundo Galera, as primeiras três versões de Mãos de Cavalo foram jogadas fora: somente na quarta tentativa o autor encontrou a forma que lhe pareceu ideal para desenvolver o romance até o fim.

Esse tom se manifesta numa prosa rica em detalhes, em descrições bem trabalhadas de cenas e atmosferas, nas quais a aparente placidez do cenário reforça a intensidade dos sentimentos dos personagens. Nada é gratuito aqui: numa partida de videogame, num parto sem anestesia, na trilha sonora de uma festa de quinze anos, assiste-se à tumultuada trajetória do protagonista rumo ao cotidiano do mundo adulto, preenchido entre o sucesso profissional e o "piloto automático" de um casamento fora dos planos.

O tema principal do livro é a identidade, a obsessão que se tem por defini-la e a inutilidade geral desse esforço. Até que ponto é possível decidir como as pessoas querem ser e que imagem os outros terão delas? Talvez definir isso racionalmente seja tão inviável quanto decidir se se quer ou não amar uma determinada pessoa.
Diante do impasse, Mãos de Cavalo acena com um desfecho surpreendente num relato em que a tragédia se insinua a cada linha. Como nas clássicas histórias sobre segunda chance, está em jogo a possibilidade de o covarde se transformar em herói, ou de quem sempre se definiu como "solitário e renegado" encontrar uma integração possível com o mundo. O futuro aí apontado não é movido por certezas absolutas, mas pela grandeza de saber quando aceitar ou lutar contra as armadilhas do acaso.

A estrutura temporal sobre a qual foi montada, o conjunto lexical selecionado e a condução da narrativa em função da construção da personagem são alguns dos aspectos que garantem à obra relevância para ser analisada criteriosamente. Além disso, o valor interpretativo extraído desses aspectos comprova a intencionalidade do autor em desenvolver uma narrativa repleta de significado, justificando sua consagração na literatura.

Um dos fatores da narrativa de Daniel Galera que oferecem oportunidade de proveitosa explanação é a construção da personagem central. Na verdade, todo o percurso do romance concorre para apresentar ao leitor o perfil psicológico e comportamental de Hermano (o “Mãos de Cavalo”). Aliás, percurso seria a palavra-chave dessa narrativa.

Já no primeiro capítulo – O Ciclista Urbano – a narração apresenta-se construída sobre os percursos que Hermano faz, relacionados em algum sentido com o rumo da sua vida.

“(...) O trecho de subida... sairá ileso.” (p. 09-10)

O leitor perceberá ao longo da leitura que todos os obstáculos descritos (árvores, postes, rampas deslizantes, buracos, lombadas, etc.) estão semanticamente ligados aos desafios da vida do próprio Hermano.

A partir do segundo capítulo começamos a entender mais claramente esse jogo com o curso da narrativa relacionado à forma como o personagem guia a sua
vida. Os capítulos intitulados por horários – 6h08, 6h13,... – apresentam Hermano em sua vida adulta atual, dirigindo seu carro por ruas e avenidas até a casa de seu amigo Renan para juntos irem a uma escalada na Bolívia. Enquanto Hermano dirige, o narrador vai apresentando elementos do percurso como monumentos, viadutos, nomes de ruas, que remetem ao pensamento de Hermano alguma lembrança de sua vida.

“Passando por baixo... deu a luz a Nara.” (p. 71)

Quando, no capítulo 6h23, fala-se que Hermano “fantasia que a construção... antes que fosse tarde.” (p. 97), remete-se ao fato de que ele deve ainda agarrar-se a fatos de seu passado (o “asfalto”, as “calçadas”, as “árvores”) para resolvê-los antes de serem encobertos por sua vida atual (“o concreto das novas avenidas”). Vemos aí que o espaço à volta de Hermano está sendo relacionado com as suas sensações e lembranças.

Os outros capítulos vão intercalando a narrativa com flashbacks a partir da mirada e reflexão de Hermano de seu passado.

Outra analogia entre um trajeto difícil de percorrer e a vida acontece no capítulo “A Clareira” no momento em que Hermano, Morsa e Pedreiro se entretinham com um jogo de computador com pistas de corrida:

“O jogo de computador... desmontar o computador.” (p. 164-165).

Diante da pista intransponível, os amigos viam que os acontecimentos das próprias vidas seguiam um curso impossível de se evitar.

A forma dos capítulos onde Hermano está dirigindo reforça a idéia de que a narrativa foi organizada sob a ótica de um trajeto, pois eles em um parágrafo apenas, caracterizando assim, a continuidade, a linearidade da estrada, do caminho, da vida.

O tempo em Mãos de Cavalo é outro fator importante para a análise. Com uma leitura atenta, o leitor perceberá que as histórias se fundem, como já citado, unindo passado e presente, e ainda, que os fatos passados exerceram grande influência sobre Hermano em sua fase adulta. Observa-se isso no episódio em que o personagem se vê em situação semelhante a que havia vivenciado na adolescência, na qual tinha agido covardemente ao não ajudar o amigo que era espancado.

“(...) tinha ficado covardemente escondido... minutos depois.” (p. 173).

Hermano guardou para si o sentimento de culpa que o acompanhou durante anos, como uma verdadeira marca, da qual sempre se envergonhou.

“(...) Hermano sentiu-se imediatamente cúmplice... na testa.” (p. 173).

Agora adulto, ele tem a oportunidade de se livrar desse sentimento de culpa e fazer o que não teve oportunidade no passado.

“(...) Sente gosto de sangue... não da covardia.” (p. 151).

A alternância entre passado e presente leva o leitor a compreender o personagem de forma gradual, assim, o passado não só ilumina o futuro, mas também, o próprio passado de Hermano, simultâneamente. Para entender o Hermano adulto, é essencial emergir em sua adolescência.

Outro aspecto interessante é a finalização do livro, o qual não se dá na metade cronologicamente mais atual da narrativa, mas sim, na fase adolescente do personagem. A história termina no fim da narrativa do passado, com uma decisão convicta do personagem sobre como será seu futuro. Porém, o leitor que acaba de saborear o romance sabe que o futuro do personagem não foi tão livre de conflitos como ele imaginava. Existe uma grande contradição na última frase: “Agora sabia exatamente o que fazer. Não seria necessário fingir nunca mais.” (p.188).

A tensão gerada entre passado e futuro, sobre o que o personagem idealiza e o que o leitor já conhece sobre seu destino, são detalhes decisivos para o sucesso do romance.

Com respeito à narração, pode-se notar que, de acordo com a tipologia desenvolvida por Norman Friedman, o narrador é onisciente intruso, ou seja, age como uma espécie de “voz” que permeia a narrativa, porém permanece de fora da trama – não é um personagem – mas sabe de tudo que se passa nas ações exteriores das personagens e também das interiores (seus pensamentos e intencionalidades); por isso, é capaz de transmitir uma perspectiva mais ampla ao leitor, tanto dos fatos presentes, quanto dos acontecimentos que podem estar por vir. Isso é notado no início do capítulo “6h23”:

“Ao pensar no nome da filha percebe pra onde, na verdade, está guiando seu Mitsubishi Pajero...” (p.96)

Outro ponto de destaque é o constante conflito que Hermano enfrenta consigo mesmo. Desde a infância, quando cai da bicicleta, e adquire marcas não só no corpo, mas também na mente.

Na adolescência, a falta de uma personalidade formada do garoto é latente: a ausência de um apelido face aos amigos, que tinham, cada qual uma denominação diferente; a falta de coragem para enfrentar problemas, como em “Downhill”, em que Hermano nota o desdém por parte de Bonobo e sua trupe, ao que ele retruca saltando e levando mais um tombo histórico; a frustração com a sexualidade na primeira relação afetiva; e, principalmente, sua covardia diante do grupo que se vinga de Bonobo com a surra que o leva à morte, em que Hermano foge e se esconde, e apenas assiste ao massacre:

“Hermano entrou no mato, caiu numa vala do terreno e se escondeu atrás de folhas e galhos. (...) durante um período que pareceu horas.”(pp.169-170).

A fase adulta, por sua vez, corresponde a 1 hora e 56 minutos da vida da personagem nos quais se desdobram todos os traumas: a reação de Hermano, agora médico formado, casado e pai de uma filha, como a súbita desistência da escalada ao Cerro Bonete com um amigo, as indagações que faz para si com relação ao casamento e o nome de sua filha, Nara; a revolta na briga entre adolescentes que encontra na vila onde morou, na qual salva o rapaz acuado e bate em todos os demais; e um estranho reencontro com Naiara. Tudo que Hermano realiza nesse período equivale a um “acerto de contas” consigo mesmo, a uma volta no tempo, para refazer todas as ações que um dia deixou de fazer:

“Aos trinta anos, lhe parecia antes de tudo um constante ensaio para um heroísmo que nunca chega. (...) pelo que gostaria de ter sido no passado ou de ser no futuro.” (p.177)

Por fim, um tópico extremamente relevante é a fixação que o autor demonstra ter por sangue.

Por meio de Hermano, surge, incontáveis vezes, durante a trama, de forma direta ou por meio de associações. No livro, a sensação é a de que cada marca ou cicatriz faz com que ele sinta no corpo o que não sentia com os problemas da vida. As marcas deixadas na infância, a queda no torneio de downhill, a preferência por atuar como médico cirurgião, enfim, tudo isso ajuda a trazer a sensação constante de uma tragédia que vai aos poucos se delineando. Porém, a circunstância mais trágica é a morte de Bonobo após a surra, como já comentado. Ele não tinha medo de sentir dor, não tinha medo de se machucar nem de ver sangue; pelo
contrário, tinha uma fixação por isso. A sensação de dor do corpo compensava a falta de sensações emocionais:

“Estava pronto para sangrar. Era seu talento. (...) agora ele seria capaz de cortar, quebrar, ralar, escoriar, debulhar, raspar, fraturar, arranhar, perfurar e esmagar seu próprio corpo de um jeito que ninguém jamais esqueceria.”(p. 91)

Os demais fatos têm seu desfecho no que ocorre nas cenas da fase madura do personagem, na briga com os meninos de rua, em que apanha, e sangra muito. Mesmo que tal interpretação não seja necessariamente a que o autor pensou, conforme resposta do próprio a tal questão, ele considera esse ponto de vista aceitável.

Em Mãos de Cavalo, o foco está nas questões de caráter psicológico, embora não seja psicologizante, e induz o leitor a pensar na própria vida, bem como na do autor, por trazer em si um caráter confessadamente autobiográfico, e falar das coisas que ele gosta. Vale salientar que o escritor trata o personagem como alguém externo a ele, conforme palavras do próprio: “A relação do Hermano com o corpo é cheia de simbologias – ele procura controlar e afligir no corpo o que não consegue obter e praticar na vida, acho.”

Trecho da obra:

Segurando com firmeza o volante do automóvel que está prestes a dirigir ao longo de quatro dias e três noites até a região mais elevada do Altiplano Boliviano, sente a náusea típica daquele último instante em que ainda parece viável voltar atrás com relação a algo que, no fundo, sabemos não ter volta, porque já foi decidido e planejado há muito tempo. Essa hesitação inútil é ainda mais incômoda por causa do silêncio duradouro das seis horas da manhã de um sábado. Em vez de girar a chave na ignição, fica à espera de algum ruído, como se isso pudesse dar o peteleco que faltava pra ele ser jogado pra frente, forçado a ligar o carro, buscar Renan em casa no horário combinado e ir ao encontro do que prometia ser a maior aventura de sua vida. A Adri tinha avisado na noite anterior que não levantaria da cama pra se despedir. Por isso, a partir do momento em que o despertador do telefone celular tocou a musiquinha da Família Addams, às cinco e quinze, ele fez o máximo de barulho possível pra mijar, lavar o rosto, vestir uma calça confortável de abrigo, camisa pólo, tênis e boné da clínica cirúrgica, preparar uma tigela de iogurte integral com granola e uma quantidade absurda de mel, escovar os dentes, tropeçar propositalmente na cama e no banquinho do closet, sintonizar o rádio em volume desnecessariamente alto em uma estação AM pra conferir a previsão do tempo, retornar pro quarto do casal sem motivo nenhum e sair dele logo em seguida, abrir a porta do quarto da Nara, cujo sono infantil quase perturbou na esperança de que isso comovesse a esposa, abrir e fechar desnecessariamente a porta do bagageiro pra espiar a bagagem que havia guardado, organizado e checado trocentas vezes na noite passada, voltar pra dentro de casa sem motivo e, finalmente, sair, fechando a garagem pela última vez e batendo a porta do carro com raiva, mas apesar de todo esse esforço a Adri cumpria a ameaça e devia estar fingindo que dormia até agora, aguardando o breve rangido elétrico da ignição iniciar os ciclos de combustão da gasolina dentro dos pistões do Mitsubishi Pajero TR4. Por fim, decide proporcionar a ela essa satisfação e gira a chave, dá a partida no motor e acelera algumas vezes em ponto morto, somente pelo prazer de romper a quietude, fantasiando que naquele exato instante, na cama, ao perceber que ele estava realmente partindo, ela se arrependia mortalmente de não ter dado um beijo de despedida, na bochecha que fosse, e lhe desejado boa sorte. Descendo o carro lentamente pelas faixas paralelas de granito que cortam o gramado uniforme do jardim em frente à casa, decide que vai desligar o celular assim que cair na estrada e esperar dois ou três dias antes de telefonar pra ela dando notícias. Com as ruas da cidade desertas, pretende chegar ao sítio do Renan na Vila Nova em no máximo vinte e cinco minutos. Mantém as janelas do carro fechadas, e o ruído dos pneus sobre o pavimento irregular soa longínquo e fofo, dando a impressão de que está dentro de um aquário, separado do mundo. Abre completamente a janela da porta do motorista e tudo se transforma, a começar pelo barulho crocante dos pneus. O sol, que deve estar despontando por trás de algum edifício, cobre as casas, prédios, árvores e os paralelepípedos das ruas secundárias da Bela Vista com uma luz embaçada entre o amarelo e o rosa. Três estrelas heróicas resistem no céu que deixou de ser noturno há uns cinco, no máximo dez minutos. O ar está fresco e saturado de oxigênio. Enche os pulmões pelo nariz, preenchendo cada alveólo até o limite da capacidade, e prende o fôlego por uns três segundos. Daqui a poucos dias estarão, ele e Renan, quatro mil e setenta metros acima do nível do mar em algum hotelzinho de Potosí, que divide o título de cidade mais alta do planeta com Lhasa, no Tibete, os dois deitados em beliches, repousando e ingerindo volumes imensos de líquido em busca de uma aclimatação adequada, evitando arruinar tudo logo no começo com uma embolia pulmonar. Assim que pega a Carlos Trein Filho pra descer até a Nilo Peçanha, lembra da pergunta que Renan fez de repente, sem mais nem menos, quando descansavam no topo da Pedra da Cruz, no final de tarde de um domingo do mês de abril, quase sete meses atrás. Tinham acabado de escalar a via Prosciutto Crudo, conquistada e batizada pelo próprio Renan. Desde que tinha passado duas semanas em férias escalando no litoral da Sardenha, em agosto de 2002, Renan batizava suas vias com expressões aleatórias em italiano. Aquele foi provavelmente o melhor fim de semana que passaram em Minas do Camaquã, uma vila fantasmagórica perto da qual se ergue um conjunto de formações rochosas que parece uma seqüência de quatro gigantescas ondas de pedra maciça rasgando uma paisagem de morros suaves e rios. Situada no sudoeste do Rio Grande do Sul, a vila se desenvolveu a partir do início do século XX, com a descoberta de jazidas de cobre, ouro e prata. As reservas se esgotaram, e a mineração foi encerrada em meados dos anos 1990. Hoje a vila é habitada por algo entre uma e duas centenas de famílias, em boa parte de mineradores aposentados, e suas casas e ruas abandonadas, cercadas de uma geografia mutilada pela extração de minérios, dão um adorável ar de fim do mundo a um recanto já naturalmente isolado. A turma da qual fazem parte ele, Renan e mais um punhado de alunos da academia foi uma das primeiras a freqüentar a região pra praticar montanhismo. Percorriam os trezentos quilômetros entre Porto Alegre e Minas do Camaquã no sábado cedinho, passavam o dia escalando e a noite traçando um churrasco, escalavam mais um pouco no domingo e retornavam pra Porto Alegre à noite, Renan de volta pras paredes artificiais indoor da Condor, a academia esportiva na Tristeza da qual era dono, e ele pro seu consultório na Quintino Bocaiúva e pras salas de cirurgia do Mãe de Deus Center. A escalada, pra ele, sempre foi antes de tudo um método de exploração dos limites físicos e mentais, um exercício prazeroso de resistência muscular e concentração, praticado com disciplina e regularidade, que acabou entranhado em sua rotina, mas quando consegue se livrar de suas pacientes e acompanhar as saídas da turma da Condor nos finais de semana, a prática se torna algo além disso, um parêntese que interrompe o fluxo mais ou menos previsível de sua vida profissional e familiar. Já pro Renan a escalada é a própria rotina. Quando não está trabalhando como instrutor e sócio administrativo na Condor ou dando aulas de escalada técnica pra grupos particulares e instituições diversas, está em algum lugar do Brasil, da América Latina ou de outras partes do globo, escalando vias dificílimas de nível 9 ou 10, acumulando gigabytes de fotos digitais que registram alguns feitos consideráveis do montanhismo nacional, como a encadenação em tempo recorde da "Massa Crítica", na Barra da Tijuca, e a conquista da sua "Francobolo", considerada até a presente data a via esportiva mais difícil do Sul do Brasil, uma 10b repleta de passadas explosivas no teto da Gruta da Terceira Légua, em Caxias do Sul. Apesar da relação de seus egos com a escalada ser um tanto diferente, ele e Renan se tornaram grandes amigos logo que se conheceram na Condor, e desde então, sempre que as brechas das agendas coincidem, viajam juntos de carro nos finais de semana e feriados pra escalar na rocha, numa média de dez vezes por ano nos últimos três anos. Estiveram no Itacolomi, em Torres, Cotiporã, Salto Ventoso, Pico da Canastra e Ivoti. Mas seu destino favorito vinha sendo as Minas do Camaquã, onde os acampamentos montados pra passar a noite de sábado pra domingo se tornaram tão divertidos, com fogueiras e conversas madrugada adentro, que numa ocasião a Adri tinha consentido em deixar a Nara com os pais dele pra lhe fazer companhia na saída de fim de semana, apesar do terror que sentia de ver outros seres humanos pendurados nas alturas, terror que ele definia, em tom de brincadeira, como "acrofobia derivada", enquanto Renan dizia que era cagaço mesmo. No fim ela se encantou com a natureza do lugar, perguntou pra que serviam os mosquetões, o freio oito, o magnésio, quis saber o comprimento das cordas, o método de fixação dos grampos na rocha, e chegou a escalar uns quatro ou cinco metros de altura, antes de começar a berrar de pavor. À noite, ela fumou muita maconha, bebeu muito vinho e ajudou todo mundo a tirar sarro da cara dele por não beber nem fumar maconha. Fez amizade e passou cerca de uma hora trocando confidências e segredinhos com a Keyla, namorada e aluna do Renan. Ao presenciar a rápida intimidade das respectivas companheiras, Renan ficou balbuciando em seu ouvido frases ininteligíveis nas quais se destacava a palavra "suingue", e isso era bem a cara do Renan. Naquela noite a Adri ficou implicante, incoerente, desfigurada e alegre, e ele ficou feliz em ver ela daquele jeito. Mas aquela foi a primeira e última vez que a Adri foi escalar com ele. Ela simplesmente perdeu o interesse, como se tivesse esgotado todas as possibilidades de fruição numa única viagem. Ele e Renan, entretanto, prosseguiram. Precisava cada vez mais da endorfina, da adrenalina e do estado mental quase meditativo que a escalada na rocha proporcionava. Renan precisava seguir fazendo aquilo que fazia melhor: vencer desafios em boulders com a graça de uma aranha bailarina, abrindo novas vias que seriam repetidas e respeitadas por inúmeros outros escaladores. E naquele dia de abril, quando já estavam sentados na pedra, descansando e admirando a vista do cume da Pedra da Cruz, Renan perguntou, sem desviar os olhos da paisagem: "Tá a fim de fazer um lance totalmente Coração das Trevas?". Ainda meio zonzo, extasiado pelo esforço e pela conquista, ele seguia com os olhos um gavião que estava empoleirado na enorme cruz branca que dá nome à Pedra da Cruz e tinha recém levantado vôo, batendo as asas contra um céu laranja estriado de nuvens brancas. "Fazer o quê?", perguntou, arrancado de seu devaneio. Ao invés de dar bola pro Renan, começou a mentalizar etapas do rapel que fariam em breve pra descer daquela altura antes que ficasse escuro demais. A descida era sempre a parte que o deixava mais nervoso. Assim como a maioria dos acidentes de carro ocorre a menos de cinco minutos do destino do motorista, a descida é a parte em que um escalador está mais à vontade, mais apressado e distraído. Renan demorou alguns segundos antes de falar de novo. "Já pensou alguma vez em escalar no gelo?" Sabia que Renan tinha feito curso de escalada em gelo em Bariloche e que havia chegado ao cume de algumas montanhas nevadas dos Andes argentinos, por isso imaginou que ele tinha em mente mais alguma investida naquela região. "Nunca pensei, mas seria interessante." "Tô com uma idéia fixa, véio, um projeto que tá me deixando totalmente obcecado." "Escalar o Aconcágua com as mãos amarradas nas costas?" Esperava que Renan fosse rir, mas em vez disso o amigo cruzou os dedos e usou a força da mão direita pra estalar as articulações metacarpofalangianas da mão esquerda, que estouraram como um conjunto de pequenas cápsulas cheias de ar de um plástico bolha. "Preciso de um parceiro pra uma viagem, uma expedição, na verdade. Alguém com tempo e vontade pra pegar dias de estrada, investir num equipamento, se enfiar no meio do nada e passar um tempo na montanha. Tá a fim de encarar algo assim?" A pergunta parecia prever uma resposta negativa e tinha um toque muito sutil de desafio, coisa comum entre os dois quando o assunto era escalada, já que Renan era melhor no esporte em todos os sentidos e tinha como principal motivação a superação de marcas e façanhas, de preferência as alheias. "Onde?" "Cordilheira dos Andes." "Sim, mas tá pensando em alguma montanha específica?" Renan tirou os olhos do horizonte e o encarou. "Já ouviu falar no Cerro Bonete?" Alguns neurônios faiscaram, porque sim, já tinha ouvido falar nessa montanha, em um artigo da revista canadense Gripped, se não estava enganado. Um pico vulcânico de quase sete mil metros de altura, próximo ao Aconcágua, no Noroeste da Argentina. "Sim, já ouvi", emendou com satisfação, se sentindo um especialista, "não é um vulcão na Argentina?" "Pois é, existe esse Cerro Bonete, que fica perto do Aconcágua, na província de La Rioja. Tem seis mil setecentos e não sei quantos metros e sempre foi meio esnobado pelos escaladores, mas ultimamente tem sido mais procurado. Só que não é desse que eu tô falando, não." Renan enunciava suas frases com um falso tom de pouca importância, mas era claro que estava querendo chegar em algum lugar, falar de algo que vinha sendo objeto de fascínio em sua imaginação fazia um bom tempo. Queria fazer suspense, tanto que ficou quieto e o forçou a perguntar: "Existe outro Cerro Bonete, então?" "Existem pelo menos três ou quatro, que eu saiba. ‘Bonete’ em espanhol significa um tipo de chapéu, e os caras deram esse nome pra uma porrada de montanhas nos Andes. Mas o Bonete que eu tô falando é especial. Pra começar, fica na Bolívia. Bem no sul, quase fronteira com a Argentina." "Fora isso, o que ele tem de especial?" "Difícil dizer, porque ninguém nunca subiu lá. Aparece em alguns mapas e nas fotos de satélite, mas não se sabe a altura exata. Encontrei uma página na internet que diz que tem dezoito mil, duzentos e quarenta pés, uns cinco mil e seiscentos metros." "Não é dos mais altos." "O que importa é que é desconhecido. Não existe quase nada documentado sobre a região. Não tem estrada, cidade, porra nenhuma. O desgraçado fica na borda de uma cratera vulcânica com uns seis ou sete quilômetros de diâmetro. Tu precisa ver as fotos aéreas. Dá pra achar alguma coisa na internet. É impressionante." Soube na hora que o papo do Renan era pra valer. Subir os picos mais elevados de cada continente já tinha se tornado algo banal aos olhos dele, não que fosse fácil, mas muita gente já tinha feito. "Existem pacotes turísticos pro cume do Everest" era uma frase que Renan vivia usando pra ilustrar sua tese de que os verdadeiros desafios do alpinismo hoje em dia estão nos boulders de alta dificuldade e nas pouquíssimas montanhas do planeta que ainda têm um cume ou uma face intocada por piolets e grampões. O que motivaria ele a sair de casa e investir numa expedição seria uma montanha desconhecida, misteriosa. Algo que fosse inédito e merecesse registro. Os olhos dele brilhavam ao falar. Piscava diversas vezes seguidas e depois mantinha as pálpebras abertas por um longo tempo. "E aí? O que te parece? Nunca teve vontade de fazer uma indiada dessas? É possível, véio, perfeitamente possível. Precisa de tempo, dinheiro e um bom estado de espírito. Além de colhões. É isso que não tenho certeza se tu tem", disse, meio brincando, meio pra valer. "É de se pensar, é de se pensar", respondeu. Naquela ocasião a idéia pareceu tão mirabolante que não levou a sério. Mas na segunda-feira seguinte baixou seus e-mails em casa e havia meia dúzia de mensagens do Renan, com links e imagens sobre o tal de Cerro Bonete. Eram informações limitadas e fotografias de satélite de baixa qualidade encontradas em sites obscuros de estudos geológicos e relatórios governamentais. Um dos e-mails continha um par de coordenadas e um link pra fazer o download de um programa chamado Google Earth. Instalou e seguiu as instruções da mensagem: digitou a latitude 21º45’0.00"S e a longitude 66º29’0.00"W num campo da interface do programa e apertou Enter. O globo terrestre tridimensional começou a girar devagar e a tela foi se aproximando cada vez mais rápido da América do Sul, da Bolívia, e depois de alguns segundos de transferência de dados surgiu a imagem nítida de um cume nevado na borda da cratera de um vulcão inativo. Sua primeira impressão foi de estar vendo um mapa de algum jogo muito antigo de computador, mas aos poucos foi compreendendo que era uma imagem de satélite legítima, colorida e detalhada, de um trecho inacreditavelmente inóspito da superfície do planeta, a vista aérea das cordilheiras lembrando a textura da casca de uma velha araucária, a crosta terrestre vista como a crosta de um bolo, quase palpável na tela do computador. E foi nesse instante que a idéia da expedição desmiolada se gravou na sua mente de forma definitiva. Fossem quais fossem as motivações pessoais do Renan, agora tinha a sua própria: precisava estar lá. Precisava que aquele exato retalho da Terra se tornasse um lugar onde estivera, que sua presença ali fosse algo realizado. A imagem da tela do computador evocou fotografias mentais de diversos locais que tinham provocado nele um desejo semelhante, como se lhe reservassem uma revelação de qualquer tipo. Lembrou de uma pequena ilha que viu durante um passeio de barco pelo sul da ilha de Santa Catarina, no primeiro ano de casamento com a Adri, quando ela estava grávida de três meses. Era uma ilha de rocha entre tantas outras daquele litoral, coberta de vegetação na metade mais elevada, mas nessa havia três ou quatro cabanas de madeira completamente isoladas, voltadas pro oceano e escondidas do continente. Ficou imaginando quem havia construído aquilo, como tinham chegado lá, se alguém morava de fato naquelas habitações precárias ou se eram apenas galpões de pescadores usados como depósitos ou abrigos eventuais. Fosse como fosse, teve vontade de estar naquela casinha isolada numa ilha sem civilização. Pareceu, por um instante, algo simples e acessível. O que podia haver de tão misterioso em escolher um lugar vazio da superfície do planeta, mandar construir uma pequena casa e ir pra lá de vez em quando? Depois, aos poucos, a idéia foi adquirindo outra cara, se revelando inviável, muito mais inacessível do que parecia, e deixar isso de lado foi como perder uma oportunidade valiosa, embora não pudesse definir exatamente o que haveria de tão único e revelador naquele lugar específico. Outra ocasião, viajando de carro pela BR-101 entre Torres e Osório, enxergou uma figueira magnífica em um sítio na margem da estrada e teve a mesma sensação de urgência. Teria sido a coisa mais simples do mundo estacionar o carro e percorrer a pé os quinhentos metros que o separavam da árvore. Sentar encostado em seu tronco e atingir dentro de minutos alguma epifania, ou simplesmente deixar a aura daquela figueira naquele sítio naquela estrada evanescer vagarosamente, retornar pro seu carro e seguir viagem até Porto Alegre. Perdeu aquela oportunidade e dezenas de outras. O que a imagem de satélite na tela do computador oferecia era mais uma chance de eleger um instante no tempo e no espaço em detrimento de todos os outros. Era preciso estar lá. Se pudesse, se teletransportaria pro Cerro Bonete boliviano naquele exato instante. Como era impossível, apenas respondeu pro Renan: "Vi as imagens. tô dentro (sério)".


Resumo enviado por Jorge Lima
veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Em Pau-Brasil, põe em prática as propostas do manifesto do mesmo nome. Na primeira parte do livro, "História do Brasil", Oswald recupera documentos da nossa literatura de informação, dando-lhe um vigor poético surpreendente. Na segunda parte de Pau-Brasil - "Poemas da colonização" -, o escritor revê alguns momentos de nossa época colonial. O que mais chama a atenção nesses poemas é o poder de síntese do autor. No Pau-Brasil há ainda a descrição da paisagem brasileira, de cenas do cotidiano, além de poemas metalingüísticos. (Oswald de Andrade - Pau-Brasil) O Verso livre, o tom de prosa, a simplicidade da linguagem e a extrema condensação, ou síntese, são os principais elementos de modernidade deste poema-metalinguístico, poesia sobre poesia. Ele sugere a idéia da poesia como ingenuidade, surpresa, e também imaginação, invenção, magia, liberdade, na medida em que é associada ao universo infantil: um universo sem fronteiras entre sonho e realidade, um universo poético, portanto, que pode ensinar ao adulto, talvez não exatamente a descoberta, mas a redescoberta da poesia. Pronominais Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da nação brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro (Oswald de Andrade - Pau-Brasil) Aqui, a valorização da linguagem coloquial, popular, próxima da vida, opõe a gramática, o professor e o mulato sabido ( ou seja, a escola, a regra, a norma, o pedantismo), ao bom negro e ao bom branco da Nação brasileira: nacionalismo e crítica ao "mestiço", que lembra Gregório de Matos. O Capoeira - Qué apanhá sordado? - O quê? - Qué apanhá? Pernas e cabeças na calçada (Oswald de Andrade - Pau-Brasil) A idéia de luta é sugerida apenas por um diálogo-relâmpago, tipicamente popular (note o texto escrito copia a oralidade) e pela metonímia (pernas e cabeças na calçada - a parte pelo todo), que ilustra o estilo teegráfico, extremamente sintético, de Oswald de Andrade. Segundo Antônio Cândido , Oswald foi o inaugurador, em nossa literatura, da transposição de técnicas de cinema - "montagem" de cenas, tentativa de descontinuidade para causar a impressão de "imagens simultâneas" - para o texto literário. Relicário No baile da corte Foi o conde d'Eu quem disse Pra Dona Benvinda Que farinha de Suruí Pinga de Parati Fumo de Baependi É comê bebê pitá e caí (Oswald de Andrade - Pau-Brasil) Este poema é representativo da proposta Pau-Brasil de poesia de exportação. Recontar momentos significativos da história da colonização do Brasil de maneira irônica, crítica, como na cena de Relicário . Nela, um personagem histórico, o Conde d'Eu, no baile da Corte, conversa com Dona Benvinda uma "conversa de cozinha": rítmica, folclórica, engraçada, surpreendente para o contexto do baile da Corte. Note que o relicário significa recinto ou lugar especial, próprio. Está na impropriedade, então, este contexto e tipo de conversa, a ironia e a blague (a piada) oswaldianas. Canção de Regresso à Pátria Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para lá Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para São Paulo Sem que eu veja a rua 15 E o progresso de São Paulo (Oswald de Andrade - Pau-Brasil) Esta é a primeira paródia modernista da Canção do Exílio de Gonçalves Dias, poeta romântico. Hino à nacionalidade, o poema original apresenta uma visão ufanista, idealizadora da pátria. Em sua paródia, Oswald de Andrade troca palmeiras por palmares, mostrando, assim, o nacionalismo crítico dos modernistas: minha terra tem opressão, escravidão, dominação e também lutas pela libertação. Palmares é o nome do mais famoso quilombo para onde fugiam os escravos. Há, também, uma referência clara, ao progresso de São Paulo - símbolo do desenvolvimento econômico do país - que se opõe à valorização da natureza presente no poema de Gonçalves Dias. Ao dizer que os passarinhos daqui, isto é, do estrangeiro, não cantam como os de lá - os do Brasil - Oswald relativiza o juízo de valor, a idéia da superioridade de nossa fauna e de nossa flora em relação à Europa, afirmando a diferença em oposição ao que se encontra em Gonçalves Dias. O verso E quase que mais amores acentua a relativização do patriotismo romântico a que nos referimos e, finalmente, a ausência de pontuação, especialmente em Ouro terra amor e rosas, acaba de configurar a modernidade da Canção de Regresso à Pátria: poema paródico que, aparentemente imitando o texto a partir do qual foi escrito, o que faz, na verdade, é inverter o seus sentidos através da sátira. A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil. O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho. A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária. Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram. A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha. A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem. Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris. Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia. A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança. Uma sugestão de Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino. Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias. A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros. Uma única luta - a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação. Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado - o artista fotógrafo. Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski. A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas. Só não se inventou uma máquina de fazer versos - já havia o poeta parnasiano. Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 10) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 20) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva. O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil. Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos. A síntese O equilíbrio O acabamento de carrosserie A invenção A surpresa Uma nova perspectiva Uma nova escala. Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil O trabalho contra o detalhe naturalista - pela síntese; contra a morbidez romântica - pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa. Uma nova perspectiva. A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua. Uma nova escala: A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte. A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido. Nossa época anuncia a volta ao sentido puro. Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz. A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente. Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações. Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil. Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil. O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional. Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época. O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito. O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica. A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna. Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia. Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
ldo Tolentino "E ali estava ele: Aldo Tolentino, 50 anos de idade, advogado, viúvo , um filho do primeiro casamento, dois do segundo, traído pela mulher com seu amigo e colega de escritório, escondido em sua própria casa..." Dr. Marco Túlio. "mais baixo, mas desenvolto, bem vestido, queimado de sol, aparência esportiva" Maria Lúcia fútil e infiel Paulo Sérgio o filho de Aldo Tolentino acusado injustamente de homicídio_ representa o outro lado do gume (ferido) Síntese - enredo Aldo tenta vingar-se de sua adúltera esposa Maria Lúcia; para tanto furta a identidade de um subalterno do escritório, forja uma viagem de negócios e embarca para São Paulo a mando de seu chefe Marco Túlio. Já em solo paulista nosso herói hospeda-se em um hotel, para que não haja suspeitas e, discretamente evade-se do hotel direto para o Rio de Janeiro via ponte-aérea com passaporte falso na volta. Ao retornar sigilosamente para casa, promove um flagrante nos adúlteros, aniquilando-os. O crime perfeito ocorre e a vítima será o próprio Aldo Tolentino que vê o próprio filho pagar por seu crime ao suicidar-se na cadeia. Paulo Sérgio chegara na madrugada do crime em casa, lá encontrara os cadáveres e fora o principal suspeito do crime.

Estrutura da obra: Desfragmentação da estrutura narrativa - o discurso em 3° pessoa é permeada de psicologismo, e o fluxo de consciência é retomado o tempo todo por Aldo Tolentino. Estrutura textual: A violência das obras contemporâneas é recurso notório do retrato de nosso tempo na literatura. A visão do desejo enquanto sexualidade e ódios urbanos se confundem, veja exemplo: "...Ao fim, ele a virou de bruços e tombou sobre ela, possui-a com fúria: - Fale mais mulher. Fale mais, sua cadela, conte tudo sua puta ordinária - e ele terminou, afinal, enquanto ela gemia de gozo sob seu corpo." A coloquialidade do discurso é também outro fator que nos interessa, o pessimismo é notório e o existencialismo acerca da vida, é clara no final do conto: "...O delegado informou que Paulo Sérgio havia se enforcado com a camiseta em sua cela. - Vou já para aí ( disse Aldo Tolentino) Em vez de sair, foi até a copa, ainda sonolento, apanhou o vidro no armário e tomou todos os comprimidos. Depois voltou ao escritório, estendeu-se no sofá e em pouco voltava a dormir. Aspectos Relevantes Tendências Contemporâneas O experimentalismo estético da Semana de 22 gera uma ideologia com a qual foram reexaminados os problemas da cultura, como qualidade e tradição. O interesse pela vida contemporânea norteou Josué de Castro, Caio Prado Júnior, Jorge Amado e Jorge de Lima. O Estado Novo (1937-1945) e a Segunda Guerra Mundial aguçaram as tensões no plano das idéias e novas configurações históricas geraram novas experiências nas artes, principalmente na literatura. A produção dos autores da primeira metade do nosso século deixa transparecer angústias e projetos inéditos nos trabalhos de poetas, narradores e ensaístas. Na poesia, a geração de 45 isolou os cuidados métricos, procurando se contrapor à literatura de 22, menosprezando as conquistas do modernismo. No panorama da nova poesia brasileira, Fernando Ferreira de Loanda insiste na afirmação da diferença e na busca de novos caminhos. É a posição de Alphonsus Guimarães Filho, Péricles Eugenio da Silva Ramos, João Cabral de Melo Neto, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Lêdo Ivo, entre outros. Todos defendem um gênero intimista onde imagens são correlatas ao sentimento que os símbolos ocultam e sugerem. Submetem-se às exigências técnicas e formalizantes. No romance psicológico caminha-se pela introspeção da psicanálise. Socialismo, freudismo, catolicismo são usados para a compreensão do homem social. Esteja sempre atento para a leitura de obras contemporâneas, pois o que melhor interessa-nos é a sua estrutura narrativa, condensadora e atrativa para o leitor contemporâneo de tantas imagens do mundo digital. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Numa perspectiva psicológica, o interesse da teoria reside nas ideias que esta desenvolve sobre a criança, sobre a natureza do seu pensamento e sobre os estádios do seu desenvolvimento. Para quem necessita conhecer e estudar o desenvolvimento da criança, a teoria é útil para responder às questões de fundo: Como pensa a criança? , Como pensa nos diferentes estádios? Contudo, Piaget, mais do que pela criança em si, interessou-se pela epistemologia. E como epistemólogo, também para ele as questões básicas foram as eternas perguntas sobre O que é o conhecimento? e Como é que aprendemos? Estudou o desenvolvimento da criança porque estava convencido ser este o melhor meio de responder às questões epistemológicas sobre a natureza do conhecimento dos adultos e sobre a história geral do conhecimento humano. Os educadores devem compreender as ideias de Piaget, a natureza do conhecimento e sobre os mecanismos do seu desenvolvimento. Neste livro, estas ideias serão tratadas em função da orientação epistemológica do pensamento de Piaget, da sua perspectiva biológica e do seu construtivismo. Trata-se de um livro simples, vivo e suficientemente profundo que, em linguagem acessível a quem quer que seja, pai, educador, professor, psicólogo ou estudioso, dá uma perspectiva nova para a aplicação prática da teoria de Piaget. CONSTANCE KAMII é professora associada do Colégio da Educação, Universidade de Ilinois, núcleo de Chicago, e responsável de curso na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade de Genebra. ''
veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
A história, desde a expulsão de Jones até a "transformação completa de Napoleão em "humano" durou aproximadamente 6 anos. Na Granja do Solar, situada perto da cidade de Willingdon (Inglaterra), viviam bichos, que como dono tinham o Sr. Jones. O Velho Major (porco) teve um sonho, sobre uma revolução em que os bichos seriam auto-suficientes, sendo todos iguais. Era o princípio do Animalismo. O Major morreu, mas mesmo assim os animais colocaram em prática a idéia do líder, fazendo a Revolução dos Bichos. Depois da Revolução, a Granja passou a se chamar Granja dos Bichos, e quem a administrava era Bola-de-Neve (porco). Bola-de-Neve seguia os princípios do Animalismo, e mesmo sendo superior (em quesitos de inteligência e cultura) em relação aos outros animais, sempre se considerou igual a todos, não tendo privilégios devido à sua condição. Bola-de-Neve tinha um assistente, Napoleão (porco), que na ânsia pelo poder, traiu o amigo, assumindo a administração da Granja. Napoleão mostrou-se competente e justo no começo, mas depois passou a desrespeitar os SETE MANDAMENTOS, os quais firmavam as idéias animalistas. Depois de aproximadamente 5 anos, Napoleão já ocupava a casa do Sr. Jones, bebia álcool, vestia as roupas do ex-dono , andava somente sobre duas pernas e convivia com seres humanos, enfim agia em benefício próprio, instalando um regime ditatorial, dominando e hostilizando os demais animais, considerados seres inferiores e sem direitos. Por essa época, já não era possível distinguir, quando reunidos à mesa, o porco tirano e os homens com quem se confraternizava. Napoleão conseguiu sair vitorioso graças à ajuda de Garganta, porco servil e obediente e que, através de bons argumentos, convencia os animais de que tudo o que acontecia era para o bem deles. Os SETE MANDAMENTOS do Animalismo eram os seguintes: Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; Nenhum animal usará roupas; Nenhum animal dormirá em cama; Nenhum animal beberá álcool; Nenhum animal matará outro animal; Todos os animais são iguais. Napoleão, aos poucos, alterou todos os mandamentos. Foi Bola-de-Neve quem escreveu os SETE MANDAMENTOS. A Revolução dos Bichos é um livro de extrema importância para entendermos o funcionamento de sociedades comandadas por diferentes tipos de governo, além de mostrar de forma genial a ambição do ser humano, o "sonho do poder". O Senhor Jones era o dono da Granja e, como tal, explorava o trabalho animal em benefício próprio, para acumular capital. Em troca dos serviços prestados, ele pagava com a alimentação, que nem sempre era boa e suficiente. Temos aí o retrato de uma sociedade capitalista: quem mais trabalha é quem menos ganha. A Revolução que se deu por idéia do "Major", tinha por princípio básico a igualdade; sendo assim, o Animalismo corresponde ao Socialismo, regime em que não existe propriedade privada e em que todos são iguais, e todos trabalham para o bem comum. A princípio, houve um socialismo democrático, em que todos participavam de assembléias, dando idéias e sugestões, liderados por Bola-de-Neve, bem aceito pelos animais em geral. Napoleão representa o desejo da onipotência, do poder absoluto e, para conseguir seus objetivos, tudo passa a ser válido: mentiras, traições, mudanças de regras. Tempos depois instaurava-se na Granja uma verdadeira Ditadura, o regime em que não há liberdade de expressão, direito a opiniões etc. Na sede pelo poder e pela riqueza, Napoleão entra em contato com os homens para com eles negociar, comprar, vender, enfim, acumular riquezas e tudo graças ao trabalho dos animais, verdadeiros empregados mal – remunerados, ajudando o "patrão" a ter regalias, bens materiais, capital. A situação fica mais crítica do que quando Jones era o dono da Granja porque, mais do que nunca, os direitos humanos, ou seja, dos animais foram violados de forma cruel e tendo conseqüências gravíssimas como a morte de alguns, o desaparecimento de outros e muita tortura. Com base nos fatos ocorridos podemos concluir que a história nos mostra os dois tipos de dominação existentes – a dominação pela sedução: Garganta persuadia os animais com seus argumentos convincentes e eles aceitavam pacificamente as mudanças efetuadas, e a dominação pela força bruta: quem se rebelasse contra as ordens era punido fisicamente, torturado por cães treinados e levados até à morte. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
É um romance algo tosco, narrando a vida de Antonio, Balduíno (Baldo), órfão do morro, depois cria de casa abastada e , sucessivamente, vadio, lutador de boxe, trabalhador rural, atleta de circo, afinal operário. Os vários episódios, ligados pela figura central, vão mostrando o povo colorido da Bahia, destacando-se personagens pitorescos, como o pai- de santo Jubiabá, velho quase centenário, que encarna a alma da sua raça e protege Antônio Balduíno. Este nutre a vida toda uma fixação amorosa pela filha dos benfeitores,Lindinalva, que deixa ainda adolescente e reencontra, muitos anos mais tarde, na maior degradação , depois de seduzida pelo advogado Barreiras, Balduíno assiste à morte e adota o seu filho . A intenção central do livro, além da visão romanesca da vida popular, é sugerir o lento amadurecimento do protagonista, rumo à consciência política. É um romance característico do "realismo socialista", com alguns ingredientes sensuais e apimentados do cenário baiano. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Laços de Família, de 1960, é uma coletânea de treze contos, dentre os quais seis publicados em 1952 com o título de Alguns Contos. Nesses contos Clarice Lispector procura focalizar o processo de aprisionamento dos seres humanos em suas prisões domésticas', daí o titulo, Laços de Família. Em seus contos, a autora busca o questionamento das formas convencionais e estereotipadas das relações familiares, ritualmente repetidas de geração em geração, dentre as quais, a relação marido/mulher, mãe/filhos, avó/familiares, filha/mãe, dentre outros. "Devaneio e embriaguez duma rapariga" Uma típica senhora portuguesa casada, certo dia ao encontrar-se defronte ao espelho a mirar-se, estando só em casa ( os filhos e o marido estavam fora ) começou a devanear. Tanto que ficou o tempo inteiro no quarto sob a cama, o que fez o marido pensar que esta estava doente. Tão logo os filhos voltam ao lar, a vida retoma o seu norte e nossa personagem volta ao seu ritmo cotidiano, apenas desmanchado por um encontro de negócios entre seu marido e respectivo chefe. Embriaga-se e desenvolve muita prosa com o chefe do marido, em verdade enciumava a beleza da vestimenta de outra mulher no recinto e isto feriu-lhe a vaidade. Ao chegar em casa repensa sua própria sensualidade e o desejo que podia despertar nos homens. "Amor" Ana, urna mulher casada, pacata e mãe de dois filhos, tinha uma vida doméstica muito calma, donde cuidava dos seus com o esmero e amor típicos de uma pessoa fraterna e sensível.

Aliás Ana, em hebraico significa "pessoa benéfica, piedosa". Certo dia ao ir às compras encontrou-se com um cego que muito a impressionou; com a freada brusca do bonde onde se encontrava, os ovos que carregava acabaram quebrando-se, pronto! A sua paz tão duramente conquistada desapareceu. Transtornada acabou por descer no Jardim Botânico que por sua beleza fê-la temer o próprio inferno. Aqui podemos fazer um paralelo entre a beleza que salta aos olhos e o cego que está privado disto, este último vive o próprio inferno em terra. Esta então é a explicação de tanto que impressionara a personagem. Ao voltar para casa sentia que alguma coisa havia mudado dentro de si, abraçou o filho tão fortemente que o assustou e foi ajudar o marido quando este derrubou o café. Carinhosamente este pegou-lhe a mão e levou-a para o quarto para dormirem. "Uma galinha" Uma galinha de domingo, pronta para o abate. Contudo quando apanhada pelo pai da menina que é a narradora da estória, a galinha acaba pondo um ovo, imediatamente a menina avisa os demais familiares do fato e alerta-os para a nova condição de "mãe" da galinha. O pai de família, sentindo-se culpado por tê-la feito correr para o abate, acaba por nomear a ave como de estimação sob pena de que se o animal fosse sacrificado nunca mais voltaria a alimentar-se da galinha. Contudo, houve um dia em que "mataram-na, comeram-na e passaram-se anos." "A imitação da rosa" Laura, casada e sem filhos, preparava-se para um jantar na casa de amigos. Era a primeira vez que ela faria isto desde que voltara do hospital, onde fora internada. provavelmente por causa de um surto. Ela pretendia estar pronta, de banho tomado, em seu vestido marrom, a casa limpa e a empregada despachada, quando seu marido, Armando, chegasse. Assim teria tempo livre para ficar à disposição dele. e ajudá-lo a arrumar-se. Laura parecia perseguir a perfeição a todo custo, vigiava-se para ser um esposa modelo, submissa e obediente, mediana até na cor dos cabelos, nem loura, nem morena: de modestos cabelos marrons Ela procura parecer normal, premedita todos os seus gostos. Não quer que os outros se preocupem com ela. Pensa o quanto seria bom ver o marido enfim relaxado, conversando como amigo, no jantar, sem lembrar-se de que ela existe. Exausta e feliz, pois acabara de passar em ferro todas as camisas de Armando. Laura sentou-se na poltrona da sala e cochilou um breve instante. Quando acordou, teve a sensação de que a sala estava renovada. Admirou intensamente as rosas que comprara pela manhã, na feira. Eram perfeitas. Resolveu então dá-las á amiga que iria, à noite visitar. Estava decidido, mandaria as flores pela empregada. Mas, logo depois, Laura hesitava. Por que as rosas, tão bonitas, não podiam ser dela mesma? Por que a beleza e exuberância das rosas a ameaçava? Acabou cedendo-as, a empregada levou as flores, e ela não conseguiu voltar atrás. É provável que a perfeição que Laura vira nas rosas tivesse lhe provocado o impulso de romper novamente com seu lado submisso e servil para se tornar incansável. super-.humana, independente. tranquila, perfeita e serena. Quando o marido chegou do trabalho, Laura ainda estava sentada na poltrona, e nada tinha feito do que planejara Dirigiu-se a ele: "Voltou. Armando. Voltou. (..) Não pude impedir. disse ela, e a derradeira piedade pelo homem estava ria sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita. Não pude impedir. repetiu, (...) Foi por causa das rosas, disse cor,, modéstia(...) Ele a olhou envelhecido e curioso. Ela estava sentada com seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcansável. "Feliz aniversário" Tudo preparado para o encontro anual da família. Na casa de Zilda, a única filha, as bolas coloridas espalhavam-se pela sala e o bolo confeitado enfeitava o centro da mesa. Na cabeceira, arrumada e perfumada com água de colônia para disfarçar o cheiro de guardado, estava Cornélia, a matriarca e aniversariante que completava 89 anos. Primeiro chegaram as noras com os netos, depois os filhos. A velha. sentada. impassível, se perguntava como ela, tão forte, pudera gerar uma família tão medíocre. Cantaram, parabéns atrapalhados todos fingiam entusiasmo, incapazes de uma alegria verdadeira A velha foi ríspida o quanto pode. Escandalizou os presentes e envergonhou Zilda, cuspindo no chão. Temos o retrato de uma velha amargurada pela morte do filho que admirava, e o desprezo por todos os demais é oriundo neste fato. É preciso observar que Cornélia é a matriarca de todo o clã e seu nome é de acepção latina e significa duro, forte. "A menor mulher do mundo" Encontrada no coração da África, por Marcel Pretre, um caçador e explorador, a menor mulher do mundo tinha 45cm e era escura como um macaco. Vivia numa árvore com o seu concubino e estava grávida. A sua foto, tirada pelo francês, na qual ela aparecia em tamanho natural, foi publicada em jornais de todo o planeta despertando nas famílias o desejo de possuir e proteger aquele pigmeu do sexo feminino, ser humano em miniatura. Os selvagens Bantos, conterrâneos da menor mulher do mundo, adoravam capturar e comer aquelas miniaturas. As crianças queriam a mulher para brincarem de boneca. "Mamãe, se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho enquanto ele está dormindo? Quando ele acordasse, que susto, hein", disse um menino. Sua mãe olhava-se no espelho e enrolava o cabelo quando ouviu isso, Lembrou-se de uma história contada pela empregada, que passara a vida num orfanato. As meninas da instituição não tinham brinquedos. Um dia, uma delas morreu, e as outras esconderam-na das freiras no armário. Quando não estavam sendo vigiadas, pegavam a defunta como se fosse uma boneca, davam-lhe banho, penteavam-lhe os cabelos botavam-na de castigo, punham-na para dormir... Pensando nisso a mulher considerou cruel a necessidade humana de amar e possuir, a malignidade de nosso desejo de ser feliz, a ferocidade com que queremos brincar. A alma das famílias queria devotar-se àquela frágil criatura africana. Enquanto isso, a própria coisa rara, a menor mulher do mundo, grávida, sentia o seu peito morno de amor. Amava e ria. Amava o explorador amarelo, a sua bota, o seu anel brilhante. Amava e ria, e deixava o homem grande perplexo. Pequena Flor, era assim que o francês a chamava, sabia que o amor era não ser comida pelos Bantos, era achar uma bota bonita, gostar da cor do homem que não é negro, e rir. O explorador não entendia o amor que lhe saía por aquele riso. Ele, que já conhecia um pouco da sua língua, fazia-lhe algumas perguntas, às quais Pequena Flor respondia "sim", "Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo, pois é bom possuir, é bom possuir, é bom possuir." "O Jantar" Num restaurante, um homem observa atentamente um velho a comer. Ambos não se conheciam. A brusquidão e a dureza do velho chamaram a atenção do homem, que lhe vigiava cada gesto. Até que o homem, extasiado, e sentindo certa náusea, percebeu no velho uma lágrima. Então, não tocou mais no prato, enquanto o velho terminou a sua refeição, comeu a sobremesa, pagou a conta, deixou uma gorjeta para o garçom e atravessou o salão, luminoso, desaparecendo. O observador medita: "eu sou um homem ainda." "Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruiria. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue". "Preciosidade" Ela era uma estudante de 15 anos, não era bonita, mas tinha sua preciosidade. A mocinha, protagonista deste conto, atravessará este estado transformando-se em mulher, rito em que se dará a perda do que lhe é precioso possivelmente sua virgindade. Acordava muito cedo para ir à escola, precisava tomar um ônibus e um bonde, além de caminhar até o ponto. O caminho era difícil, não gostava que a olhassem. Andava rígida, severa, não admitindo sequer que os homens no ônibus ou os rapazes na escola pensassem nela. Mas o barulho de seus sapatos com saltos de madeira chamavam a atenção de todos, o que a perturbava terrivelmente. Ela era inteligente e aplicada nos estudos (uma maneira de ser respeitada e manter os homens afastados), À tarde tinha em casa apenas a companhia dos livros e da empregada. Certa manhã, ao sair para a escola, só na rua percebeu que ainda estava muito escuro, quase noite. Prosseguiu, enfrentando a madrugada. A caminho do ponto, viu na rua dois rapazes que andavam em sentido oposto ao seu. Procurou manter o ritmo e a calma, eles passariam por ela e continuariam naquela direção, distanciando-se. Avançou, procurando não olhar para eles, nem demonstrar medo. Mas o que se seguiu não teve explicação. (..) foram quatro mãos que não sabiam o que queriam, quatro mãos erradas de quem não tinha a vocação, quatro mãos que a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada," Na fuga os sapatos dos dois rapazes fizeram um barulho louco que soou por algum tempo na sua cabeça. Ela premiu-se contra o muro, ficou ali impossibilitada de qualquer ação, até que, lentamente, começou a mover-se, catar os seus livros e cadernos, e neles via a sua antiga caligrafia. Ela era outra. Dirigiu-se à escola, onde chegou com duas horas de atraso. Não falou a ninguém sobre o que ocorrera. No banheiro, gritou: "estou sozinha no mundo!". Em casa, durante o jantar, reivindicou:" Preciso de sapatos novos! Os meus fazem muito barulho, uma mulher não pode andar com salto de madeira, chama muita atenção ao que lhe responderam: "Você não é uma mulher e todo salto é de madeira." "Ate que, assim como uma pessoa engorda, ela deixou, sem saber por que processo, do ser preciosa. "Os laços de família" Depois de duas semanas de visita, Catarina levava a sua mãe para a estação, onde a senhora tomaria o trem e se despediria da filha. Elas estão no táxi. Catarina recorda-se do desconforto causado pela breve convivência entre a sua mãe e o seu marido. O genro e a sogra mal se suportavam. Mas, na hora da partida, ambos encheram-se de generosidade e delicadeza. Catarina tinha vontade de rir. Ria então pelos olhos, como permitia seu estrabismo. A mãe desta jovem mulher chamava-se Severina, A severa mãe, em tom de desafio e acusação, lembrava o quanto o menino, seu neto, estava magro. Magro e nervoso." Catarina concordava, paciente. Antônio, esposo de Catarina e pai do menino nervoso, certa noite irritou-se profundamente com tais observações da sogra. De repente, uma freada do carro lançou as duas mulheres uma contra a outra, provocando entre elas uma brusca intimidade de corpos já esquecida. Era como se lhes acontecesse um desastre, uma catástrofe irremediável. Não esqueci nada?", perguntava Severina pela terceira vez. Elas evitaram olhar-se até a estação. Catarina nunca fora de muitos carinhos e intimidades com a mãe. Fora, sim. uma filha muito próxima, muito achegada ao pai, cheia de beijos, abraços, cumplicidade. Dentro do trem, como elas não tivessem o que dizer, a mãe retirou um espelho da bolsa, examinando a sua aparência. Quando a campainha da estação tocou, mãe e filha se olharam assustadas, chamando uma pela outra. Parecia que, todos aqueles anos, elas se tinham esquecido de dizer algo, como: 'sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha". Mas não o disseram, fizeram-se recomendações. mandaram lembranças para os parentes, e o trem se foi. Agora, sem a mãe, Catarina recuperava o seu modo firme de andar. Caminhar sozinha era mais fácil, nada a impediria de subir mais um degrau misterioso nos seus dias. Catarina voltou para casa "disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito." Encontrou o marido na sala, lendo os jornais de sábado, o seu dia tomado de volta com a partida da sogra. O menino magro e nervoso estava no quarto, distraído... Procurando chamar a atenção do filho, a mãe sacudia uma toalha na sua frente. Foi quando. pela primeira vez, o menino lhe disse: 'Mamãe', sem nada pedir, e num tom diferente do que usava antes. Alguma coisa se quebrara entre eles e Catarina estava extasiada, O seu corpo inteiro riu, não só os olhos. Tomou o seu filho pela mão e saíram para um passeio, deixando Antônio atônito na sala, sem saber aonde iam O homem dirigiu-se a janela e viu, já na calçada, a mulher e o filho. Ele olhava pela janela, a mulher andando depressa com o filho. Sentia-se frustrado, ela tomava sozinha o seu momento de alegria. Decidiu que depois do jantar iriam ao cinema. Depois do cinema, seria noite. E "este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador", "Começos de uma fortuna" Artur é um garoto obcecado por dinheiro. O conto gira em torno das suas preocupações em como ganhá-lo: dai, a presença de palavras como mesada e frases como: "logo que alguém tem dinheiro aparecem os outros querendo aplicá-lo, explicando como se perde dinheiro" ou "basta você ter uns cruzeirinhos que mulher logo fareja e cai em cima. Indo ao cinema com o seu colega Carlinhos, com Glorinha e uma amiga desta, Artur se mostra menos preocupado em divertir-se do que em imaginar se está sendo explorado ou não. De certo modo, Carlinhos é o oposto de Artur: acredita que dinheiro existe para ser gasto, preocupando-se menos em ganhá-lo do que em ganhar uma garota. Já Artur não pretende tomar quantias emprestadas (para não ter de devolvê-las), não planeja empregá-las em coisas. No entanto, ele se vê obrigado a fazer um empréstimo com Carlinhos, uma vez que não tem como pagar a entrada de cinema para Glorinha. "O crime do professor de matemática" Era domingo, os católicos dirigiam-se à igreja. Um homem os observava da colina mais alta da chapada. Carregava um saco pesado na mão e, nas costas, a culpa de um dia ter abandonado um cão com o qual tinha uma relação de afeto. De dentro do saco o senhor retirou um cachorro morto. Era-lhe desconhecido, sentou-se ao seu lado e observou, solitário, a paisagem ao redor, a chapada deserta com a sua única árvore. Do saco tirou uma pá e começou a pensar onde enterraria o defunto. Talvez rio centro da chapada, lugar em que ele mesmo gostaria de ser enterrado. Diante da dificuldade de determinar a exata posição do centro da chapada, resolveu enterrá-lo ali mesmo, precisamente embaixo dos seus pés. Pegou a pá e pôs-se a cavar. O crime do professor de matemática não consistia em ter matado o cão desconhecido. Encontrara-o já morto, numa esquina, e surpreendera-se com a idéia de enterrá-lo. O corpo do cão representava para ele o cão verdadeiro, o que abandonou ao mudar-se com a família de uma cidade para aquela em que agora vivia. Enfim, o professor enterrou o cão, bem à superfície, para que não perdesse a sensibilidade. Para o homem, esse ato era a maneira que achara de redimir-se do seu pecado, de punir-se do seu crime com o outro cão, o abandonado. Sentindo-se finalmente livre, o homem pôs-se a pensar no verdadeiro cão, como quem pensasse na verdadeira vida, Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias á tua", pensou com saudades. "Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma, (...) Quanto me amaste mais do que te amei. Refletindo a relação que estabelecera com o cão, o homem revelará aos poucos os motivos que tornaram impossível a convivência entre ambos: "E, abanando tranquilo o rabo, parecias rejeitar em silêncio o nome que eu te dera. (...) Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. Era o ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que entendêssemos. Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso que pouco a pouco me ensinavas, e era isso também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada , me pedias demais. De ti mesmo exigias que fosses um cão. De mim exigias que eu fosse um homem." A cabeça matemática e fria do homem pouco a pouco entendeu que o que fizera ao cão era impune e definitivo, pois "não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições'. O professor, então, passou a olhar a cova onde havia enterrado sua "fraqueza e sua condição, e era como se "José, o cão abandonado, exigisse dele (...) num último arranco, que fosse um homem e como homem assumisse o seu crime. O professor não queria mais se sentir livre de seu crime, não seria nunca um homem se abandonasse tão facilmente também sua culpa. "Agora. mais matemático ainda, procurava um meio de não se ter punido." O homem. lentamente, desenterrou o cachorro desconhecido e renovou o seu crime para sempre. transformando em um verdadeiro homem, o professor desceu a chapada. "O búfalo" "Eu te odeio" disse a mulher, muito depressa, a um homem que não a amava. Mas a mulher só sabia amar e perdoar, e 'se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida'. Então, numa tarde de primavera, ela visitou o jardim zoológico em busca de um animal que lhe ensinasse a odiar. Encontrara amor nos leões, na girafa, nos macacos. O camelo fizera-lhe topar com a paciência e a poeira. Só a última, e a sua aridez, a interessava. A aridez e não mais as lágrimas. Onde estaria o bicho que lhe daria o sentimento que procurava? Com a sua violência, sozinha, foi para a 'fila dos namorados", esperando a sua vez de entrar no carrinho da montanha russa. Depois de ser sacudida no ar como uma boneca, saiu pálida, como se fora "jogada fora de uma igreja". Voltou a andar, procurando o animal e o ódio. Encontrou o búfalo, que a espiava ao longe. Ele era negro e seus cornos muito alvos. A mulher ficou desconfiada, parecia que o búfalo a olhava. Ela desviou os olhos, o seu coração batia descompassado. "O búfalo deu uma volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco. (...) Uma coisa branca espalhara-se dentro dela (...). A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo e longo suspiro ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera.' O animal agora lhe parecia mais negro e maior. Começou a provocá-lo, gritando e jogando-lhe pedras. O ódio, como um fio de "sangue negro', como gotas de "óleo amargo" começou a pingar dentro dela, "fêmea desprezada". O búfalo voltou-se para ela e encarou-a de longe. "Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo'. O búfalo, provocado, aproximou-se lentamente. "Ele se aproximava, a poeira erguia-se'. Como a mulher não recuava um só passo, os seus olhos e os do animal fitaram-se diretamente. "Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. O olhar a mantinha presa "ao mútuo assassinato (.) como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo'. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
A Cartomante Narra a história de Camilo, Vilela e Rita. Os dois primeiros eram melhores amigos; a segunda era esposa do segundo e amante do primeiro. Quando Camilo começa receber denúncias anônimas, diminui a freqüência das visitas ao amigo. Preocupada, Rita visita uma cartomante, fato que faz Camilo rir. Quando Vilela chama Camilo a sua casa ele vai preocupado, e passa antes na cartomante pensando que não tem nada a perder. Ela lhe assegura que nada vai dar errado e ele chega despreocupado a casa de Vilela, onde encontra Rita morta. Vilela então o mata. A Causa Secreta Fala de dois homens que, após um salvar a vida do outro e passar-se algum tempo, tornam-se sócios. Mas pouco a pouco um deles vai demonstrando tendências sádicas, torturando animais, fato que atordoa a esposa. Quando ela morre, Fortunato, o sádico, presencia o amigo beijar a testa da mulher e derreter-se em choro, saboreando o momento de dor do amigo que lhe traía. A Igreja do Diabo É uma nova idéia do diabo: fundar uma Igreja e organizar seu rebanho, tal qual Deus. Após comunicar Deus de seu futuro ato, vai à Terra e funda com muito sucesso uma Igreja que idolatra os defeitos humanos. Mas aos poucos os homens vão secretamente exercitando virtudes, Furioso, o Diabo vai falar com Deus, que lhe aponta que aquilo faz parte da eterna contradição humana. Anedota Pecuniária É uma pequena crítica a ganância. Nela um homem "vende" suas sobrinhas aos homens que as amam por causa de sua fascinação com o dinheiro.

A Sereníssima República É uma crítica ao processo eleitoral, feito como um discurso de um cônego que afirma ter achado uma espécie de aranha que fala e criado uma sociedade delas, uma república chamada Sereníssima República. Ele escolhe como sistema de eleição um baseado no da República de Veneza, onde retirava-se bolas de um saco com o nome dos eleitos. Este sistema vai sendo fraudado pelas aranhas, corrigindo-se, adaptando-se e variando-se diversas vezes e de diversos modos, eternamente corrupto. Capítulo dos Chapéus É um conto onde aparece a frivolidade e ostentação da época de Machado. Mariana, após pedir ao marido que troque o seu simples chapéu, testemunha a sociedade (na famosa rua do Ouvidor) e acaba pedindo que ele permaneça com seu chapéu. D. Paula Conta sobre um casal que realiza uma separação temporária por ciúmes, com fundos, do marido. O caso é mediado pela tia da esposa, Dona Paula, que quando descobre quem é o outro, fica abalada. É o filho do homem com quem teve caso análogo, fato que deixa seus sentimentos bem abalados em relação ao caso. Fulano Beltrão é um homem que vai aos poucos se tornando mais um homem público que privado após receber elogios públicos e acaba deixando seu dinheiro para a posteridade e não a família. O Espelho Conta sobre um homem falando de sua opinião sobre a alma humana num grupo de amigos que realizam discussões metafísicas. Ele descreve uma situação de sua juventude onde, após ter sido engrandecido pelo recém-conquistado posto de alferes, encontra-se sozinho. Solitário, passa a ter medo até a que um dia veste-se com seu uniforme de alferes e encara o espelho, encontrando assim o outro lado de sua alma (sua opinião é que temos duas almas, uma externa que nos vigia e a nossa que vigia o exterior). Isso retira-o da solidão. Portanto, este conto envidencia o conflito entre a essência (a alma interior) e a aparência (alma exterior). Teoria do Medalhão É um pai aconselhando um filho no dia de seus 21 anos. Ele lhe diz que um futuro lhe espera, que pode ter várias carreiras diferentes, mas que devia ter uma de resguardo, preferencialmente a de medalhão. Para isto devia ter pouquíssimo conhecimento, originalidade, ironia, gosto ou qualquer idéia própria. E nisso disserta sobre a necessidade do filho de sempre manter-se neutro, usar e abusar de palavras sem sentido, conhecer pouco, ter vocabulário limitado, etc. Ao final, é uma bela ironia machadiana sobre como encontram-se os valores da sociedade de sua época. O Enfermeiro Conta sobre um homem que, a beira da morte, conta um caso de seu passado. Ele foi em 1860 ser enfermeiro de um velho e mau coronel, que acaba esganando alguns dias antes de partir por não mais o suportar. Quando abre-se o testamento ele é declarado herdeiro universal e distribui lentamente o dinheiro em esmolas. Enquanto isto se passa, vai lentamente se convencendo de sua inocência, apoiado pela sociedade que odiava o velho e suas ações que considera redentoras Pai Contra Mãe Cândido Neves, caçador de escravos fujões. Não o é por opção, apenas o é porque não agüenta qualquer outro emprego. Casa e passa a adquirir dívidas, com clientela cada vez menor; quando engravida a mulher, as dívidas aumentam. Depois de despejados vão morar em um quarto emprestado e o menino nasce. Após ceder às pressões da tia da esposa, Candinho vai por a criança na Roda dos enjeitados. Mas no caminho captura uma escrava, recebendo uma gorda recompensa, mantendo assim a criança. Mas a escrava estava grávida, e provavelmente abortou com os castigos recebidos, ficando a vida do filho de Candinho em troca da de outra Missa do Galo Fala de uma singular conversa entre uma senhora de 30 anos e um jovem 17, que tinha que manter-se acordado para acordar o amigo para irem à missa do galo. Eles conversam, ele apieda-se dela (o marido traía e ela resignava-se), admira-a e distrai-se. Por fim o amigo lhe chama, já que já havia passado da meia-noite e ele nunca mais tem outra conversa profunda com ela. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Uma tarde, o jornalista Carlos Heitor Cony recebe inesperadamente um envelope. Reparando bem, identifica no sobrescrito a letra do pai falecido havia dez anos. A visão do embrulho desata a memória, e tem início, assim, a cerimônia de reencontro de um filho com seu pai. De um simples pacote, ainda não aberto, saltam alguns sinais: a técnica de fazer o embrulho, a perfeição do nó no barbante, o formato da letra, a tinta roxa e certos cheiros (de alfazema, de brilhantina e de manga). Cada sinal trás de volta uma história inesperada do homem Ernesto Cony Filho, que possuía um formidável apetite de viver. Apetite que se manifestava nas maneiras de reinventar a vida com muito bom- humor , mesmo em momentos difíceis, quando perde o posto nas redações de jornais devido a reviravoltas na política brasileira. Nem quando Carlos Heitor Cony esteve no Seminário houve separação e ausência. O pai dava um jeito de aparecer, sempre inesperadamente, no meio de cerimônias públicas para entregar ao menino Cony um sanduíche de presunto, um prato com deliciosa comida de botequim. Para quem viver era mais importante que ganhar dinheiro, os sonhos eram fundamentais: uma viagem à Itália, para estabelecer contatos promocionais entre uma estação de águas medicinais e o Brasil, ficou pela metade, mas era contada para sempre como se tivesse acontecido, com os detalhes precisos, com entusiasmo e convicção. No quase - romance , pequenos gestos ganham dimensão de grande aventura e poesia: separar papéis de seda de várias cores, fazer balões, soltar balões, recolher o balão que volta à casa em que foi construído. Cruzando os céus e o tempo, os balões são o símbolo da mais forte e definitiva relação entre dois homens - pai e filho. O escritor Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, é um grande nome da literatura brasileira da atualidade. Com este romance, que ganhou o prêmio Jabuti em 1996, rompe com a tradição dos memorialistas brasileiros para quem escrever sobre o passado é uma forma de fazer um acerto de contas com a família, de se vingar de pessoas que ficaram pelo caminho. A memória, quando é quase - memória , não se apresenta como testemunha da história, nem como escrita do ressentimento. Torna-se, principalmente, uma maneira de se expressar a alegria de lembrar do passado, além de reafirmar cumplicidades definitivas, como a criada com o homem que nos toma pela mão e nos leva para o mundo, o nosso pai. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  


Clique abaixo para ver um pouco do Programa Zmaro
Humor inteligente de forma descontraída...

 

De grão em grão a galinha enche o bico!!!
Contribua com o PobreVirtual e Programa Zmaro. Curta, comente e compartilhe o Programa Zmaro nas suas redes sociais.
Envie seus resumos, receitas, dicas, provérbios e o que mais tiver para comaprtilhar no PobreVirtual e no Programa Zmaro. Basta acessar
www.pobrevirtual.com.br/fale
Ou se preferir você pode contribuir financeiramente depositanto qualquer valor em qualquer lotérica (Caixa Econômica Federal): agência 1998, operação 013, Poupança número 8155-0, ou veja outros meios em www.Zmaro.tv/doe 
Livros e cursos são caros, me ajude a aprender novas linguagens para lhe ensinar melhor e incrementar este site com várias novidades. Quando você passar em frente a uma lotérica, lembre-se que existe alguém que precisa muito desta(s) moedinha(s), ponha a mão no bolso e perca alguns segundos do seu tempo e faça um depósito. Pegue aquela moedinha que vai acabar caindo do seu bolso e dê um bom destino a ela.