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Pareceres do Tempo - Herbeto Sales
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Eu, única obra de Augusto dos Anjos, reúne sua obra poética. De linguagem cientificista (a minha edição tem "só" 373 notas de fim), o poeta mostra uma obsessão com a morte simultânea a sua aversão a ela. Fala de si mesmo, da doença que o vitimou (tuberculose), da humanidade, dos sentimentos, do banal; tudo pessimismo, linguagem e técnica impecável. O vocabulário e as imagens poéticas, que incluem expressões como "escarra esta boca que te beija", levaram os críticos da época a considerá-lo um poeta de mau gosto; não é verdade. Augusto dos Anjos em Eu demonstra uma visão de mundo como a de Machado que não se manifesta do mesmo modo sutil, mas é igualmente poderosa. Parnasiano na forma e simbolista nas imagens, Augusto dos Anjos é um pré-modernista e mostra nesta obra por seu estilo único e inconfundível. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
O universo dos contos é sempre o mesmo as "itaócas" ,cidadezinhas do Vale do Paraíba paulista , com suas casas de tapera, ruas mal iluminadas, políticos corruptos, patriotadas, ignorância e miséria. Sua vivência de promotor público e fazendeiro nessas "cidades mortas",arruinadas após o fastígio do café, orienta a fidelidade à paisagem regional e reforça a ironia com que critica o caipira , o capiau, personificado nos "jecas-tatus" , nos "piolhos da terra". Apoiada na narrativa oral, na técnica do contador -de- casos , fixa flagrantes do homem e da paisagem, tomados em seus aspectos exteriores, comunicando ao leitor, de modo eficiente, a sugestão de marasmo e indolência reinantes. A intenção didática, moralizante, que emerge da denúncia e da ironia, levam Lobato a articular suas narrativas em torno do ridículo e do patético em que desembocam quase todas as suas histórias, povoadas de cretinos , idiotas, aleijados ( dos quais o narrador extrai efeitos cômicos), e arrematadas por finais trágicos m chocantes ou deprimentes. Não há profundidade na colocação dos dramas morais; o que Lobato buscou foi narrar com brilho um caso, uma anedota e sobretudo , um desfecho feito de a caso ou violência. A narrativa se interrompe , com freqüência , para que o Lobato-doutrinador desenvolva suas digressões explicativas ou polêmicas. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Considerações Gerais Romance metaliterário (o narrador fala da obra) em linguagem fragmentária, através da qual o narrador, um crítico de teatro, conta-nos seu envolvimento criminoso com Inês, uma mulher manca e misteriosa. Consciente de que a verdade em si é uma composição de signos (representações), se diverte com o leitor. Afinal, onde a verdade do ocorrido estará? Nas ações do teatro que ele critica? Nas pinceladas do pintor? Nas palavras do escritor? Como espelhos estilhaçados que precisam se unir, ou como linguagens diferentes costurando-se umas às outras, talvez encontremos a(s) resposta(s) para o fato: um crime delicado! E foi através desses espelhos, que refletem uns aos outros, que minha observação se deu, bastante discreta e oblíqua. O que importa, então, é deixar correr solta a mente, e talvez a esse fluxo é que se deva chamar verdadeiramente de vida. Pois mesmo quando nos envolvemos em grandes aventuras, o que é vivê-las senão a subjetividade de quem as vive? Sou crítico profissional de teatro. Mas a profissão talvez explique muitas coisas em meu comportamento e na minha forma de viver, em minha personalidade enfim, embora eu não saiba dizer se foi esta personalidade que me conduziu naturalmente à crítica, ou se foi o exercício desta que terminou por contaminar meu comportamento e minha personalidade. Antônio Martins, ao tentar reconstituir retrospectivamente sua história, representando-a em diferentes linguagens, deixa em aberto várias possibilidades de interpretar o que se passou.

Teria ele sido vítima de uma armadilha elaborada pelo artista plástico Vitório Brancatti, protetor e possível amante de Inês? Estaria ele próprio falando a verdade sobre o seu relacionamento com a moça, ou apenas criando o seu texto? O crítico agora é você, leitor! Resumo Romance narrado em 1ª pessoa, em três partes, subdivididas em capítulos e numa linguagem que acompanha o vaivém da memória do narrador, um crítico profissional de teatro, que alguns consideravam excêntrico, solitário: Antônio Martins. Inicia o texto falando que teria visto Inês num café cujas paredes e colunas eram espelhadas. ...uma visão discreta e oblíqua, mas que por vezes, podia jurar que o observado era ele. Inês, uma mulher com rosto de traços finos e delicados, seios pouco salientes, mulher magra, com o corpo bem- proporcionado, cabelos claros, encaracolados - de olhar melancólico e solidão recatada - assim a teria visto, após duas doses de conhaque - o que, segundo o narrador, eram suficientes, pois se continuasse a beber... ...no dia seguinte poderia descambar, acelerar de forma desritmada os fluxos de sua mente, passar de uma exaltação quase feliz para um abatimento cheio de imagens e pensamentos dolorosos - uma tendência que ele procurava controlar: o alcoolismo. Antes de se retirar do café, ele observa que um homem de meia-idade, com cabelos revoltos e grisalhos, inicia uma conversa familiar com a moça, mas percebe que ele os observa, lançando-lhe um olhar firme, mais curioso do que hostil. No capítulo seguinte, certa tarde, Antônio atravessava o largo do Machado, no centro do Rio de Janeiro, e fora acometido por uma premonição, a de que algum incidente estava prestes a ocorrer. No metrô, ainda quando descia os degraus da escada, ao virar-se instintivamente uma mulher cai sobre o seu corpo, e é amparada em seus braços. A moça é manca, mas de uma beleza singular. Antônio a reconhece como a moça que o impressionara no café. Segue-a até a rua Paissandu, local de sua residência. Inês era seu nome, e ela também o reconhece. Num espetáculo teatral, Antônio percebe que o que se passara com Inês e ele no metrô o emocionara - e isso interferiria - embora não devesse, em seu julgamento da peça que analisava. ...dois jovens em crises existenciais que, segundo o crítico, uma simulação do amor beirando a impotência e buscando ostentar-se na própria teatralidade, numa pretensa metalinguagem que não passava de um álibi - uma coisa tediosa e medíocre. Enfim o espetáculo. Folhas de outono (folhas secas que caíam através de uma janela cênica) representavam o aprisionamento da atriz. Podemos ler esse aprisionamento observado na peça como signo- sinal da relação de também aprisionamento entre Inês e Brancatt, ou seja, uma dica do narrador, que retira fragmentos da linguagem do teatro que analisa para construir o seu texto e confundir ou brincar com o leitor. Neste "texto" também há forte comparação da atriz com Inês. ...a imagem de Inês que insistia em pairar, no decorrer da peça, em meu palco interior? Relembrando: Antônio e Inês trocam olhares no café; Inês cai em seus braços no metrô no dia seguinte; Antônio a acompanha até a rua de seu apartamento; marcam um encontro num bar- restaurante no Leblon, onde Inês já o estaria esperando. ...ele que chega 10 minutos antes da hora marcada, depois de haver tomado um uísque em casa, de puro nervosismo. Inês ri ao saber que Antônio era crítico de teatro e, entre goles de uísque, Antônio tem a impressão desconfortável de que ela apenas se deixara tomar pela mão sem nenhum tipo de retorno; mas o induziria a ir a seu apartamento, e que no dia seguinte entre imagens superpostas, lembranças e projeções vagas que lhe vinham em forma de lampejos, ele descreve-nos o local: uma muleta e uma tela sobre o cavalete, sons de um trompete, cheiro de tinta e perfume no ar além de um biombo negro com ramagens prateadas. Embriagado, envolto nos sentimentos que o levavam a desvendar Inês, acreditou na força do destino, mas já em casa questionava: seria ela uma pintora? E o biombo escondia uma Inês com problemas físicos? Seria o local para despir-se fora das vistas mesmo de um amante? Ou preparado por Inês para enciumá-lo? Inês teria neste encontro no Leblon pedido a Antônio que fosse comprar analgésicos e tranqüilizantes enquanto esta daria um telefonema. Antônio sequer a viu andando. Sua perna manca teria sido um artifício para eles se aproximarem? No apartamento, Inês se coloca inerte no divã. Teria misturado o tranquilizante álcool? Sente por ela um arrebatamento de uma força delicada. Antônio a conduz para a cama, despindo-a. Inês abre os olhos, arregalando-os em pânico. Antônio tem a reação de exibir a transparência de suas intenções, mas ao acender a luz, Inês tinha os olhos fechados. Parecia dormir, ou fingia que dormia? Exibir transparência ou como narra Antônio: ...tentava fugir para não ser surpreendido numa situação dúbia? O resto? Ele apenas se erguera e voltara para casa, acordando em sua cama. Antônio teme um reencontro com Inês, preocupa-se com a seqüência dos fatos produzidos por uma memória prejudicada, deixando vazios que possivelmente encobririam algum ato que sua mente não ousava trazer à tona. Antônio a teria despido? E o cheiro de tinta que ainda ficava em sua memória olfática, saíra do biombo? O que Inês pensaria de seu delicado gesto? Despi-la para a cama? Como ela os interpretaria? E o quadro, e o cavalete atrás do biombo? Relembra o encontro no metrô, teme reencontrá-la e se isso ocorresse, como despistá-la da coincidência sem que ela tecesse suspeitas? Em casa constata um pequeno ferimento no joelho; desiste de um contato com Inês, vai ao teatro. Antônio recebe um envelope de Inês Brancatti, levado por um homem de moto e uma moça. Enciumado por imaginar Inês com o motoqueiro , rasga o envelope com raiva e junto a um convite há uma cartinha em papel perfumado e cor-de-rosa, com o endereço e telefone. Trata-se de uma mostra coletiva de pintura com o título de Os Divergentes. Os Divergentes expunham no Centro de Expressão Vida, na rua Viúva Lacerda, no Humaitá. Ao sondar a exposição, crítico que era, não encontra nela valores contemporâneos mas: ...fruto de pincéis de pessoas medianas, talvez normais, com suas figuras, paisagens, naturezas mortas. Antônio encontra Inês próxima a um quadro que revelava o apartamento onde estiveram. Imagens refletidas reproduziam, em detalhes, o cenário em que se encontraram, e Inês ali o concretizava. Ele percebe que ela não os poderia ter pintado (um auto-retrato fazendo uso de um espelho). Fora usada como modelo do pintor Vitorio Brancatti - o homem que a acompanhava no café quando se viram pela primeira vez. Antônio é fotografado em frente ao quadro, e a sensação que tem é que caíra numa armadilha. Na tentativa de encontrar uma confidente entre as muitas amigas que tinha, tenta ligar para Maria Luísa, uma professora universitária, bonita, madura um tanto séria, mas relaciona o telefone a outra Maria Luísa, essa uma atriz de teatro e TV. Luísa atuava em uma adaptação de Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues - era Lúcia, uma das irmãs que disputavam o mesmo homem: Pedro. Na saída da peça, esperando-a trocar de roupa, Antônio bebe um conhaque para relaxar. Vai ao café com Luísa, e lá não vê Inês. Entre Antônio e Luísa o encontro é um fracasso. Ambos cumpriam um ritual de interesse e sedução. Da parte dele, um equívoco. Antônio procura Maria Clara, uma amiga quarentona e solitária, que o aconselha a transar com Inês, nem que fosse apenas para libertar-se dela. Antônio vai a peça Albertine - uma adaptação livre de temas proustianos , de autoria da paulista Beatriz Sampaio. Nessa peça há algo de traiçoeiro para o leitor: o narrador por meio de códigos, oferece-nos pistas sobre seu envolvimento com Inês. A peça é em pré- texto. Proust sempre numa cama adornada de rendas, enquanto vários de seus personagens - numa movimentação por vezes lenteada, pairavam surgindo e desaparecendo ao redor do leito - numa cenografia móvel, constituída, entre outras coisas, de obras de arte ou pretensamente (como já vulgarizadas reproduções de Monet, Renoir.), além de texto do mestre Proust que podia ser ouvido, ora em off, ora através de personagens. Lembre-se, leitor, do biombo, do perfume, da muleta, da música, enfim... sinais que nos remetem ao apartamento de Inês. Dois dias depois do espetáculo Albertine, Antônio encontra um recado de Inês em sua secretária eletrônica: precisava falar com ele. Ele aceita um convite de Inês para um chá naquela tarde em seu apartamento, e mais confiante não pretendia baixar a guarda emocional e a crítica. Exporia isso ao revelar suas impressões quanto ao quadro de Vitório Brancatti. Veja: modelo em plano desproporcional em relação aos demais elementos da composição; · Perspectiva chapada, aproximando e realçando os elementos de fundo - a tela no cavalete, a muleta e o divã - sem ofuscar o principal; · Desvio estético - Inês devassada em sua intimidade; · O biombo tornava a cena mais poética - cingindo de uma auréola de inocência a modelo, que, atrás daquele compartimento, não estaria supostamente se percebendo observada, e que não teria como se achar presente naquele espaço; · Gosto duvidoso ao macular pela exibição, sobre a borda do biombo, a calcinha branca e o sutiã vermelho, cuja textura em tintas materializava como algo tátil sobre a tela. Tudo isso, pensa Antônio, quase alegre, confiante por ter cercado criticamente a obra de Vitório por todos os ângulos enquanto se aproxima do edifício de Inês. Inês o introduz ao apartamento elegantemente e Antônio ao atingir a sala é assaltado pela sensação... ...vizinha da loucura - de que não penetrava num cômodo real e sim num espaço preparado, onde havia algo de falso, como um cenário, ou mais abissalmente, o interior de um quadro de Vitório Brancatti. Inês agradece, referindo-se à noite em que ela havia sido levada para a cama e que não desgostara do fato. Estaria querendo reviver o que se passou? Ou estaria usando Antônio que teve uma brilhante intuição. ...se Vitório dispunha de Inês, que tentava dispor de mim, Vitório estaria dispondo de mim, caso eu me deixasse levar; e alguém (Vitório?) poderia estar se ocultando atrás do biombo para nos espionar... Durante o chá, Antônio questiona e analisa Inês, que aos poucos, cai em contradição - E o apartamento, é de Vitório? Inês ergue-se subitamente, derrubando a xícara, com um resto de chá, sobre a mesa. Eu só a vira assim tão transtornada depois da queda na estação do metrô. - Ele o alugou para mim. Eu sou sua modelo. O que está querendo ensinuar? Depositei minha xícara na mesa. - Desculpe-me, não quis ser indelicado. Mas ele também o reformou para você, não foi? - Sim, reformou a seu gosto e daí? Vitório é um artista. - Será possível que você não se dá conta? - Dou-me conta de quê? - ela disse, com a voz embargada. - De que o apartamento é um cenário para você se movimentar dentro dele segundo um esquema de probabilidades previsto por Vitório de acordo com seus caprichos? E de que a obra que vi na exposição não passa de uma documentação disso? A obra de Vitório, de certa forma é você mesma, Inês, e ele precisa mantê-la encerrada aqui. É diabólico e aviltante. Mas posso dizer que ele está de parabéns. Antes de, pelo menos aparentemente Inês perder os sentidos, julguei ouvi-la sussurrar, quase coincidindo com o fim da música: - Ele me escraviza. Tomado por uma delicadeza e impetuosidade indescritiva, Antônio toma Inês nos braços - como que se a personagem-modelo e personagem da pintura que Antônio via na exposição houvesse se soltado da obra , naquele cenário com seus móveis e adereços, fazendo deles imagens de um quadro em movimento; uma cena para qual Antônio fora tragado. Amam-se sem resistência, mesmo que nos últimos momentos Inês tenha murmurado repentinamente "oh não", "oh não", que Antônio interpreta como um sim de entrega dentro de um código amoroso. Na consciência de estar agindo como autor e ator de uma cena de uma instalação de Vitório, Antônio volta a si e percebe Inês chorando, denunciando a chegada, provavelmente, de Brancatti, Nilton, o motoqueiro e Lenita - o que faz Antônio, às pressas, deixar o apartamento. Ao passar pela portaria, Antônio está com uma aparência suspeita – roupas e cabelos desgrenhados, o colete vestido pelo avesso - e enfrenta o olhar do porteiro, que o faz sentir-se como alguém que foge depois de ter cometido alguma ação criminosa. No entanto, Antônio está comendo um biscoitinho! Raivoso com o ato de Inês e já em seu apartamento, percebe no canto dos lábios um resquício ínfimo de sangue, sente-se dominado por Inês, e num impulso, escreve-lhe uma carta que mais tarde seria publicada nos jornais, dando margem a chacotas no meio teatral. Veja leitor como um ato aparentemente viril segundo Antônio como uma dose de agressividade e até de maneira brutal) isso serve aos envolvidos à Inês como para Brancatti principalmente como fato para uma acusação judicial contra Antônio: estupro. É intimado portanto a comparecer à 9º DP, no catete, para justificar seu envolvimento com Maria Inês de Jesus. Fim do 2º Capítulo Antônio é submetido a exames legais: mostras seminais, resquícios de pele colhidos nas unhas de Inês, arranhões, enfim marcas que corroboravam terem sido produzidos por Inês. Antônio rejeita a hipótese de ter coagido ou muito menos violentado Inês, mas sim ter havido entrega sem reservas por parte de Inês, que aliás não trazia em seu corpo marcas à exceção de um corte na orelha – aliás fato importante pois na falta de provas Antônio tem chances de responder em liberdade à acusação: " – Não estariam eles na presença de um criminoso delicado, refinado"? Antônio duvida de si mesmo, "teria usado Inês, uma prostituta evitando assim, ser usado por ela e o amante Brancatti?" Na sala de audiência o olhar de ambos se encontram como da primeira vez no café." Antônio percebe não ter realmente conhecido Inês, o que ela pensava de tudo aquilo e dele? Uma nova realidade abre-se a percepção de Antônio: Brancatti usava Inês e Lenita como fachadas para esconder seu relacionamento com Nílton – Veja sua crítica: "um pintor europeu do terceiro escalão que se refugia artisticamente num país provinciano e toma como esposa e ornamento uma beleza exótica dos trópicos; como amante elege um motociclista primitivo e, como modelo ou enteada e até quem sabe eventual amante uma frágil e bela jovem coxa." E para ele, qual teria sido seu papel nessa teia diabólica? Para Antônio parecia uma luta estética: um jogo de xadrez entre o crítico e o pintor. "Este escravizando a modelo num cárcere privado, físico, psicológico e artístico, e pior condenando Antônio por um pretenso crime sexual se auto prevalecia, enfim ......empenhava-se em convencer as pessoas do alto valor artístico de sua obra – propaganda em suma – o crítico teatral manipulado num cenário em plena performance entre o casal!" Fora bem sucedido em grande parte em seus objetivos escusos, conclui Antônio. Durante o inquérito será acusado também de ter saído do apartamento praguejando contra Inês – enraivecido, mordendo um biscoitinho – argumento rejeitado por seu advogado como sinal da calma, da paz de espírito dos que nada têm a temer, depois de um encontro amoroso consentido. Nessa fase processual Antônio vem a saber que os desmaios de Inês tinham uma causa cerebral definida – que sua lesão na perna, se originava de um atropelamento na infância; fato esse que legitima a idéia dela ter desmaiado ao ser possuída e a coloca como vítima de Antônio, que por sua vez percebe a força de sedução de tal desmaio, o que valorizou ainda mais a relação de ambos. Tentando reverter seu papel, Antônio contra-argumenta: " _ Não serão o verdadeiro amor e a sexualidade mais autêntica, sempre, o encontro de dois incoscientes? No que o advogado de acusação responde: - "No caso das violações, não estaremos diante da imposição do inconsciente de um sobre o incosciente de outro? Antônio tenta um novo argumento dizendo que Inês foi subjugada pela força psíquica de Brancatti e que ele a teria libertado em momentos preciosos, possuindo e sendo correspondido por ela – e tudo ocorrendo dentro de um cenário – instalação, portanto fazendo parte da mesma, ou seja, tudo fora maquinalmente enquadrado por Brancatti, e Antônio e Inês vítimas. Segundo o juiz, aturdido em face dos argumentos inusitados – e até esdrúxulos utilizados por ambas partes, absolve Antônio por falta de provas. As conseqüências do fato: Antônio perde seu lugar de consultor na fundação cultural do estado, já afastado do jornal que trabalhava, ruas a índole sensacionalista fez com que o jornal concorrente o contratasse para ser seu colunista de teatro e o caso Inês esmiuçado em seus páginas – Antônio foi criticado severamente por seus colegas como: " exemplo vivo e eloqüente dos extremos patológicos a que pode ser conduzida uma personalidade que se destaca pela contenção de seus sentimentos por meio de uma racionalidade exacerbada, a qual de repente, libera-se através do crime. Brancatti conquista renome e reconhecimento artístico – a obra A Modelo foi exibida como instalação com grande alarido crítico, na Alemanha. Quanto à Nilton abre uma academia de psicultura, bastante concorrida. Antônio não deixou de considerar o jato ou seja as duas hipóteses sedutoras – afinal como o próprio tribunal apontou – um sedutor ou violador muito especial e delicado? Claro sem deixar de lado o escutor que também era - "nessa tarefa que é narrar todas as contradições, truques e divergências e conclui. " – tanto na obra de Brancatti ou neste relato – encontra-se o absurdo, a loucura da arte, essa tentativa ansiosa, desesperada e as vezes vã, que nos alucina, de, à parte toda vaidade, registramos, no breve tempo em que estamos na vida, nossa passagem por ela, em momentos que realmente estivemos vivos e merecem ser perpetuados. Personagens - Antônio Martins: crítico profissional de teatro, narrador. Alguns o consideram excêntrico – solitário – cinquentão. - Maria Inês de Jesus, modelo do pintor Vitório Brancatti, mulher com rosto de traços finos e delicados, magra, cabelos claros, encaracolados, de olhar melancólico e solidão recatada com pequeno defeito na perna – manca. - Vitório Brancatti – pintor que envolveria Antônio e Inês em suas performances, meia idade, com cabelos revoltos e grisalhos, vestia-se com a desenvoltura de um jovem, calça jeans e camiseta branca. - Nílton – motociclista que conduzira Inês ao edifício de Antônio Martins, provável amante de Vitório Brancatti. - Lenita – jovem negra, bonita, esposa – álibi de Vitório? - Maria Luísa I – professora universitária séria, amiga e confidente de Antônio. - Maria Luísa II – jovem atriz de teatro e tv, atlética e exuberante. - Maria Clara – ex jornalista, quarentona, também amiga de Antônio. Enredo: Romance narrado em terceira pessoa. A ação desenvolve-se em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, trazendo à tona os conflitos de uma geração em busca da própria identidade e de um sentido para a vida. Eduardo, protagonista deste drama existencial, sentindo-se esmagado por uma sociedade opressiva e aniqualadora, tenta desesperadamente, até o fim, encontrar uma saída. Preste atenção: no misterioso homem de smoking que por três vezes aparece na narrativa. Estilo: Contemporâneo. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
A vida do Elefante Basílio (livro infantil) é a biografia do Elefante Basílio, tataraneto do tataraneto do bisneto do neto do tataraneto do trineto do tataraneto do bisneto do neto do tataraneto do casal de elefantes que entrou na Arca de Noé. Nascido na Índia, os pais de Basílio recusaram presentes de todos os habitantes da floresta para que o filho fosse calmo, comportado, gentil e leal. Aprendeu com os pais sobre a natureza e os homens, que por fim o capturaram. Foi levado para o Zoológico (onde aprendeu inglês com um hindu que conhecia a língua dos elefantes) e depois para um circo (onde recebeu seu nome). O circo foi para o Brasil e lá dançou uma valsa no picadeiro e salvou um menino quando o circo pegou fogo. O pai do menino, que era rico, comprou-o agradecido. Lá aprendeu português, leu muitos outros livros (já lia em Londres, no zôo) e se divertiu muito com Gilberto (o menino). Triste porque queria ser borboleta, saiu a andar pelo campo e encontrou um duende, que lhe concedeu asas de borboleta. Voando, foi alvejado por um caçador que o confundiu com um perdigão. Mas ele foi levado a um hospital e passa bem. Este livro é só mais uma amostra da imaginação de Érico Veríssimo. Os Três Porquinhos Pobres (livro infantil) são Sabugo, Salsicha e Lingüicinha.

Os três nasceram em um quintal muito pobre com alguns poucos vizinhos (o burro de óculos, o galo com um despertador na barriga, a galinha magra e o cachorro triste por não achar gatos). Eles então fogem do quintal (apesar dos conselhos do burro) e vão ao cinema (Os 3 Porquinhos, é claro, misturado com Chapeuzinho Vermelho). Aconselhados pela Lua (que já havia voltado do dentista), partem em aventuras pelo mundo, mas são presos por macacos . Na prisão fogem com o tatu Conde de Monte-Cristo. Depois encontram Chapeuzinho Verde (mas eles eram daltônicos, logo...), cuja avó eles confundem com o Lobo Mau. Depois de confusão voltam ao chiqueiro onde ficam comportados e são visitados por Chapeuzinho Verde. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Raimundo, porteiro do edifício Deauville, abandona a portaria de madrugada. Enquanto isso, acontece a morte de Paulo Gomes Aguiar. O comissário Alberto Mattos encontrou um anel de ouro com a inicial "F" gravada no banheiro da empresário morto. O chefe da guarda pessoal de Getúlio programava um atentado contra Carlos Lacerda. Paulo Gomes Aguiar era casado com Luciana e esta era amante de Pedro Lomagno. Pedro era casado com Alice. Inicialmente, Mattos acha que o anel era de Gregório Fortunato, depois descobriram que era de um negro por causa dos pelos encontrados no sabonete. Mattos conversa com raimundo e este diz que um negro foi ao apartamento de Luciana. Luciana e Pedro dizem que foi um macumbeiro. Pedro manda Chicão matar Raimundo. Pedro vai com mattos ver o macumbeiro, mas ele nãoe ra grande, forte e com os dedos grossos como o anel indicava. Gregório era o mandante da Rua Tonelero, onde Climério, Alcino e o taxista Nelson estavam envolvidos. Alcino, ao invés de matar Lacerda, acabou matando o Major Vaz. O taxista foi pego, pois sua placa foi identificada e contou tudo. Climério foge e vai para Tinguá, mas é denunciado e preso. A morte de vaz tem uma percussão muito grande. Os aliados de Lacerda estavam fazendo o povo acreditar que foi Getúlio Vargas que mandou matar o Major Vaz. Os aliados queriam de Getúlio renunciasse. Todos os policiaisrecebiam dinheiro dos banqueiros do bicho para que os bicheiros não fssem presos. Mattos e Pádua eram os ínicos que não aceitam o suborno.

Ilídio tenta comprar Mattos e este lhe dá um pontapé. Então Ilídio quis matar Mattos, contratando Turco Velho. Os outros bicheiros não deixam que isso ocorra. Pádua descobre que foi Turco Velho que quis matar Mattos e o elimina. Luiz Magalhães Sustentava salete e esta era namorada de Mattos. Gregório é preso e diz que foi Lutero Vargas o mandante do crime da rua Tonelero. Pedro Lomagno foi quem planejou a morte de Paulo Gomes Aguiar. Paulo tinha que morrer ou acabaria levando a Cemtex à falência. Contratou Chicão para matá-lo. Alice briga com Pedro e passa a moara na casa de Mattos. Como era meio desiquilibrada, tenta incendiar a casa de Mattos. Getúlio Vargas estava sendo pressionada a renunciar, enTão pediu licença do governo. Na mesma noite suicidou-se. Houve revoltas do povo, indignados com a morte de Getúlio. Mattos prende todos policiais numa sala e solta todos os presos. Teodoro conversa com Rosalvo. Paulo Aguiar estava metido em negociatas com o senador Freitas, licenças da importação foram conseguidas com fraudes com Cexim. Sabia demais e foi morto. ele achavam que mattos desconfiava que foi o senador Vitor Freitas que mandou matar paulo, para esconder sua participação na roubalheira. Teodoro contou para Clemente sobre as suspeitas de Mattos. Clemente contrata Genésio para matar Mattos. A cada dia que passa, Mattos sofre mais com sua úlcera duedenal. Salete vai morar com ele em sua casa. Chicão vaia a casa de Mattos e recebe se anel de ouro devolta. Quando Mattos vai ligar para a polícia, Chicão mata Mattos e Salete, a mando de Pedro Lomagno. Pois Mattos havia descoberto que o assassino era Chicão e o perseguiria para sempre caso vivesse. Pouco depois, Genésio chega na casa de Mattos e encontra os corpos estendidos no chão. Genésio diz a Clemente e Teodoro que havia matado Mattos e Salete. Com isso recebe seu dinheiro. Pádua suspeita que foi Ilídio que mandou matar Mattos, então o mata. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Henrique de Souselas, moço rico , elegante e, para variar, entediado , deixa Lisboa e vai para a casa de sua tia Dorotéia, numa aldeia do Minhjo. Busca aí a cura para o seu mal: o tédio, a chateação. Logo fica bem, apaixona-se por Madalena - morgadinha que o trata com ironia. A prima de Madalena - Cristina - apaixona-se por Henrique. Este percebe que a morgadinha Madalena parece corresponder ao afeto de um professorzinho rural, Augusto. Ficam rivais, tratam-se mal. Constrói - se uma estrada de ferro no local ao mesmo tempo, são proibidos os enterros nas igrejas. Ocorrem confusões em torno dos acontecimentos e Henrique casou com Cristina e Augusto casou com Madalena. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
SMOLKA, Ana Luiza Bustamante. A criança na fase inicial da escrita

14.SMOLKA, Ana Luiza Bustamante. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. São Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade de Campinas, 6. ed., 1993.
Alguns pontos de partida
A alfabetização tem se revelado uma das questões sociais mais fundamentais em virtude de suas implicações político-econômicas e por ser ao mesmo tempo instrumento e veículo de uma política educacional que ultrapassa em muito o espaço meramente acadêmico e escolar. A ideologia da ‘democratização do ensino’ produz a ilusão de um maior número de alfabetizados no menor tempo possível. Ocorre que no processo da produção do ensino em massa as práticas pedagógicas aplicadas não apenas discriminam e excluem, como emudecem e calam.
Durante as décadas de 1960 e 1970, o Estado brasileiro difundiu e implementou a idéia da educação compensatória que, confundindo propositadamente ‘diferença’ com ‘deficiência’, criou e, de certa forma, consolidou inúmeros mitos com relação ao fracasso escolar: do mito da incapacidade da criança começou o surgir o mito da incompetência do professor.
Para ‘compensar’ esta nova ‘deficiência’ era necessário implementar os cursos de treinamento e os manuais didáticos para o professor malformado, mal-informado e desatualizado. “Numa surda situação de simulacro” – como escreve Smolka (1993, p. 16) – “em que os professores desconfiam das crianças e dos pais; os pais não confiam nos próprios filhos nem nos professores; as crianças aprendem a não confiar em si mesmas nem nos adultos, as relações interpessoais vão sendo camufladas, interrompidas e ninguém parece questionar as condições ou duvidar dos métodos” – enquanto que a escola se manteve a mesma e o problema da evasão sem solução.
Segundo Smolka, a escola que se mostrou deficiente em sua tarefa pedagógica de alfabetizar, passou a apontar cada vez mais uma série de ‘patologias’ nas crianças: dislexias, problemas psicomotores, foniátricos, neurológicos; o desinteresse total, a apatia, a falta de motivação, isto é, começam a ‘surgir’ nas crianças problemas que não, necessariamente, elas os têm.
No começo da década de 1980, os pesquisadores brasileiros começam a ter acesso aos primeiros resultados do estudo de Emília Ferreiro sobre os processos de aquisição da linguagem escrita em crianças pré-escolares argentinas e mexicanas, indagando os métodos de alfabetização existentes. É a partir deste trabalho que Smolka desenvolveu sua pesquisa sobre os processos de aquisição da escrita nas crianças, cujos resultados este livro apresenta.
O que de fato se comprovou, segundo Smolka, foi a indiscutível influência das condições de vida das crianças no processo de elaboração e construção do conhecimento do mundo. E, nestas condições, o importante papel que desempenha a presença ou a ausência de adultos ou pessoas mais experientes, como interlocutores e informantes das crianças.
Salas de aula, relações de ensino
Entendendo que a alfabetização implica leitura e escritura como momentos discursivos, uma vez que o próprio processo de aquisição também vai se dando numa sucessão de momentos discursivos, de interlocução, de interação, Smolka discute neste segundo capítulo alguns parâmetros ou pontos de apoio para a análise que busca fazer em sua pesquisa. E vai buscá-los na Teoria da Enunciação e na Análise do Discurso. A Teoria da Enunciação, extraída da obra de Bakhtin, aponta para a consideração do fenômeno social da interação verbal nas suas formas orais e escritas, procurando situar essas formas em ligação às condições concretas da vida, levando em consideração o processo de evolução da língua, isto é, sua elaboração e transformação sócio-histórica.
As referências para a Análise do Discurso, Smoka encontra em Orlandi e Pêcheaux. Enquanto para Orlandi o discurso pedagógico considera a função de ensinar do ponto de vista da escola e do professor: quem/ ensina/ o que/ para quem/ onde; Pêcheaux argumenta que todo processo discursivo supõe, da parte do emissor, uma antecipação das representações do receptor, isto é, sua habilidade de imaginar, de pensar onde seu ouvinte o enquadra, e que esta antecipação de ‘o que o outro vai pensar’ do lugar em que ele se representa como tal parece constitutiva de todo discurso.
Ambos os casos apontam para a ilusão em que vivem os professores que assumem a tarefa, a eles atribuída pela sociedade, de ensinar. Ou seja, da forma como tem sido vista na escola, a tarefa de ensinar adquiriu algumas características (é linear, unilateral, estática) porque, do lugar em que o professor se posiciona (e é posicionado), ele se apodera (não se apropria) do conhecimento; acredita que o possui (é levado a acreditar) e que sua tarefa é precisamente dar o conhecimento à criança. Desse modo, o professor monopoliza o espaço da sala de aula: seu discurso pré-domina e se impõe. Daí sucede que o estatuto do conhecimento passa pela escolarização, o que significa dizer que quem não vai à escola não possui conhecimentos. A ilusão ao qual o professor está submetido decorre da não-consideração de vários aspectos cruciais no processo de convivência, interação e relação com os alunos, pais, colegas de trabalho, funcionários, superiores, no cotidiano da escola. Nesse lugar, o(a) professora(a) ocupa uma posição de responsável pelo processo de alfabetização e assume a tarefa de ensinar crianças a ler e a escrever. Nesse mesmo lugar, as crianças ocupam uma posição de alunos, e assumem a tarefa de aprender a ler e a escrever. Isto parece claro e evidente, portanto, não se questiona.
Smolka dá como exemplo uma situação em que a professora escreve na lousa e propõe às crianças um exercício como o descrito, percebe-se que ela está desempenhando o papel a ela atribuído e imagina-se que assim esteja alfabetizando as crianças. Mas, pelos comentários da professora desta situação-exemplo verifica-se que as crianças não corresponderam às suas expectativas, isto é, não entendem o que devem fazer, nem executam a tarefa dada conforme era esperado. Isto indica que as ‘pressuposições’ não se confirmam, indica que existe algo nesta situação que não está sendo revelado, que é preciso procurar as ‘pistas’ que geralmente passam despercebidas e são tidas como irrelevantes nas análises das relações de ensino. A professora que sabe qual é a sua função dentro da sala de aula ensina crianças que ainda não desempenham seu papel dentro da sala de aula conforme o esperado. Isso gera na professora um sentimento de incapacidade, incompetência e fracasso que ela acaba por transferir para as crianças. Ou seja, como a tarefa suplanta ou apaga a relação de ensino, evidencia-se, então a luta de poder. Como elas não conseguem realizar as expectativas da professora, supõe-se e conclui-se que as crianças têm problemas; que elas são incapazes; que elas não prestam atenção e não tem os pré-requisitos desenvolvidos; o que significa dizer que não podem ser alfabetizadas. Essas conclusões e suposições, que na realidade se caracterizam como pressuposições, transformam-se em preconceitos. E é isso, segundo Smolka, que tem permeado, implicitamente, as relações de ensino.
Discutindo pontos de vista
Dentro desta perspectiva apontada no capítulo anterior, as falhas ou os erros estão sempre nas crianças e nunca nos procedimentos utilizados pela escola, que são sempre ‘cientificamente’ comprovados e legitimados. Entretanto, uma análise feita sob outra perspectiva pode nos apontar, entre outras coisas, que o que está subterrâneo nas práticas adotadas nas escolas pelos professores são concepções de aprendizagem e de linguagem que não levam em consideração o processo de construção, interação e interlocução das crianças, nem as necessidades e as atuais condições de vida das crianças fora do ambiente escolar e, por isso mesmo, podem ser consideradas historicamente ultrapassadas.
Como em inúmeras outras situações do contexto escolar, os movimentos de interação entre as crianças e entre as crianças e o professor são cerceados por questões disciplinares: o silêncio em sala de aula, por exemplo. Dessa forma, a alfabetização na escola fica reduzida a um processo, individualista e solitário, que pouco tem a ver com as experiências de vida e de linguagem das crianças. Nesse sentido, é estéril e estática, porque baseada na repetição, na reprodução, na manutenção do status quo. Configura-se assim um tipo de sujeito que não precisa perguntar, que não precisa da ajuda dos outros para aprender.
De um ponto de vista construtivista, essa situação escolar se colocaria como insustentável uma vez que não considera o ponto de vista da criança que aprende, não leva em consideração os processos de elaboração do conhecimento sobre a escrita. Para compreender esta questão, Smolka se ampara na pesquisa de Ferreiro & Teberosky que partem do pressuposto de que a criança é um sujeito ativo e conhecedor, as autoras indicam a importância de se compreender a lógica interna das progressões das noções infantis sobre a escrita, mostrando que as crianças exigem de si mesmas uma coerência rigorosa no processo de construção do conhecimento. Nesse processo, as autoras mostram a importância do erro como fundamentalmente construtivo na superação de contradições e conflitos conceituais, explicitando, numa progressão, etapas e hipóteses que as crianças levantam sobre a escrita: em outras palavras, o processo de aprendizagem não é conduzido pelo professor, mas pela criança.
Porém como alerta Smolka, as análises de Ferreiro e Teberosky não podem dar conta, em termos político-pedagógicos, do fracasso da alfabetização escolar. Elas mostram mais um fator que precisa ser conhecido e observado no processo de alfabetização que são o significado e a importância das interações, mas não resolvem nem pretendem resolver o problema. No entanto, os estudos destas autoras acabou sendo incorporado pelas redes de ensino sem à devida adaptação à realidade educacional brasileira, o que faz com que alguns conceitos provenientes da educação compensatória sejam, agora, substituídos pelo linguajar construtivista, novamente culpabilizando a criança pela não-aprendizagem, pela não-compreensão. O que acontece de fato, mas que permanece implícito, é que o ensino da escrita, cristalizando a linguagem e neutralizando (e ocultando) as diferenças, provoca um conflito fundamentalmente social. Porque não se ‘ensina’ simplesmente a ‘ler’ e ‘escrever’, aprende-se a usar ‘uma’ forma de linguagem, ‘uma’ forma de interação verbal, ‘uma’ atividade, ‘um’ trabalho simbólico: em outras palavras, o processo de elaboração mental da criança na construção do conhecimento sobre a escrita, que primeiramente passa pela linguagem falada, fica comprometido porque a escrita apresentada na escola está longe da linguagem falada pelas crianças. A emergência do discurso na escrita inicial
Neste capítulo, a autora discute que a alfabetização não significa apenas a aprendizagem da escrita de letras, palavras e frases. A alfabetização implica, desde a sua gênese, a constituição do sentido. Enquanto que a escola parece ocupada em ensinar as crianças a repetirem e reproduzirem palavras e frases feitas, isto é, não trabalha com as crianças o ‘fluir do significado’, a estruturação deliberada do discurso interior pela escritura. Essa escrita precisa ser sempre permeada por um sentido, por um desejo, e implica ou pressupõe, sempre, um interlocutor. Desse modo, implica, mais profundamente, uma forma de interação com o outro pelo trabalho de escritura – para quem eu escrevo o que escrevo e por que?
Segundo Smolka, quando as crianças escrevem palavras soltas ou ditadas pelos professores, a característica da escritura é uma, e identifica-se, mais facilmente, a correspondência entre a dimensão sonora e a extensão gráfica. Mas quando as crianças começam a escrever o que pensam, o que querem dizer, contar, narrar, elas escrevem porções, fragmentos do ‘discurso interior’ (que é sempre diálogo consigo mesmo ou com outros).
Em termos pedagógicos, então, o que se faz relevante aqui é o fato de que, quando se permite as crianças falarem e se relacionarem em sala de aula, questões vitais para elas vêm à tona e se tornam ‘matéria-prima’ do processo de alfabetização. Nessas conversas, concepções, pressuposições e valores se revelam. Assim, o texto de cada criança não repete ou reproduz o texto coletivo, mas permite que se inaugure novos momentos de interlocução, de acordo com o que pareceu mais importante e relevante para cada uma, pelo que cada uma disse ou deixou de dizer. São os modos de perceber, de sentir, de viver, de conviver, de conhecer e de pensar o mundo que as crianças passam a expressar. A escrita começa a se tornar uma forma de interação consigo mesma e com os outros, uma forma de ‘dizer’ as coisas. Com todas as hesitações, trocas e tentativas ortográficas, a criança passa a escrever o que ela quer ou precisa dizer. Entretanto, a função da escritura ‘para outro’ e a presença de interlocutores também provocam uma tensão: no esforço de explicação do discurso interior, abreviado, sincrético, povoado de imagens – é nesse trabalho de explicitação das idéias por escrito para o outro que as crianças vão experimentando e aprendendo as normas de convenção porque é justamente da leitura do outro, da leitura que o outro faz (ou consegue fazer) do meu texto, daquilo que eu escrevo no meu texto, do distanciamento que eu tomo da minha escrita, que eu me organizo e apuro esta possibilidade de linguagem, esta forma de dizer pela escritura. Aqui, novamente, se apresenta a questão dos procedimentos de ensino da leitura e da escrita na escola: a escola tem ensinado as crianças a escrever, mas não a dizer – e sim, repetir – palavras e frases pela escritura; tem ensinado as crianças a ler um sentido supostamente unívoco e literal das palavras e dos textos e tem banido (reprovado) aqueles que não conseguem aprender o que ela ensina, culpando-os pela incapacidade de entendimento e de compreensão. O que a escola não percebe é que a incompreensão não é resultado de uma incapacidade do indivíduo, mas de uma forma de interação. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
"Nunca pude esquecer sua morte. Eu o vi, mas na hora não entendi tudo. Eu só vi o sangue. Tinha sangue por toda parte. O lençol estava vermelho. Tinha uma poça no chão. Tinha sangue até na parede. Nunca tinha visto tanto sangue. Nunca pensara que, uma pessoa se cortando, pudesse sair tanto sangue assim. Ele estava na cama e tinha uma faca enterrada no peito. Seu rosto eu não vi. Depois soube que ele tinha cortado os pulsos e aí cortado o pescoço e então enterrado a faca. Não sei como deu tempo de ele fazer isso tudo, mas o fato é que ele fez. Tudo isso. Como, eu não sei. Nem por quê." Um Mundo Despoetizado Os Contos de Tarde da Noite, de Luiz Vilela, em geral são breves, centrados em uns poucos personagens e uma única ação, e chegam a criar um início de expectativa sobre o desenvolvimento; aí, parecem estagnar-se em direção ao final, que nunca é algo muito inesperado. Ao contrário, os finais geralmente são o que se espera que aconteça, como a afirmar que a ruindade do mundo não comporta muitas surpresas; nada de muito diferente deve acontecer para quebrar a miséria dominante. Os personagens são meninos, meninas, jovens casais e casais não tão jovens e velhos, que transitam num mundo de perversidade, incompreensão, tédio, ostentação, dominação, medo, incerteza. A linguagem é coloquial, bastante direta, despojada, sem muitas surpresas também, com poucas imagens, a maioria comuns ou desgastadas. Pouca poesia para falar de um mundo despoetizado. Impressões Infantis O ponto de vista da criança predomina nos contos, como uma voz que tenta se opor ao sistema de opressão do grupo social, mas raramente consegue. Em "Lembrança", conto que abre o livro, o narrador volta a seu passado infantil e reencontra a figura do avô. O velho parecia um ser tranqüilo, de pouca conversa, as pessoas nem o notavam direito, em seu quartinho dos fundos. Sua vida passada, entretanto, havia sido recheada de perdas, abandonos, mortes. O que as pessoas viam como um velho distinto era um monte de amargura. Suicidou-se cortando os pulsos e o pescoço, e enterrando a faca no coração. Morte violenta para quem vivera na paz destroçada da perda. Sua aparência de limpo na mente do menino, entretanto, não fora maculada. Tanto sangue, para o menino, não era sujeira. Era diferente. Era o símbolo da limpeza que o velho precisava fazer em sua vida, a purificação que conduz à morte. A criança não consegue se manter imune às misérias da sociedade, como as que destruíram o avô do primeiro conto e as que se apresentam ao protagonista do conto "Aprendizado". Eduardo tirou nota máxima na redação e correu a casa para exibir com orgulho o texto ao pai e à mãe. Jordão e Grilo o abordam, dizendo que também querem ler o texto, e usam de todos os subterfúgios para que ele ceda. Ao ver sua redação rasgada pelos colegas invejosos, Eduardo tenta agredi-los, mas a reação de seus "semelhantes" promete ser muito mais violenta. O menino aparece como um ser humano frágil, inexperiente, que tem de aprender a duras penas como sobreviver em um mundo repleto de perversidade, que ofusca as pequenas vitórias pessoais. A arte de escrever exige um longo aprendizado. Conhecer as fraquezas e as maldades das pessoas também, desde a infância. Mais uma vez, o menino aparece como um ser humano frágil, inexperiente, que tem de aprender a duras penas como sobreviver em um mundo repleto de perversidade, que ofusca as pequenas vitórias pessoais. A incompreensão dos atos dos adultos também faz parte do sistema infantil. Em "Um peixe", o menino volta da pescaria no domingo. Os peixes estão mortos no tanque, apenas a traíra se mexe. Ela é separada dos demais, e "ressuscita" na pia com água limpa. O menino vibra com a ressurreição e vai à padaria comprar pão para sua nova cria, para a qual já havia feito planos para o futuro. Ao chegar a casa, constata que a empregada havia assassinado seu mascote, para fritar. O menino é o caçador de peixes por esporte, é o predador dos animais, mas tem afinidade com eles. Se um deles escapa, manda o código de honra infantil que ele seja preservado, por ter adquirido o direito a uma vida mais longa através da bravura. O adulto intrometido joga por terra a construção moral da criança. O mundo dos homens cansa. No conto "Suzana", os dois meninos combinam como é que vai ser a abordagem de Suzana, como é que eles vão fazer "aquilo" com ela. E se ela não deixar hoje? O medo é o velho aparecer. Tudo verificado, os meninos se aproximam e um deles se adianta: - Suzana - chamou, e a égua apareceu. Ainda na linha da relação da criança com os animais, os meninos aqui têm sua iniciação sexual proporcionada por um animal, um elemento puro, não contaminado pelas mazelas sociais: - Doença? Essa é boa; mais fácil a gente pear doença nela. Criança e animais produz outro conto, "As Formigas". O conforto do mundo desconfortável é dado ao menino ao conversar - e ser correspondido - com as formigas que fazem fila na parede saindo do rachado. Seu mundo de formigas é muito melhor do que o de homens: sem gritos, mentiras. E o perverso mundo dos homens é que se encarrega de destruir sua fantasia confortante: o pai cimenta o rachado por onde saíam as suas amigas. É o fim, a angústia, o bolo na garganta. Há também o menino levado e desaforado, que aprende rápido a se defender na selva social, em "Menino". Márcio é o protótipo do menino teimoso, não lava as mãos, não almoça direito, faz birra com a mãe dizendo que não vai à escola, manda o professor à merda, e fica de castigo. Chegando tarde a casa, a mãe o repreende e ele diz que ficou de castigo por ter respondido mal ao professor. Márcio pergunta à mãe se era mau menino; a mãe fica enternecida com o filhinho levadinho e responde que não. O menino correu e saltou na quina da banheira. - Striknik! Striknik! A temática do conto é a relação entre mãe e filho; ela briga todo o tempo com o menino, tenta conter seu espírito inquieto, mas o ama, e engole apertado quando ele diz que se julga um mau menino. A menina que tem medo aparece em "Os mortos que não morreram". Há aí uma mistura de impressões infantis sobre uma rachadura no teto, que se lhe afigura o rasto de um bicho, e diálogos de adultos. O tema das conversas dos homens e mulheres é a ameaça que paira sobre os animais, com efeitos piores sobre o animal homem, que é consciente disso e tem seu maior fator de sofrimento na memória, onde habitam os mortos que não morreram. Dois dos homens trocam ironias e sarcasmos, um deles tenta seduzir a esposa de um terceiro, na cozinha. Em seu retorno, discute-se a permissividade e a moral. Lá dentro, a menina chorava, assustada com o bicho que riscou a parede. O ser humano, seja criança ou adulto, vive num mundo de medo, incerteza, desavenças e seduções. O saber, ou a aparência dele, é uma forma de poder, que provoca admiração ou inveja, e prepotência daquele que julga possuí-lo. Os mortos que não morreram são, portanto, todas as misérias que compõem a vida do homem, e sem as quais ele não consegue sobreviver. A falsa autoridade das instituições dos adultos também contamina as crianças. "Com seus próprios olhos" tem uma estrutura dialógica, em que o diretor da escola faz perguntas incessantes ao menino Ivo, que havia presenciado na noite anterior uma cena de sedução entre o distinto diretor e outro menino. O diretor conta com a discrição de Ivo para que ninguém saiba do ocorrido, que seria um escândalo. É a temática do abuso de poder, da falsa aparência de probidade e respeitabilidade. As ações das pessoas desmentem o que sua superfície aparenta, e de repente toda a consideração que o mundo social tem pela nobreza do cargo de diretor fica na dependência de um menino frágil e humilde. Outra forma de abuso de autoridade que a criança ou o jovem não quer aceitar aparece em "O professor de inglês". O professor corresponde à tradicional caricatura do mestre autoritário, com cara de rato, cabelos ralos na cabeça. O professor pune com notas baixas, ameaça com reprovação, humilha os alunos, responde mal a todos. Os alunos não têm nome; apenas números. O aluno novato indigna-se com a postura do professor, e pergunta a um colega por que é que eles não reclamam dele. Para a escola, o professor sabe o conteúdo e dá aulas, portanto não há motivo para tirá-lo. O aluno novato, mais sensível, afirma que esse sistema é horrível, e, diante da afirmação do colega de que um dia ele iria é achar graça da situação, ele se torna grave e declara: - Nunca vou achar graça disso, nem vou esquecer. Nunca vou esquecer disso. A temática do conto é o autoritarismo do sistema escolar, representado pelo professor de inglês. O sistema é fechado, de absoluta dominação, e as pessoas normais devem-se sujeitar a ela, para, talvez, até acharem graça posteriormente. A exceção é o personagem Carlos, que não pensa como os outros. Expectativas Nulas A visão do adolescente, ou do jovem adulto, também transmite perplexidade, ou desesperança, ou amargo conformismo. O título de "A pátria precisa de você" ironiza o apelo patriótico do cartaz que leva os adolescentes a imaginarem que serão bem-vindos ao exército (que se auto-intitula "pátria"), já que eles constituem o elemento necessário lá. Entretanto, o grupo de jovens que se apresenta "para servir a pátria" sofre maus tratos e ofensas dos representantes da lei. O autoritarismo e a prepotência do militares no pequeno tempo de convivência do adolescente narrador naquele lugar dão a ele uma grande sensação de liberdade quando terminam aqueles momentos de opressão e ele afinal pode seguir para casa. O adolescente tem suas carências, que precisam ser refreadas. "Uma namorada" era tudo de que o narrador não precisava, até que seu chefe, o doutor, lembrou-lhe de que isso existia no Dia dos Namorados. Foi aí que as noites se tornaram um problema. Até então suas noites, após um dia de trabalho dedicado e comprometido, se resumiam às idas ao cinema e um copo de leite. O próprio cinema começa então a despertá-lo para a existência de namorados e namoradas. Sua primeira tentativa de namorar revela-se, entretanto, tão desastrada, que ele tenta o suicídio. É salvo pela perícia do motorista do ônibus. Com persistência, consegue "curar-se" do desejo de ter uma namorada e sua vida volta a ser como antes. A temática desse conto é a da adolescência morta pela mecanização do trabalho e a solidão. Se se exige do homem esse tipo de vida, ele tem que corresponder a ela, e "curar-se" de qualquer desvio do que se espera dele como pessoa: funcionário exemplar e pessoa "normal". Pobreza e solidão, dois fortes motivos para depressão, que não pode ser evitada nem pela juventude dos vinte anos. A vida é triste, amarga, só resta entregar-se à dor. "Num Sábado" contém uma temática análoga. O rapaz pobre que trabalha duro a semana inteira sai pela manhã de sábado, toma uns chopes, volta para casa à tarde, dorme para esquecer a tarde, acorda, come pão e veste um terno. Termina por não sair, e fica pensando em si mesmo, em sua pobreza e solidão, e tem vontade de morrer. Pobreza e solidão, dois fortes motivos para depressão, que não pode ser evitada nem pela juventude dos vinte anos. A vida é triste, amarga, só resta entregar-se à dor. Outro suicídio não perpetrado aparece em "O Suicida". Alguém anunciou numa rádio que iria pular do alto de determinado prédio às dezessete horas. Nesse contexto desenvolve-se a narrativa. O infortúnio de uma hipotética pessoa que se atira do alto de um poço profundo transforma-se em espetáculo para os devoradores de emoções fortes. Tenta-se descobrir a causa da tentativa de suicídio, discutem-se outros casos de suicídio. Um pedreiro que trabalhava no alto põe uma perna para fora da janela e é vaiado, torcem para que ele caia. Ao final, o anunciado suicida nem aparece, e todos acabam se retirando tristes e decepcionados, exceto um dos estudantes, que ganhara a aposta de que não haveria suicídio. Para os espectadores, o espetáculo da morte alimenta a vida, produz emoções, salvar uma vida é perder um espetáculo que faz correr adrenalina. É a perversidade do ser humano, que precisa da desgraça alheia para alimentar uns instantes de vida fora da rotina. Amor Cansado A temática amorosa confirma a negatividade geral, como em "Amor": fim de tarde, cansaço, proximidade de fim de namoro. Ele não consegue prestar atenção nos sapatos que ela admira na vitrine. Ela se impacienta com o alheamento dele, diz que ele está ríspido, nervoso, uma pilha, e que não tem mais amor a ela. Após um grande silêncio, ela propõe terminar, ele não acha que é o caso, ela entra no ônibus, ele pergunta se é para telefonar, ela deixa por conta dele. O amor se apresenta como aquela rotina cansativa da cidade; precisa-se dele, mas ele não dá completa satisfação. E as pessoas continuam a chamar isso de amor: Ele ficou vendo o ônibus se distanciar pela avenida, o rosto abatido, pensando por que o amor era tão difícil. "Ousadia" é o que o marido tentou para quebrar o cansaço da relação, mas não conseguiu ir adiante. Marido e mulher deitados para dormir, ela quase dormindo, ele tentando conversar com ela cheio de evasivas, buscando concretizar uma proposta de alguma coisa ousada, provavelmente de natureza sexual, em suas vidas. Uma troca de casais, talvez? Ménage a trois? O máximo que ela consegue entender é que ele queria fazer amor, mas o dispensa, dizendo-se muito cansada. Não há bons sentimentos que resistam a um amor cansado, ou a um amor igual a todos os amores com todas as pessoas, em todos os casos sem esperanças. É a infalibilidade da banda podre. A rotina da vida de casado chega a momentos em que a pessoa quer tentar qualquer coisa para afastar a monotonia. As leis sociais são, entretanto, muito rígidas, e amarram as pessoas aos "bons costumes". Qualquer ousadia maior, qualquer ruptura com o sistema tem que ser muito bem considerado, pelo risco de execração social. Muitas vezes, é melhor deixar a ousadia permanecer no plano ideal do que concretizá-la. É mais cômodo e distinto. Tanto no fim da tarde, quanto à noite, ou "Ao Nascer do Dia", não há bons sentimentos que resistam a um amor cansado, ou a um amor igual a todos os amores com todas as pessoas, em todos os casos sem esperanças. É a infalibilidade da banda podre. E as pessoas têm de se conformar de que tudo seja assim. Não há a quem recorrer. O conto "Tarde da noite" repete o tema do casamento cansado numa situação insólita. O casal está na cama, e uma desconhecida telefona. Alguém querendo conversar discou um número a esmo, chega a falar em suicídio, e a conversa se prolonga. O marido cansado de ser casado se sente seduzido por aquela voz, e transforma o telefonema numa emocionante aventura extra-conjugal. Depois de um longo diálogo, a moça finalmente desliga, e o marido cansado continua sonhando com a possibilidade da aventura. Em "Esse Amor Besta de Inicial Maiúscula", há uma tentativa de amar diferente. Marcos, de namorada recente, encontra-se com um amigo de velhos tempos. Os dois têm uma concepção bem diferente de amor. O amigo considera-se mais realista, mais maduro. As mulheres são avançadas em assuntos sexuais, desacreditam o amor besta de inicial maiúscula, o que importa é o império do corpo, os sentidos. Mulher é sexo, carne, desejo, amor animal. O outro pensamento, representado por Marcos, é considerado pelo amigo como romântico no mau sentido, doença mental, coisa anacrônica e ingênua. Ao final um ônibus que ia passando esmaga uma coisa que Marcos trazia dentro de um embrulhinho: uma flor que ele ia levando para a namorada. O amigo de Marcos é o que tem voz mais atuante, é o mais articulado, o mais expansivo, é o que representa os que se impõem pela pose, os que se passam por conhecedores perfeitos do mundo, o mundo dos espertos, dos que sabem viver a vida. Marcos participa de um mundo mais humilde, que acredita no amor, mas que tem que conviver com o outro mundo e tolerá-lo. A Paz Destroçada A velhice é retomada em "Os sobreviventes". Neste conto predomina o diálogo entre dois homens em torno de cinqüenta anos, a fala dos dois é que conduz o desenrolar dos acontecimentos. Encontrando-se depois de mais de vinte anos num bar que freqüentavam quando jovens, vão tentando lembrar-se dos personagens que povoaram o tempo de sua juventude, mais precisamente o espaço daquele bar. Afonso é o mais melancólico, o mais saudoso dos bons tempos, e também o mais pessimista, o que lhe vale uma repreensão de Brandão. Afonso reclama que seu fígado já não lhe permite beber como na mocidade, e declara sua imensa e velha amizade ao colega, que retribui. Brandão destila sua amargura contra a juventude - barulhentos, afeminados -; Afonso agora é quem contemporiza. Num determinado momento, Brandão resolve alterar com uns rapazes que ele supunha estarem rindo dele na mesa ao lado. A provocação resulta numa briga dele com um dos moços, que lhe esmurra a cara. Embriagado, humilhado e com o nariz escorrendo, Brandão sai amparado pelo amigo Afonso. O conto aborda a temática do envelhecer, que impede as pessoas de quererem fazer o que faziam na juventude. Em confronto com aquela mesma juventude que lhes pertencera outrora, os mais velhos se tornam impotentes e se retiram, mesmo contra a vontade. Enfoque semelhante da velhice ocorre em "Bárbaro". Dois jovens em um quarto, um tenta ler e o outro quer por força contar a festa a que ele tinha ido. Numa linguagem cheia de gírias, palavrões e lugares-comuns, conta como ele e seus amigos se vingaram de um velho de cinqüenta e cinco anos que os havia convidado a uma festa "quadrada". A vingança foi arquitetada e perpetrada pelo Luquinha, que ridicularizou o homem, embebedou-o e quase fez com que ele se despisse diante de todos, à guisa de strip tease. Luquinha e os amigos representam a juventude entediada que não respeita os velhos, julgando-se superiores a eles. Aquilo para eles não fora nada de mais, uma brincadeirinha inocente, pois eles nem enrabaram o velho ou qualquer troço assim. o interlocutor do sujeito que conta o caso tenta voltar a concentrar-se em seu livro, e é considerado estranho pelo amigo Nem todos os jovens, entretanto, desprezam a velhice. Em "Luz sob a porta", Nelson está numa festa de jovens da classe média pseudo-intelectualizada, que discute Kafka, faz que lê Sartre e ouve os Beatles. Nelson precisa deixar a festa para visitar a mãe, que aniversaria. Por isso é motivo de chacotas dos amigos e amigas. Embora pressionado, ele insiste e vai, por volta de meia noite. Havia luz sob a porta, ela estava esperando-o. Na casa da mãe, fica sabendo que ela não recebeu nenhuma visita naquele dia. Dulce não foi, nem Rubens, nem Álvaro, nem ninguém. A mãe se emociona, e chora baixinho, de medo da velhice, da solidão. O conto é mais um pequeno drama da miséria humana. Como várias outras dessas pequenas narrativas, este não tem propriamente um final, mas algo como uma interrupção, ou suspensão. Não há nenhum suspiro de alívio nem grande emoção com o desfecho, apenas a triste constatação de que a velhice é assim mesmo. Mas agora não chore mais. "Preocupações de uma velhinha": ela tem medo da guerra, não entende bem o porquê de povos se matarem, e faz várias perguntas ao filho, embora saiba que os mais novos não gostam de ficar explicando coisas para gente velha; ela, entretanto, não resiste às perguntas. Cidinho, o netinho maior, ameaça puxar o gatilho da arma que fará a avó desaparecer, e ela roga que ele não o faça. Ele puxa o gatilho e nada acontece. O susto é grande, a velhinha começa a chorar. O tema da velhice aparece novamente cercado de conotações negativas. A velha é quem não compreende o mundo, não é compreendida pelas pessoas, possui uma ingenuidade indesejável, pior do que as crianças, mas cuja pureza não é admirada por ninguém. Até a criança, o neto Cidinho, portador de uma certa perversidade, é mais esperto que ela; era boba mesmo, era boba. Outras Frustrações Há alguns outros contos que abordam outros assuntos, que terminam sempre por convergir para o mesmo ponto de vista da frustração, da insatisfação, da despoetização. Em "Subir na vida", Vicente é professor, e o amigo Domício quer convencê-lo a largar a miséria do magistério e ser seu sócio em um empreendimento. Vicente resiste, embora, segundo Domício, a própria esposa do primeiro já houvesse reclamado. O professor é descrito como uma pessoa abnegada, de bom coração, corajoso. Domício, entretanto, acha - e diz ao amigo - que abnegação em excesso vira imbecilidade. Domício havia ido à casa de Vicente aquela tarde, e tinha estado com a esposa dele, a quem achou com cara de preocupada com a situação do marido. Após toda aquela pressão para que ele abandonasse a carreira de professor primário, ele vai à escola e, ao voltar a casa, declara à esposa que resolveu aceitar a oferta de parceria do amigo, e que ia pedir demissão da escola. Em seguida, vai ao bar telefonar para o amigo comunicando a decisão. Depois do telefonema, ele pede uma pinga, ele que nunca havia bebido. As poucas esperanças que a vida proporciona estão nas remotas possibilidades de transgressão, como a loucura, a poesia, o amor sincero, a pureza, a fantasia. Essas transgressões, entretanto, são tentativas efêmeras e impotentes diante da máquina de perversidade que movimenta as relações entre as pessoas. A abnegação e a paixão pelo ensino são vistos aqui como fraqueza; ajudar os outros, no entender da classe média emergente, não faz ninguém feliz. Se deixar o magistério é subir na vida, o personagem pretende deixá-lo, para dedicar-se a algo de novo. Fica também a sugestão de que embriagar-se é tão algo de novo como ingressar no consumismo; são fraquezas equivalentes. A loucura poética de "Françoise" é um momento de reação à sociedade: um observador sentado num banco de rodoviária vê uma loura bonitinha, ele jura que ela está esperando alguém. Ela acaba sentando-se no banco e puxa conversa com ele, diz que tem vontade de ir a Lindóia, por causa de uma música que ouvia quando criança, e gosta de ficar na rodoviária vendo as pessoas irem e virem, desculpa-se por estar incomodando. Ela lhe pede uma fumadinha, diz que os olhos dele são belos, depois fica falando sobre o sexo das frutas. O irmão da moça órfã é um poeta, o tio dono de bar reprova. ela fala sobre palavras bonitas e palavras feias. Palavras são como gente, tem de todo jeito: bonitas, feias gordas, magras, simpáticas, antipáticas, sérias, alegres, engraçadas, alegres, tristes; todo jeito. Ela compara os poetas a loucos, se diz uma solitária, uma esquisita. Logo tem um ataque de choro e volta repentinamente ao "normal". O tio aparece e interpela o observador. Ele não quer que a sobrinha converse com estranhos, principalmente porque ela é mentalmente perturbada, acha que o irmão que morreu está viajando. A menina e o tio vão embora e o observador levanta-se para ir embora, segurando a corrente que margeava o passeio. O tema explorado é a loucura, que é apresentada com uma aura de romantismo, de poesia. A menina Françoise é um ser que tenta superar a dor do acidente em que perdeu o irmão evadindo-se da realidade. "Felicidade" apresenta o contraste entre o que se convencionou ser feliz e o que as pessoas realmente desejam. O infeliz aniversário é uma camisa de força, de sorrisos forçados, piadas forçadas, discursos idem. O único momento feliz é proporcionado pela ida ao banheiro, que traz minutos de sossego. Esse é o mundo amargo apresentado nos contos de Vilela. As poucas esperanças que a vida proporciona estão nas remotas possibilidades de transgressão de um sistema opressor e fortemente estabelecido, como a loucura, a poesia, o amor sincero, a pureza, a fantasia. Essas transgressões, entretanto, são tentativas efêmeras e impotentes diante da máquina de perversidade que movimenta as relações entre as pessoas. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Nesse romance de 1979, o Autor elabora uma trama com a nítida intenção de homenagear as pessoas humildes, simples e puras. Já na epígrafe da narrativa, "Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, este será o maior no reino dos céus.". nota-se a vontade de elevar os puros, os inocentes e os ingênuos. Na linha da novela picaresca — vide o Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes —, em que o personagem desloca-se por um espaço indefinido, à cata dos conflitos, para resolvê-los heroicamente, Viramundo vive uma seqüência de peripécias acontecidas no Estado de Minas Gerais, contracenando com personagens dos mais variados matizes e comportando-se sempre como o bem-intencionado, o puro, o ingênuo submetido às artimanhas e maldades de um mundo que ainda não está de todo resolvido. Andarilho, louco, despossuído, vagabundo, idealista. Marginal em uma sociedade que não entende e em que não se enquadra, o Viramundo instaura um sentimento de ternura e de pena por todos aqueles que, em sua simplicidade, sofrem o descaso, a ironia, a opressão e a prepotência. Como o Quixote, com a sua amada Dulcinéia, e como Dirceu, com a sua adorada Marília, Viramundo põe em suas ações tresvariadas a esperança de realizar-se emocionalmente com a sua idealizada e inalcançável Marília, filha do governador de Minas Gerais. Sua ilusão alucinada é reforçada pelos pseudo amigos que o enganam com falsas cartas de amor e incentivam sua loucura mansa e seu sonho impossível. Viramundo conhece que o mundo é uma grande metáfora e o trata com idealismo como se ele fosse real. Consertar o mundo é sua missão e ele se dedica a ela com toda a força de sua decisão, não se deixando abalar pelo insucesso, pelo ridículo, pela violência ou pelo vitupério. Em seu delírio, o irreal e o real andam de mãos dadas, não há a separação entre o concreto e o abstrato, e por isso o herói não se abala física ou emocionalmente com nada com que se defronte: não teme os fortes, os violentos; não se assusta com fantasmas e nem com ameaças; aceita resignadamente o que a vida lhe reserva. Percebe-se aqui que, além de pícaro, nosso herói pode ser considerado como bufão, pois jacta-se tolamente sobre supostas capacidades de resolver as injustiças e o desacerto do mundo. Não tem qualquer ligação definitiva com a vida; não assume compromissos; é desprezado e usado por aqueles com os quais se relaciona. A pureza deste aventureiro é a crítica à hipocrisia das relações humanas em um mundo que perdeu o sentido da solidariedade e da fraternidade. Sua alegria ingênua e desinteressada opõe-se ao jogo bruto dos interesses malferidos, ao conservadorismo e à arrogância. Porta-voz dos loucos, dos mendigos, das prostitutas, o Viramundo conhece os meandros da enganação e da falsidade dos políticos e dos poderosos. A crítica à mesmice, ao chavão e ao clichê faz-se pela presença da paródia a muitos autores e personagens historicamente conhecidos. Viramundo não era conhecido, mas termina por criar fama em razão dos casos incríveis em que se envolve. Sob a aparência imunda de um mendigo está um sujeito com cultura geral incomum. Sua fala de homem conhecedor surpreende e sua experiência de ex-seminarista e ex-militar confunde e admira aqueles com quem convive. Sua esquisitice e suas respostas prontas a todas as indagações fazem com se acredite tratar-se de um louco manso e inofensivo. Outro aspecto interessante é a exploração da temática da loucura. O Autor parece convidar o leitor a uma reflexão sobre a origem e o convívio com a idéia da excentricidade do comportamento humano. Viramundo pode ser considerado um louco, mas quem não o é? O que a sociedade considera loucura? Como classificar e tratar os indivíduos que atuam em dissonância com aquilo que se considera normalidade? A sociedade mostrada no romance está povoada de tipos que comumente chamamos de loucos: os habitantes de Mariana agem desvairadamente ao tentar linchar Dª. Peidolina; o diretor do hospício é mais estranho que os próprios internos do manicômio; o capitão Batatinhas é absolutamente alienado. Há no decorrer de toda a narrativa o questionamento da fragilidade dos limites entre a sanidade e a loucura. No limiar da consumação de sua caminhada, Viramundo mudou. No começo era idealista e cheio dos cometimentos da paixão. Manteve-se assim durante muito tempo até encarar a dura realidade da convivência humana. A série de acontecimentos em que figura como perdedor física e emocionalmente faz com que se desiluda. Descobre que as cartas de amor eram falsas; os amigos eram falsos; sua crença era falsa. Por todo lado só encontra sofrimento, opressão, hipocrisia. Está só, absolutamente só, e a solidão é tudo que lhe resta. Seu fim é emblemático. Morre vitimado pelo próprio irmão. Paga por um crime que não cometeu. A intertextualidade bíblica é evidente: compara a trajetória e o comportamento de Viramundo com a Via-Sacra do Cristo, em todos os sentidos, inclusive no sacrifício final. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Usando uma linguagem culta, barroca (exagerada), carregada de erudição, nos moldes dos cronistas portugueses, Herberto Sales nos conta a saga das famílias Golfão e Rumecão, instalados no interior da Bahia, precisamente em Cuia D’Água, próximo a Cachoeira e São Félix. Segundo o autor, o tempo passou sobre essas famílias e firmou os seus pareceres (a impressão que ficou de suas odisséias) e, sendo a epopéia de relevo, não deve ser desprezada ou ignorada. Por isso ele nos contará essa história. Herberto se coloca como porta-voz de Braulino José Golfão, o Ancião, um dos filhos gêmeos do casal Policarpo e Liberata que relatou a história dos seus pais ao autor; segundo Herberto Sales, causa estranheza a lucidez de Braulino, uma vez que este Ancião já contava com 132 anos e sabia detalhadamente dos fatos narrados no livro. A estrutura do romance é incomum, pois os capítulos são divididos em 54 livros numerados em algarismos romanos. Cada livro traz um argumento, espécie de sinopse, de resumo do que se narrará no capítulo. Obviamente, muito da narrativa está antecipada nos argumentos, mas a habilidade do narrador, que é onisciente, faz que ele seja limitado em alguns momentos do argumento, visando a criar expectativa no leitor. O próprio autor escreve o seu prefácio, dizendo pretender com isso, ser rigoroso consigo, vez que amigos costumam ser muito benevolentes com os prefaciados. Usa o prefácio para falar do prefácio o que é um excelente exercício metalingúistico. Ao longo da narrativa, o autor se coloca como um "contador de histórias", como se o leitor estivesse ao lado dele e, por isso, necessitasse tantas vezes checar, através da função fática da linguagem, se a mensagem está chegando ao receptor sem ruído. É muito freqüente esta verificação, a exemplo de: "Sabei que Policarpo Golfão chegou à pensão às 12 horas". Esta postura de contador de casos força o autor a usar uma incomum, mas correta construção gramatical no que tange ao uso do possessivo dele(s) / dela(s). Como emissor (narrador) e receptor (eu ou você) estão próximos e o narrador fala se dirigindo ao leitor, para evitar ambigüidade, usa esta estrutura: "Sabei que Policarpo Golfão chegou com seu cavalo dele". Essa construção, pouco usual, está prescrita como correta, de acordo com a norma culta gramatical e deve ser usada toda vez que, numa sentença, o uso do possessivo implicar ambigüidade quanto ao possuidor do elemento referido. O uso de inversões sintáticas (hipérbatos) é uma constante, haja vista que essas inversões aproximam a língua portuguesa do latim clássico, e o autor pretende uma narrativa no estilo cultista (linguagem rebuscada, sinuosa, carregada de erudição). A narrativa configura o texto como pertencente ao gênero épico/narrativo da literatura. O narrador-observador (foco narrativo em 3a pessoa quase na totalidade das vezes) mostra-se onisciente / onipresente, mas impassível diante dos fatos, vez que ele narra o que já aconteceu, sem possibilidade, portanto, de modificar algo na história narrada. No entanto isto não impossibilita a veia irônica de que é dotado o emissor. Apesar de ser apenas porta-voz do Ancião, Herberto Sales emite juízo de valor frente ao narrado, incorrendo na ironia sutil, que passaria despercebida ao leitor desavisado. Com maestria, enfatiza, por exemplo, a "piedade cristã" do capelão dos navios negreiros que, acompanhando o percurso dos negros naquela fatídica viagem – África/ Brasil – evitava que os negros mortos neste trajeto ficassem sem a palavra de Deus. (O Capelão tinha, como recompensa, direito a cinco escravos para serem negociados). Muitos dos negros morriam durante o percurso, mas a presença de Capelão garantia que eles morressem na fé cristã, haja vista que eram batizados dentro dos navios. O argumento histórico da narrativa é o seguinte: Policarpo Golfão, filho único de um fidalgo português que morreu numa batalha servindo ao Rei de Portugal, recebeu a título de indenização, uma sesmaria no Brasil, no interior do estado da Bahia, precisamente junto a Cachoeira e São Félix, lugar conhecido como Cuia D’Água. (Crítica à Metrópole que enxergava a Bahia como feudo da nação lusa.). Policarpo era proprietário de uma bela quinta em Portugal. Ao saber da doação do Rei, vendeu sua quinta e junto com um primo – Quincas Alçada – rumou para o Brasil visando a tomar posse do que era seu. Necessário é dizer que essa indenização do Rei veio a calhar, porque o filho do fidalgo era homem afeito a aventuras e, certamente, aqui, poderia participar de diversos feitos incomuns. Chegando ao Brasil, Policarpo e seu primo bastardo ficaram hospedados numa estalagem de um compatriota, Luis Vicente de Almeida, vulgo Almeidão, um homem de físico avantajado, daí o apelido. Esse português teria importância vital para os acontecimentos vindouros, e o autor nos antecipa isto, mas pretende esclarecer o assunto somente no momento aprazado (o escritor, mais ou menos à moda de Machado de Assis, conversa com o leitor, comentando, emitindo opinião sobre o assunto de que trata ou tratará). Assim que chegaram a Salvador, como eram cristãos, dirigiram-se à Igreja. Em seguida foram recebidos pelo Governador-Geral que oficializou, em cerimônia, a referida doação da "imensa sesmaria. No mesmo dia, Policarpo recebeu do governador o título de capitão-mor, o que lhe garantiria plenos direitos para reger sua sesmaria como se dela fosse o próprio Rei.(Espécie de senhor Feudal) No dia seguinte, Policarpo Golfão e Quincas Alçada foram ao Chega-Nego, lugar onde aportavam os navios negreiros que traziam negros da Costa da Mina, para o Brasil. Os dois portugueses precisavam de mão-de-obra para trabalhar na sesmaria. Almeidão os acompanhou . Antes de irem ao Chega-Nego, passaram na Igreja de Santo Antônio da Barra. (Ironia à prática cristã: antes de comprar homens para escravizá-los, vão receber a bênção de Deus para garantir o sucesso da empreitada.) Os dois primos souberam, através de Almeidão, que São José era uma espécie de patrono dos traficantes de escravos, vez que do alto daquele outeiro da Igreja de Santo Antônio da Barra, o casto esposo de Maria velava pela sorte dos navios que bravamente se arriscavam ao mar, rumo à África, em tão subida missão. (Ironia do autor e crítica ao uso equivocado dos preceitos cristãos adaptados a interesses vis). O Almeidão lhes contou que traficar negros não era vergonhoso para o português ou até para os colonos, e que até havia uma espécie de Irmandade protetora desses comerciantes em tão honrado ofício. O próprio Almeidão complementava sua renda com este comércio e esperava para aquele dia a chegada da corveta Augusta. Esclareceu os trâmites do comércio: os traficantes baianos, forneceram ao capitão da corveta Augusta uma grande quantidade de fumo comprado nas plantações de tabaco da Bahia. Este capitão levou o tabaco para comercializar em terras "d’além mar" e, em pagamento aos amigos, trouxe escravos da África em número anteriormente acertado e suficiente para ficarem quitados na transação. Infelizmente, desta vez, a corveta Augusta não apontou no Chega-Nego, pois estava com diversos negros contaminados de varíola, febres epidêmicas, sarna e doença dos olhos. O navio ficou afastado do porto, de quarentena imposta pela Inspeção de Saúde. Como sempre acontecia quando havia doentes a bordo, a embarcação ficou em Monte Serrat, aguardando que os enfermos melhorassem. Desta forma, os dois primos não puderam comprar escravos do Almeidão, mas no dia seguinte foram aguardar outra corveta, a Salve-Rainha, de onde compraram quinze escravos ao todo; esses escravos faziam parte de um lote pertencente ao Ouvidor-Geral, Teodoro Rumecão. (Notar a crítica irônica à Igreja Católica: os dois navios negreiros têm nomes sagrados – corveta Augusta – ligada a anjo; corveta Salve-Rainha – louvação à Virgem Maria). Herberto aproveita para criticar , sob a forma elogiosa – na verdade, uma grande ironia – o fato de os portugueses serem habilidosos na arte de "socar" tantos escravos – quinhentos – numa corveta muito pequena. Corria até uma legenda de que os navios portugueses eram pequenos por fora, mas grandes por dentro, tendo reconhecido este feito os holandeses , nesta época, seus rivais, neste comércio. A perícia náutica dos portugueses contribuía para isso: Holandeses transportavam trezentos escravos em grandes navios; já os portugueses, em pequenas caravelas, transportavam quinhentos homens. (Evidencia-se, aí, uma grande e irônica crítica ao povo português, avaro e desumano). O capelão de bordo do Salve-Rainha, além de ser parente do Ouvidor-Geral, Teodoro Rumecão, também foi amigo de infância de Quincas Alçada. Reencontraram-se, então, o que muito contribuiu para que os laços de amizade e apreço entre Quincas Alçada, Policarpo Golfão e os Rumecões fossem estreitados. Pe. Salviano contou a Quincas ter sido ajudado por dona Eponina, sua madrinha que, em carta ao parente Ouvidor indicou-lhe Salviano como padre para a colônia. Quincas confidenciou que também chegara à colônia graças à bondade do primo Policarpo Golfão. (Todos são oportunistas. É deste fio que se formará o tecido social brasileiro.) Sabendo que Policarpo havia sido condecorado com a medalha de capitão-mor, Padre Salviano julgou por bem levá-lo a visitar seu tio-avô, o Ouvidor-Geral, Teodoro Rumecão, em cuja casa habitualmente esse padre se hospedava. Depois da escolha de quinze bons negros para escravos, fortes como animais, rumaram para a casa do Ouvidor, conhecida na Bahia como o Solar dos Sete Candeeiros. Assim que chegaram ao solar, Policarpo viu Liberata, a filha solteira do Ouvidor e logo se sentiu atraído pela beleza desta moça. O Padre, observando que a moça prendia a atenção de Policarpo, explicou-lhe quem ela era. A moça desapareceu, enquanto o Padre mandava um escravo da casa guardar seus pertences num quarto do Solar dos Sete Candeeiros, onde costumava se hospedar. Foram recebidos pelo Ouvidor, muito solicitamente. Enquanto isto acontecia, Policarpo tinha o pensamento voltado para a bela jovem que havia visto. Conversaram sobre a colônia, sobre os preços dos escravos de um modo geral e do tempo requerido para o translado África/Brasil: mais ou menos quatro meses. Os negros chegavam em boas condições, na maioria das vezes, o que gerou uma carta do próprio Príncipe D. João, enviada ao então Governador, Francisco da Cunha Menezes, louvando a excelência deste surto de progresso no tráfico de escravos na Bahia. (Ironia do autor ao realçar um feito tão vil dos portugueses. É como se a carta de um Rei pudesse legitimar ato tão desumano). Concordando com o que dissera o Vice-Rei, Conde de Sabugosa em 1731, Policarpo reconheceu, durante sua conversa com o Ouvidor-Geral, que sem escravos, a colônia não poderia desenvolver seu trabalho na lavoura das fazendas de cana, tabaco e roças de mandioca. Policarpo comprou dez escravos do Ouvidor e cinco do Padre Salviano, todos provenientes do Salve-Rainha. O padre ficou feliz, pois todos já haviam sido batizados e, portanto, já tinham nomes de gente (crítica à aculturação do negro pelo europeu – além da crítica à escravidão). Herberto Sales chama a atenção do leitor para um molecote chamado Estevão e demais mulheres e homens jovens que sorriam em subserviência ao seu senhor (Policarpo). O Padre Salviano Rumecão disse a Policarpo enquanto observava os negros: "Agora é casá-los. Vão procriar, fácil e muito. Com dois casais desses produz-se toda uma escravatura." Os negros sorriam porque aprenderam que deveriam sorrir quando o padre lhes sorrisse. Havia uma escrava jovem que, por ser bela, Policarpo guardou o seu nome: Gertrudes. O autor antecipa que ela haveria de se tornar muito conhecida, mais adiante. (É marca do romance antecipar fatos e avisar da importância de certas personagens). Policarpo Golfão soube que sua sesmaria ficava situada numa região – Monte Alto – onde um irmão de Liberata – Sezefredo Rumecão – amante do campo e das letras, chamado na região de O Fidalgo, administrava uma fazenda do seu pai, produtora de cana-de-açúcar e fumo. Isto lhe foi dito pelo Ouvidor-Geral. Quando saiu, neste dia, do Solar dos Sete Candeeiros, Policarpo vislumbrou Liberata à distância e teve a certeza de amá-la. Chegando à pensão de Almeidão, o Capitão-Mor tomou conhecimento de que Rosa, esposa do Almeidão, era íntima de Liberata, pois era sua costureira. Coberto de honradez, propôs a Rosa – mulher muito digna – que levasse até à donzela uma carta de amor, pedindo-a em namoro. Policaro e Quincas saíram da hospedaria de Almeidão para viajar, mas antes o Capitão pagou regiamente sua estada por lá. Antes da partida assistiram à missa na Sé, oficiada pelo Padre Salviano, que se queixava de más notícias. O Rei de Portugal havia mandado adaptar (limitando) a lotação dos navios negreiros a depender da capacidade de cada navio. Obviamente, o padre ficou possesso, porque, pelas leis do Reino, não poderiam mais trazer homens amontoados; trariam apenas aqueles que pudessem ser transportados com um mínimo de condição de sobrevivência. (Forte crítica à Igreja, visto que o padre ficou contrariado com o prejuízo). Notar a pressão da Inglaterra sobre a Metrópole. Depois deste contato com o padre, Policarpo, Quincas e Almeidão foram se encontrar com um homem – Mestre Manoel – um competente navegante que singrava as águas da Baía de Todos os Santos. Um descendente desta personagem está no romance Jubiabá, de Jorge Amado (intertexto). Interessante é notar que Herberto Sales é autor neomoderno – publicou Os Pareceres do Tempo em 1997 , enquanto Jorge Amado é autor da 2a fase moderna, tendo publicado o livro Jubiabá em 1935 . Como Herberto Sales ambienta o seu romance no século XVIII, e Jorge Amado no século XX, apesar da precedência literária da publicação de Jorge Amado, num fingimento poético, Herberto Sales diz que "o seu" Mestre Manoel é antecedente dos demais. Caracteriza-o como um português que vivia amigado com uma mulher negra (sua escrava, de nome Maria). Tinham seis filhos, dentre os quais apenas um era homem: Manoelzinho, uma criança já afeiçoada às artes da navegação –. Mestre Manoel disse aos conterrâneos que aquela era a sua Maria – concubina com quem procriava a sua prole baiana, em doce mestiçagem (referência às nossas matrizes étnicas, à formação do povo brasileiro). Policarpo estranhou o nome do barco "Viajante sem Porto". O Mestre disse-lhe que este era o nome de um outro barco que pertencera ao seu pai. Confessou a Policarpo desejar que seu único filho homem, Manoelzinho, seguisse a tradição da família. (Na verdade literária, esse desejo se transforma em realidade, haja vista que o Mestre Manoel, personagem de Jubiabá, é descendente deste navegador que aparece em Os Pareceres do Tempo). Os escravos comprados por Policarpo Golfão foram trazidos acorrentados pelas ruas – costume da época – até o barco do Mestre Manoel; eram puxados pelo capitão do mato de Teodoro Rumecão, homem incumbido de levá-los e deles tomar conta até chegarem à embarcação. Quando chegou ao barco, Policarpo se encontrou com um primo do Mestre Manoel, o José do Vale, que, a partir daí, seria o Capitão do Mato de Policarpo Golfão. Seguiram viagem. O autor, num exercício lúdico, deseja que num futuro que há de vir ("Praza Deus": linguagem dos cronistas portugueses) possa haver um escritor que se encante com as belezas da Bahia e cante-as divulgando-as mundo afora. "Prevê" a possibilidade de esse poeta falar talvez de um novo "Viajante sem Porto" e de um novo Mestre Manoel, – isso acontece com Jorge Amado, em Jubiabá –. Assim, a "previsão" de Herberto, na verdade, é uma "pós-visão". Os viajantes chegaram à Cachoeira, onde haveriam de tomar outra embarcação mais tarde. Mestre Manoel retornou, enquanto os escravos foram para uma senzala pública, amarrados por cuidado e uso. Um espanhol, chamado De La Vara tomaria conta dos negros enquanto os demais ultimariam preparativos para seguirem viagem. Passaram-se nove dias entre compra de animais e objetos necessários à instalação da casa na sesmaria. Contrataram o Mestre de Obras Joaquim Dinis e mais um auxiliar de Capitão do mato, o Bertoldo, português da Ilha da Madeira. O filho do Joaquim Dinis, Serafim, também viajaria na comitiva. O padre Rapalho, exímio pregador contra o Demônio no Recôncavo, benzeu a comitiva e partiram com cavalos e carros de bois repletos de mantimentos e escravos muito apertados. Transcorridos vinte e cinco ou trinta dias, chegaram à Vila de Monte Alto. O jesuíta, Padre Gumercindo, há muito se ocupava da pacificação dos índios maracás, habitantes deste território. Esse padre, português da Companhia de Jesus, mostrava-se bondoso com os índios, mas exercia sua bondade com sabedoria medida para pacificá-los. O padre Salgado era também seu aliado. Policarpo visitou Sezefredo Rumecão, o Fidalgo, na companhia do padre Gumercindo. Ficaram amigos e o Fidalgo disse conhecer as terras da sesmaria de Policarpo que faziam divisas com as suas em Cuia d’Água. Foi convidado a pernoitar com o Fidalgo, juntamente com os padres, na agradável residência de Sezefredo. O Fidalgo acompanhou Policarpo, na manhã seguinte, a uma visita pelas terras da Vila. Ao ouvir o badalar dos sinos da missa, Policarpo, contrito, prometeu a si mesmo mandar construir uma igreja naquele local. Parando sobre o vale das terras de Policarpo, observaram ser aquela a vista mais bela da região, coberta de arbustos em flor. Em especial havia um imenso pé de Ipê Amarelo que, florindo, cobria o chão como tapete natural. Policarpo encantou-se pela árvore e resolveu ao lado dela construir sua casa, no alto de uma bela colina. Notava-se, nas terras, uma trilha e Sezefredo disse a Policarpo que Liberata ficava horas a apreciar a paisagem junto ao Ipê quando ali esteve a passeio. A coincidência tocou fundo o coração apaixonado de Policarpo. Conversaram sobre pecuária, uma das fixações do Capitão-Mor. Disse o Fidalgo que tinha algum gado em suas terras, bem como pastagens. Policarpo avistou do alto algumas cabanas indígenas em suas terras. Reclamou e ouviu do Fidalgo que nada havia o que temer. Eram índios pacificados pelos jesuítas. Antes, eram ferozes, atiravam e matavam muitos portugueses ilustres, mesmo tendo estes apresentado aos silvícolas seus documentos de posse de terra cedidos pelo Rei. Policarpo reconheceu o trabalho nobre executado pelos jesuítas. Mesmo assim, ainda ficou temeroso frente aos silvícolas, até saber que a maioria dos fazendeiros tinham índios como trabalhadores de suas terras, trabalhando em sistema de "meia", embora julgassem os negros mais rijos. Começaram as obras de construção da casa, que em pouco tempo ficou pronta. Apesar de ter trazido dinheiro suficiente de Portugal, Policarpo passaria por apertos financeiros, pois era perdulário e gastava sem reservas. O Fidalgo, pouco a pouco, vai enredando Policarpo em dívidas, deixando para receber o que fornecia ao Capitão-Mor em outra ocasião. Trazia para Policarpo gado e demais objetos para a construção da casa, sempre insistindo que o pagamento fosse deixado para depois. Sem o saber, Policarpo estava sendo vítima de uma trama do Fidalgo que intentava deixá-lo empobrecido para que tivesse necessidade de vender (ao Fidalgo) parte das terras mais produtivas da sesmaria, dotadas de reservas de água em profusão. O Capitão-Mor tornava-se bem quisto nas redondezas, pois era pródigo. Quando passeava pela vila montado em um belo cavalo, era uma figura carismática, o que fazia o povo cantar ao vê-lo: "Lá vai Policarpo Golfão No seu cavalo alazão" O capitão foi conhecer o acampamento dos índios que, cabisbaixos, saudavam o chefe, receptivos, embora houvesse uma certa tensão no ar. Trabalhavam na lavoura e já haviam sido batizados. Policarpo comunicou a Quincas Alçada, reservadamente que Quincas precisava partir para a Bahia. Entregou-lhe uma carta atada a um laço. Pediu-lhe que fosse entregue a um homem de confiança. Sabia que esta carta, passando por Almeidão e Rosa, chegaria a Liberata. Tudo em segredo. Ele havia resolvido escrever à donzela Liberata, reiterando seu amor e prometendo ir à Bahia, mais tarde, a negócios como dizia, mas sabia que era para vê-la. Partindo Quincas, Policarpo assumiu sozinho o comando da fazenda. Tudo transcorria normalmente. Uma das escravas, a Gertrudes, fazia queijos na cozinha quando foi assediada por Policarpo que, atônito, via em Gertrudes a amada Liberata. Chegaram a se beijar mas Policarpo saiu assustado pela queda moral por que passara. Aproveitou Policarpo o tempo para estreitar laços com os maracás. Padre Gumercindo, muito próximo dos índios, apresentou-o como o legítimo dono das terras onde habitavam os maracás. O Fidalgo sempre se aproximava para apreciar as terras de Policarpo. Embora não demonstrasse, nutria muita inveja por elas. Durante a construção da casa, um trabalhador de Policarpo foi picado por uma cobra. Ao tentar matá-la o capitão se desequilibrou emocionalmente, demonstrando extremo pendor para a violência. Esse aspecto da personalidade do Capitão-Mor ficará patente no clímax do romance. Padre Gumercindo chegou para apresentá-lo aos maracás como senhor deles. (Há forte crítica à Igreja Católica). Um índio – Nicodemus – (ex-Siminu), por entender a língua dos brancos, serviu como porta-voz de Policarpo. Disse aos outros índios o que o padre desejava e Policarpo queria que os índios ouvissem. "Este é o seu Senhor, ele é bom; deverão plantar em meia; se houver sobra na lavoura, ele comprará." Depois de algum tempo chegou à Cuia d’Água o Quincas com uma carta de Liberata aquiescendo com o namoro. Policarpo resolveu ir à Bahia de repente, logo após a festa da cumeeira. Os índios compareceram à festa junto com os negros. Desconfiados, os índios não dançaram durante os festejos da casa grande, ao contrário dos negros que cantavam e dançavam, usando cânticos africanos. Durante esta festa, Quincas se aproximou da bela índia Iuru. Perguntou a Nicodemus quem era ela (aqui, ele não é citado como ex-Siminu, como se houvesse reagido e se tornado de novo índio frente à ameaça à honra da índia-irmã). Nicodemus disse: "Ela é filha da índia Iacina. É minha irmã". Quincas costumava sumir, atrás da índia Iuru. A vida continuava a mesma, com escravos sendo castigados pelo capitão do mato. O negro Estêvão demonstrava nutrir uma paixão por Gertrudes, que nada demonstrava sentir por ele. Esta negra revelava uma paixão mal contida pelo patrão, e Estevão percebeu isto guardando rancor frente a esta trama urdida pelo destino. Estêvão notou a paixão de Gertrudes, ressentiu-se, mas nada pôde fazer. Apenas existia a revolta e a inveja. Um dia, Quincas foi ao aldeamento dos maracás e chegou à cabana de Nicodemus (ex-Siminu). Sabia que ali encontraria Iuru (batizada Joana). Não a encontrou e soube por Iacina que a índia fora ao rio pescar. Quincas a procurou, perguntou se queria se casar com ele e ela procurou fugir dele, dizendo ser ele homem branco. Mesmo que quisesse, não poderia se casar com um branco, pois a tribo não aceitaria. A índia fugiu como animal assustado, e Quincas ficou cada vez mais ligado a ela. Depois de algum tempo, houve a festa de Senhor dos Passos, à qual todos compareceram. A imagem da índia perseguia Quincas, enquanto Policarpo dividia-se entre a idealização de Liberata e a lascívia que nele despertava a negra Gertrudes. Policarpo viajou à Bahia sem deixar claro o motivo. Precisava resolver coisas urgentes. A sesmaria ficou sob o comando de Quincas. Ao chegar a Salvador, o capitão procurou Liberata e teve alguns encontros com ela na Igreja da Barroquinha. Ele queria pedi-la em casamento. Policarpo pretendia trazer tropas de gado do Piauí e Maranhão em parceria com Garcia D’Ávila. Fez contato com Garcia D’Ávila e planejou viajar com vaqueiros levando Almeidão que, em virtude de o tráfico de negros estar em baixa, viu a chance de ficar rico com o gado tropeiro. Policarpo se encontrou com Liberata e o amor puro dos dois cresceu. O Capitão-Mor saiu em longa viagem, foi bem sucedido nos negócios e retornou mais rico. Todos estavam bem de dinheiro. Policarpo doou ao padre Salviano grande soma em dinheiro para que ele fosse a Roma encomendar uma grande imagem de Senhor dos Passos. Policarpo, agora, resolveu pedir Liberata em casamento. Ouviu de Teodoro Rumecão que a moça já estava prometida a um primo, médico, em Portugal. Decepcionado, tramou a fuga com ela. Pediu a Rosa, esposa de Almeidão, que fizesse um enxoval perfeito para uma sobrinha (de Policarpo) que vivia em Portugal. Disse a Rosa que a moça tinha o corpo de Liberata e que a costureira poderia tomar por ela a medida e o gosto. Pagou antecipada e regiamente a Rosa que se esmerou, crendo no Capitão. Policarpo tentou agir de outra forma. Recorreu aos tios de Liberata mas nada resolveu. O pai da moça não permitia o casamento. Ela, muito consciente de sua situação, fugiu da casa dos pais, durante uma madrugada, montada num cavalo com o amado. Como ele a respeitasse, ela ficou hospedada num convento até correrem os papéis para o casamento. Afinal, casaram-se e só depois disto tornam-se realmente marido e mulher. A felicidade durou pouco, pois Liberata soube da morte do pai (de desgosto), ainda durante a sua lua-de-mel. Apesar disto, mantiveram-se unidos e se amando. Partiram para Cuia D’Água. Quando passaram pela Vila, chamaram a atenção dos moradores sem saber por quê. Chegando à fazenda encontraram tudo devastado. Campos destroçados, a casa queimada, os escravos haviam fugido e os índios destruíram com furor o que puderam. Dos empregados, ficaram apenas Gertrudes e o Capitão do Mato José do Vale. Policarpo caiu numa prostração jamais vista; sua ira era imensa. O Capitão do Mato João do Vale contou o ocorrido: os índios encontraram Quincas Alçada com Iuru. Levaram a índia, mataram Quincas e puseram fogo à casa grande. Todos os escravos aproveitaram para fugir, exceto Gertrudes (por razões bem particulares) Policarpo entrou em choque e Liberata se mostrou uma mulher forte. A partir de agora, com humildade, Gertrudes ajudou à senhora. Policarpo chorou a morte do primo que tinha como irmão e prometeu uma vingança contra os maracás jamais pensada. Neste meio tempo, o Fidalgo mandou-lhe cobrar o que era devido. Policarpo transtornou-se. Mandou construir um túmulo suntuoso para o primo e arregimentou homens para saírem em caça aos maracás. A partir daí, vai gastando todo o dinheiro (e era muito) de que dispunha. Saiu em várias expedições deixando Liberata cada vez mais só. Quando passava, o povo cantava essa melodia: "Lá vai Policarpo Golfão No seu cavalo alazão Com Liberata no coração" Liberata engravidou e requereu para si duas pessoas que lhe faziam companhia e o enxoval. Policarpo voltava cada vez mais possesso das expedições, pois apesar de chegar perto, não conseguia pegar os índios. Gastou muito nestas empreitadas e tomou-as como obsessão. Liberata se sentia mais só e triste. Contou com os empregados e com a fidelidade de Gertrudes. Policarpo foi obrigado pelo Fidalgo – neste momento de relações rompidas – a ceder uma parte de suas terras para quitar dívidas que foram contraídas anteriormente. Ficou desolado. Saiu, um dia, numa outra expedição. Encontram um índio que, forçado, levou-os ao acampamento dos maracás. Policarpo conseguiu a sua vingança, pois foi ele quem matou o índio Siminu – "agora sou Siminu ; Nicodemus é nome de branco". Ateou fogo no aldeamento, destruindo tudo. Retornou exultante, muito embora tivesse sido ferido numa perna, o que lhe deixou uma manqueira como seqüela. Ao chegar em casa soube da tragédia que se abateu sobre ele. Liberata dera à luz dois meninos: Braulino José (nome do seu avô paterno) e Joaquim (nome do saudoso Quincas Alçada). Não resistira à série de desenganos; enfraquecida, morrera poucos dias após o parto, sem rever o amado. Policarpo, enlouquecido de dor, não sabia o que fazer. Soube que o Fidalgo dera assistência à irmã. Grato, procurou-o e ele recusou-se a falar com Policarpo. Abatido, envelhecido, Policarpo se dedicou a prestar uma homenagem à morta: mandou erguer um rico mausoléu para a amada. O ferimento na perna de Policarpo se agravava. Ele não conseguia cuidar dos filhos que ficaram sob a proteção de Gertrudes – agora,governanta da casa e sua comadre, para impedi-lo de ser tentado. Recebeu finalmente a imagem de Roma. Houve intrigas para que a Igreja prometida não fosse erguida,pois a família de Liberata estava ressentida com o Capitão e era muito influente junto à Igreja, o que fazia que os padres se opusessem à construção de uma igreja dentro de um território particular (crítica à Igreja Católica, parcial, mestra na arte de jogos de interesse). A música popular mudou: "Lá vai Policarpo Golfão No seu cavalo alazão Levando com devoção A sua igreja no coração" Gertrudes passou de escrava a gerente dos bens de Policarpo, mostrando-se uma personagem evolutiva. Cuidava das crianças como se fora sua mãe. A igreja foi se erguendo aos poucos. Policarpo refugiou-se em suas lembranças, preferindo a companhia do Ipê. Um dia, Policarpo sentou-se sob o Ipê Amarelo florido. Abriu as mãos como para abraçar as flores e foi encontrado morto. Nos registros finais, o autor finaliza o romance elucidando, neste epílogo, o que aconteceu com as personagens principais envolvidas na trama. Retorna, então, ao presente, e, numa espécie de "vôo panorâmico", percorre, hoje, os locais que serviram de palco para a trama romanesca, dando-nos o resultado do que "viu" por lá. O autor resume assim o final: Policarpo deixou seu testamento numa cômoda, no "quarto da finada". Lá, havia uma cópia para o Pe. Gumercindo e outra para Gertrudes. Nesta carta-testamento, Policarpo deixava uma quantia em dinheiro para que os dois concluíssem a construção da Igreja de Senhor dos Passos em Cuia D’Água. Também orientava os dois no sentido de levantar fundos, com a venda de terras e gado, caso necessitassem de mais dinheiro para a conclusão da obra, o que não foi necessário, pois Gertrudes se empenhou em fazer que a construção continuasse com a organização que era peculiar a esta personagem. Em pouco tempo a construção ficou pronta. A Igreja demorou de ser inaugurada, porque o bispo da diocese, D. Abelheira, era amigo fiel de Theodoro Rumecão e do Fidalgo. Guardava, por isso, rancor de Policarpo e usou a sua força para impedir que a Igreja fosse reconhecida, alegando que se tratava de uma construção particular, não cabendo ao Vaticano tomá-la como entidade cristã, a si vinculada diretamente. O Pe. Gumercindo, por ter se empenhado na construção e legitimação da Igreja, foi transferido para a paróquia de Caixa-Prego. Segundo vontade expressa de Policarpo, seu corpo foi enterrado no pequeno cemitério da fazenda, junto com a sua inesquecível Liberata. As regiões de Monte Alto e Cuia d’Água acabaram se fundindo numa só cidade. Ao centro desta cidade numa praça que traz o nome de Policarpo Golfão, hoje está situada a Igreja de Senhor dos Passos, erguida pelo Capitão. Os filhos de Liberata e Policarpo tiveram destinos diferentes: Joaquim Rumecão Golfão foi mandado por Gertrudes à Cachoeira e depois à capital para estudar. Não se formou. Foi boêmio e retornava a Cuia D’Água para vender seu patrimônio. Acabou morrendo tuberculoso num sanatório em São Paulo. Braulino José Rumecão Golfão foi estudar na capital, formou-se advogado mas jamais exerceu a profissão. Retornou depois a Cuia D’Água amancebou-se com uma índia maracá, com quem depois se casou (após o nascimento do oitavo filho). Viveu ali até os 132 anos. Meses após seu depoimento ao autor, morreu e hoje, como seu pai, sua mãe e Gertrudes, encontra-se enterrado no cemitério da fazenda em Cuia D’Água. Personagens Principais Policarpo Golfão: recebe uma sesmaria na região de Cuia D'água, no interior da Bahia. Foi uma forma que o governo Português encontrou para idenizá-lo pela morte do pai. Joaquim Manuel Alçada Golfão(Quincas Alçada): Primo de Policarpo, vem com ele ao Brasil. Se apaixona pela índia Iuru. Almeidão: dono de pensão, e depois se torna sócio de Policarpo em negócios de gado. Teodoro Rumecão: ouvidor-geral e pai de Liberata. Liberata: mulher amada por Policarpo. Padre Salviano Rumecão: sobrinho de Teodoro Rumecão, traficava escravos. Sezefredo e Vitorino Rumecão: negociantes de escravos e donos de uma olaria. Padre Gumercindo e Salgado: responsáveis pela catequese dos índios. Nicodemos: índio que foi batizado, pela catequese, e passa a se chamar Sinimu. Assassina Quincas Alçada. Iuru: índia por quem Quincas se apaixona, era irmã de Nicodemos. Garcia D'Ávila: homem mais rico e o maior proprietário de terras do Brasil. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  


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