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"Nunca pude esquecer sua morte. Eu o vi, mas na hora não entendi tudo. Eu só vi o sangue. Tinha sangue por toda parte. O lençol estava vermelho. Tinha uma poça no chão. Tinha sangue até na parede. Nunca tinha visto tanto sangue. Nunca pensara que, uma pessoa se cortando, pudesse sair tanto sangue assim. Ele estava na cama e tinha uma faca enterrada no peito. Seu rosto eu não vi. Depois soube que ele tinha cortado os pulsos e aí cortado o pescoço e então enterrado a faca. Não sei como deu tempo de ele fazer isso tudo, mas o fato é que ele fez. Tudo isso. Como, eu não sei. Nem por quê." Um Mundo Despoetizado Os Contos de Tarde da Noite, de Luiz Vilela, em geral são breves, centrados em uns poucos personagens e uma única ação, e chegam a criar um início de expectativa sobre o desenvolvimento; aí, parecem estagnar-se em direção ao final, que nunca é algo muito inesperado. Ao contrário, os finais geralmente são o que se espera que aconteça, como a afirmar que a ruindade do mundo não comporta muitas surpresas; nada de muito diferente deve acontecer para quebrar a miséria dominante. Os personagens são meninos, meninas, jovens casais e casais não tão jovens e velhos, que transitam num mundo de perversidade, incompreensão, tédio, ostentação, dominação, medo, incerteza. A linguagem é coloquial, bastante direta, despojada, sem muitas surpresas também, com poucas imagens, a maioria comuns ou desgastadas. Pouca poesia para falar de um mundo despoetizado. Impressões Infantis O ponto de vista da criança predomina nos contos, como uma voz que tenta se opor ao sistema de opressão do grupo social, mas raramente consegue. Em "Lembrança", conto que abre o livro, o narrador volta a seu passado infantil e reencontra a figura do avô. O velho parecia um ser tranqüilo, de pouca conversa, as pessoas nem o notavam direito, em seu quartinho dos fundos. Sua vida passada, entretanto, havia sido recheada de perdas, abandonos, mortes. O que as pessoas viam como um velho distinto era um monte de amargura. Suicidou-se cortando os pulsos e o pescoço, e enterrando a faca no coração. Morte violenta para quem vivera na paz destroçada da perda. Sua aparência de limpo na mente do menino, entretanto, não fora maculada. Tanto sangue, para o menino, não era sujeira. Era diferente. Era o símbolo da limpeza que o velho precisava fazer em sua vida, a purificação que conduz à morte. A criança não consegue se manter imune às misérias da sociedade, como as que destruíram o avô do primeiro conto e as que se apresentam ao protagonista do conto "Aprendizado". Eduardo tirou nota máxima na redação e correu a casa para exibir com orgulho o texto ao pai e à mãe. Jordão e Grilo o abordam, dizendo que também querem ler o texto, e usam de todos os subterfúgios para que ele ceda. Ao ver sua redação rasgada pelos colegas invejosos, Eduardo tenta agredi-los, mas a reação de seus "semelhantes" promete ser muito mais violenta. O menino aparece como um ser humano frágil, inexperiente, que tem de aprender a duras penas como sobreviver em um mundo repleto de perversidade, que ofusca as pequenas vitórias pessoais. A arte de escrever exige um longo aprendizado. Conhecer as fraquezas e as maldades das pessoas também, desde a infância. Mais uma vez, o menino aparece como um ser humano frágil, inexperiente, que tem de aprender a duras penas como sobreviver em um mundo repleto de perversidade, que ofusca as pequenas vitórias pessoais. A incompreensão dos atos dos adultos também faz parte do sistema infantil. Em "Um peixe", o menino volta da pescaria no domingo. Os peixes estão mortos no tanque, apenas a traíra se mexe. Ela é separada dos demais, e "ressuscita" na pia com água limpa. O menino vibra com a ressurreição e vai à padaria comprar pão para sua nova cria, para a qual já havia feito planos para o futuro. Ao chegar a casa, constata que a empregada havia assassinado seu mascote, para fritar. O menino é o caçador de peixes por esporte, é o predador dos animais, mas tem afinidade com eles. Se um deles escapa, manda o código de honra infantil que ele seja preservado, por ter adquirido o direito a uma vida mais longa através da bravura. O adulto intrometido joga por terra a construção moral da criança. O mundo dos homens cansa. No conto "Suzana", os dois meninos combinam como é que vai ser a abordagem de Suzana, como é que eles vão fazer "aquilo" com ela. E se ela não deixar hoje? O medo é o velho aparecer. Tudo verificado, os meninos se aproximam e um deles se adianta: - Suzana - chamou, e a égua apareceu. Ainda na linha da relação da criança com os animais, os meninos aqui têm sua iniciação sexual proporcionada por um animal, um elemento puro, não contaminado pelas mazelas sociais: - Doença? Essa é boa; mais fácil a gente pear doença nela. Criança e animais produz outro conto, "As Formigas". O conforto do mundo desconfortável é dado ao menino ao conversar - e ser correspondido - com as formigas que fazem fila na parede saindo do rachado. Seu mundo de formigas é muito melhor do que o de homens: sem gritos, mentiras. E o perverso mundo dos homens é que se encarrega de destruir sua fantasia confortante: o pai cimenta o rachado por onde saíam as suas amigas. É o fim, a angústia, o bolo na garganta. Há também o menino levado e desaforado, que aprende rápido a se defender na selva social, em "Menino". Márcio é o protótipo do menino teimoso, não lava as mãos, não almoça direito, faz birra com a mãe dizendo que não vai à escola, manda o professor à merda, e fica de castigo. Chegando tarde a casa, a mãe o repreende e ele diz que ficou de castigo por ter respondido mal ao professor. Márcio pergunta à mãe se era mau menino; a mãe fica enternecida com o filhinho levadinho e responde que não. O menino correu e saltou na quina da banheira. - Striknik! Striknik! A temática do conto é a relação entre mãe e filho; ela briga todo o tempo com o menino, tenta conter seu espírito inquieto, mas o ama, e engole apertado quando ele diz que se julga um mau menino. A menina que tem medo aparece em "Os mortos que não morreram". Há aí uma mistura de impressões infantis sobre uma rachadura no teto, que se lhe afigura o rasto de um bicho, e diálogos de adultos. O tema das conversas dos homens e mulheres é a ameaça que paira sobre os animais, com efeitos piores sobre o animal homem, que é consciente disso e tem seu maior fator de sofrimento na memória, onde habitam os mortos que não morreram. Dois dos homens trocam ironias e sarcasmos, um deles tenta seduzir a esposa de um terceiro, na cozinha. Em seu retorno, discute-se a permissividade e a moral. Lá dentro, a menina chorava, assustada com o bicho que riscou a parede. O ser humano, seja criança ou adulto, vive num mundo de medo, incerteza, desavenças e seduções. O saber, ou a aparência dele, é uma forma de poder, que provoca admiração ou inveja, e prepotência daquele que julga possuí-lo. Os mortos que não morreram são, portanto, todas as misérias que compõem a vida do homem, e sem as quais ele não consegue sobreviver. A falsa autoridade das instituições dos adultos também contamina as crianças. "Com seus próprios olhos" tem uma estrutura dialógica, em que o diretor da escola faz perguntas incessantes ao menino Ivo, que havia presenciado na noite anterior uma cena de sedução entre o distinto diretor e outro menino. O diretor conta com a discrição de Ivo para que ninguém saiba do ocorrido, que seria um escândalo. É a temática do abuso de poder, da falsa aparência de probidade e respeitabilidade. As ações das pessoas desmentem o que sua superfície aparenta, e de repente toda a consideração que o mundo social tem pela nobreza do cargo de diretor fica na dependência de um menino frágil e humilde. Outra forma de abuso de autoridade que a criança ou o jovem não quer aceitar aparece em "O professor de inglês". O professor corresponde à tradicional caricatura do mestre autoritário, com cara de rato, cabelos ralos na cabeça. O professor pune com notas baixas, ameaça com reprovação, humilha os alunos, responde mal a todos. Os alunos não têm nome; apenas números. O aluno novato indigna-se com a postura do professor, e pergunta a um colega por que é que eles não reclamam dele. Para a escola, o professor sabe o conteúdo e dá aulas, portanto não há motivo para tirá-lo. O aluno novato, mais sensível, afirma que esse sistema é horrível, e, diante da afirmação do colega de que um dia ele iria é achar graça da situação, ele se torna grave e declara: - Nunca vou achar graça disso, nem vou esquecer. Nunca vou esquecer disso. A temática do conto é o autoritarismo do sistema escolar, representado pelo professor de inglês. O sistema é fechado, de absoluta dominação, e as pessoas normais devem-se sujeitar a ela, para, talvez, até acharem graça posteriormente. A exceção é o personagem Carlos, que não pensa como os outros. Expectativas Nulas A visão do adolescente, ou do jovem adulto, também transmite perplexidade, ou desesperança, ou amargo conformismo. O título de "A pátria precisa de você" ironiza o apelo patriótico do cartaz que leva os adolescentes a imaginarem que serão bem-vindos ao exército (que se auto-intitula "pátria"), já que eles constituem o elemento necessário lá. Entretanto, o grupo de jovens que se apresenta "para servir a pátria" sofre maus tratos e ofensas dos representantes da lei. O autoritarismo e a prepotência do militares no pequeno tempo de convivência do adolescente narrador naquele lugar dão a ele uma grande sensação de liberdade quando terminam aqueles momentos de opressão e ele afinal pode seguir para casa. O adolescente tem suas carências, que precisam ser refreadas. "Uma namorada" era tudo de que o narrador não precisava, até que seu chefe, o doutor, lembrou-lhe de que isso existia no Dia dos Namorados. Foi aí que as noites se tornaram um problema. Até então suas noites, após um dia de trabalho dedicado e comprometido, se resumiam às idas ao cinema e um copo de leite. O próprio cinema começa então a despertá-lo para a existência de namorados e namoradas. Sua primeira tentativa de namorar revela-se, entretanto, tão desastrada, que ele tenta o suicídio. É salvo pela perícia do motorista do ônibus. Com persistência, consegue "curar-se" do desejo de ter uma namorada e sua vida volta a ser como antes. A temática desse conto é a da adolescência morta pela mecanização do trabalho e a solidão. Se se exige do homem esse tipo de vida, ele tem que corresponder a ela, e "curar-se" de qualquer desvio do que se espera dele como pessoa: funcionário exemplar e pessoa "normal". Pobreza e solidão, dois fortes motivos para depressão, que não pode ser evitada nem pela juventude dos vinte anos. A vida é triste, amarga, só resta entregar-se à dor. "Num Sábado" contém uma temática análoga. O rapaz pobre que trabalha duro a semana inteira sai pela manhã de sábado, toma uns chopes, volta para casa à tarde, dorme para esquecer a tarde, acorda, come pão e veste um terno. Termina por não sair, e fica pensando em si mesmo, em sua pobreza e solidão, e tem vontade de morrer. Pobreza e solidão, dois fortes motivos para depressão, que não pode ser evitada nem pela juventude dos vinte anos. A vida é triste, amarga, só resta entregar-se à dor. Outro suicídio não perpetrado aparece em "O Suicida". Alguém anunciou numa rádio que iria pular do alto de determinado prédio às dezessete horas. Nesse contexto desenvolve-se a narrativa. O infortúnio de uma hipotética pessoa que se atira do alto de um poço profundo transforma-se em espetáculo para os devoradores de emoções fortes. Tenta-se descobrir a causa da tentativa de suicídio, discutem-se outros casos de suicídio. Um pedreiro que trabalhava no alto põe uma perna para fora da janela e é vaiado, torcem para que ele caia. Ao final, o anunciado suicida nem aparece, e todos acabam se retirando tristes e decepcionados, exceto um dos estudantes, que ganhara a aposta de que não haveria suicídio. Para os espectadores, o espetáculo da morte alimenta a vida, produz emoções, salvar uma vida é perder um espetáculo que faz correr adrenalina. É a perversidade do ser humano, que precisa da desgraça alheia para alimentar uns instantes de vida fora da rotina. Amor Cansado A temática amorosa confirma a negatividade geral, como em "Amor": fim de tarde, cansaço, proximidade de fim de namoro. Ele não consegue prestar atenção nos sapatos que ela admira na vitrine. Ela se impacienta com o alheamento dele, diz que ele está ríspido, nervoso, uma pilha, e que não tem mais amor a ela. Após um grande silêncio, ela propõe terminar, ele não acha que é o caso, ela entra no ônibus, ele pergunta se é para telefonar, ela deixa por conta dele. O amor se apresenta como aquela rotina cansativa da cidade; precisa-se dele, mas ele não dá completa satisfação. E as pessoas continuam a chamar isso de amor: Ele ficou vendo o ônibus se distanciar pela avenida, o rosto abatido, pensando por que o amor era tão difícil. "Ousadia" é o que o marido tentou para quebrar o cansaço da relação, mas não conseguiu ir adiante. Marido e mulher deitados para dormir, ela quase dormindo, ele tentando conversar com ela cheio de evasivas, buscando concretizar uma proposta de alguma coisa ousada, provavelmente de natureza sexual, em suas vidas. Uma troca de casais, talvez? Ménage a trois? O máximo que ela consegue entender é que ele queria fazer amor, mas o dispensa, dizendo-se muito cansada. Não há bons sentimentos que resistam a um amor cansado, ou a um amor igual a todos os amores com todas as pessoas, em todos os casos sem esperanças. É a infalibilidade da banda podre. A rotina da vida de casado chega a momentos em que a pessoa quer tentar qualquer coisa para afastar a monotonia. As leis sociais são, entretanto, muito rígidas, e amarram as pessoas aos "bons costumes". Qualquer ousadia maior, qualquer ruptura com o sistema tem que ser muito bem considerado, pelo risco de execração social. Muitas vezes, é melhor deixar a ousadia permanecer no plano ideal do que concretizá-la. É mais cômodo e distinto. Tanto no fim da tarde, quanto à noite, ou "Ao Nascer do Dia", não há bons sentimentos que resistam a um amor cansado, ou a um amor igual a todos os amores com todas as pessoas, em todos os casos sem esperanças. É a infalibilidade da banda podre. E as pessoas têm de se conformar de que tudo seja assim. Não há a quem recorrer. O conto "Tarde da noite" repete o tema do casamento cansado numa situação insólita. O casal está na cama, e uma desconhecida telefona. Alguém querendo conversar discou um número a esmo, chega a falar em suicídio, e a conversa se prolonga. O marido cansado de ser casado se sente seduzido por aquela voz, e transforma o telefonema numa emocionante aventura extra-conjugal. Depois de um longo diálogo, a moça finalmente desliga, e o marido cansado continua sonhando com a possibilidade da aventura. Em "Esse Amor Besta de Inicial Maiúscula", há uma tentativa de amar diferente. Marcos, de namorada recente, encontra-se com um amigo de velhos tempos. Os dois têm uma concepção bem diferente de amor. O amigo considera-se mais realista, mais maduro. As mulheres são avançadas em assuntos sexuais, desacreditam o amor besta de inicial maiúscula, o que importa é o império do corpo, os sentidos. Mulher é sexo, carne, desejo, amor animal. O outro pensamento, representado por Marcos, é considerado pelo amigo como romântico no mau sentido, doença mental, coisa anacrônica e ingênua. Ao final um ônibus que ia passando esmaga uma coisa que Marcos trazia dentro de um embrulhinho: uma flor que ele ia levando para a namorada. O amigo de Marcos é o que tem voz mais atuante, é o mais articulado, o mais expansivo, é o que representa os que se impõem pela pose, os que se passam por conhecedores perfeitos do mundo, o mundo dos espertos, dos que sabem viver a vida. Marcos participa de um mundo mais humilde, que acredita no amor, mas que tem que conviver com o outro mundo e tolerá-lo. A Paz Destroçada A velhice é retomada em "Os sobreviventes". Neste conto predomina o diálogo entre dois homens em torno de cinqüenta anos, a fala dos dois é que conduz o desenrolar dos acontecimentos. Encontrando-se depois de mais de vinte anos num bar que freqüentavam quando jovens, vão tentando lembrar-se dos personagens que povoaram o tempo de sua juventude, mais precisamente o espaço daquele bar. Afonso é o mais melancólico, o mais saudoso dos bons tempos, e também o mais pessimista, o que lhe vale uma repreensão de Brandão. Afonso reclama que seu fígado já não lhe permite beber como na mocidade, e declara sua imensa e velha amizade ao colega, que retribui. Brandão destila sua amargura contra a juventude - barulhentos, afeminados -; Afonso agora é quem contemporiza. Num determinado momento, Brandão resolve alterar com uns rapazes que ele supunha estarem rindo dele na mesa ao lado. A provocação resulta numa briga dele com um dos moços, que lhe esmurra a cara. Embriagado, humilhado e com o nariz escorrendo, Brandão sai amparado pelo amigo Afonso. O conto aborda a temática do envelhecer, que impede as pessoas de quererem fazer o que faziam na juventude. Em confronto com aquela mesma juventude que lhes pertencera outrora, os mais velhos se tornam impotentes e se retiram, mesmo contra a vontade. Enfoque semelhante da velhice ocorre em "Bárbaro". Dois jovens em um quarto, um tenta ler e o outro quer por força contar a festa a que ele tinha ido. Numa linguagem cheia de gírias, palavrões e lugares-comuns, conta como ele e seus amigos se vingaram de um velho de cinqüenta e cinco anos que os havia convidado a uma festa "quadrada". A vingança foi arquitetada e perpetrada pelo Luquinha, que ridicularizou o homem, embebedou-o e quase fez com que ele se despisse diante de todos, à guisa de strip tease. Luquinha e os amigos representam a juventude entediada que não respeita os velhos, julgando-se superiores a eles. Aquilo para eles não fora nada de mais, uma brincadeirinha inocente, pois eles nem enrabaram o velho ou qualquer troço assim. o interlocutor do sujeito que conta o caso tenta voltar a concentrar-se em seu livro, e é considerado estranho pelo amigo Nem todos os jovens, entretanto, desprezam a velhice. Em "Luz sob a porta", Nelson está numa festa de jovens da classe média pseudo-intelectualizada, que discute Kafka, faz que lê Sartre e ouve os Beatles. Nelson precisa deixar a festa para visitar a mãe, que aniversaria. Por isso é motivo de chacotas dos amigos e amigas. Embora pressionado, ele insiste e vai, por volta de meia noite. Havia luz sob a porta, ela estava esperando-o. Na casa da mãe, fica sabendo que ela não recebeu nenhuma visita naquele dia. Dulce não foi, nem Rubens, nem Álvaro, nem ninguém. A mãe se emociona, e chora baixinho, de medo da velhice, da solidão. O conto é mais um pequeno drama da miséria humana. Como várias outras dessas pequenas narrativas, este não tem propriamente um final, mas algo como uma interrupção, ou suspensão. Não há nenhum suspiro de alívio nem grande emoção com o desfecho, apenas a triste constatação de que a velhice é assim mesmo. Mas agora não chore mais. "Preocupações de uma velhinha": ela tem medo da guerra, não entende bem o porquê de povos se matarem, e faz várias perguntas ao filho, embora saiba que os mais novos não gostam de ficar explicando coisas para gente velha; ela, entretanto, não resiste às perguntas. Cidinho, o netinho maior, ameaça puxar o gatilho da arma que fará a avó desaparecer, e ela roga que ele não o faça. Ele puxa o gatilho e nada acontece. O susto é grande, a velhinha começa a chorar. O tema da velhice aparece novamente cercado de conotações negativas. A velha é quem não compreende o mundo, não é compreendida pelas pessoas, possui uma ingenuidade indesejável, pior do que as crianças, mas cuja pureza não é admirada por ninguém. Até a criança, o neto Cidinho, portador de uma certa perversidade, é mais esperto que ela; era boba mesmo, era boba. Outras Frustrações Há alguns outros contos que abordam outros assuntos, que terminam sempre por convergir para o mesmo ponto de vista da frustração, da insatisfação, da despoetização. Em "Subir na vida", Vicente é professor, e o amigo Domício quer convencê-lo a largar a miséria do magistério e ser seu sócio em um empreendimento. Vicente resiste, embora, segundo Domício, a própria esposa do primeiro já houvesse reclamado. O professor é descrito como uma pessoa abnegada, de bom coração, corajoso. Domício, entretanto, acha - e diz ao amigo - que abnegação em excesso vira imbecilidade. Domício havia ido à casa de Vicente aquela tarde, e tinha estado com a esposa dele, a quem achou com cara de preocupada com a situação do marido. Após toda aquela pressão para que ele abandonasse a carreira de professor primário, ele vai à escola e, ao voltar a casa, declara à esposa que resolveu aceitar a oferta de parceria do amigo, e que ia pedir demissão da escola. Em seguida, vai ao bar telefonar para o amigo comunicando a decisão. Depois do telefonema, ele pede uma pinga, ele que nunca havia bebido. As poucas esperanças que a vida proporciona estão nas remotas possibilidades de transgressão, como a loucura, a poesia, o amor sincero, a pureza, a fantasia. Essas transgressões, entretanto, são tentativas efêmeras e impotentes diante da máquina de perversidade que movimenta as relações entre as pessoas. A abnegação e a paixão pelo ensino são vistos aqui como fraqueza; ajudar os outros, no entender da classe média emergente, não faz ninguém feliz. Se deixar o magistério é subir na vida, o personagem pretende deixá-lo, para dedicar-se a algo de novo. Fica também a sugestão de que embriagar-se é tão algo de novo como ingressar no consumismo; são fraquezas equivalentes. A loucura poética de "Françoise" é um momento de reação à sociedade: um observador sentado num banco de rodoviária vê uma loura bonitinha, ele jura que ela está esperando alguém. Ela acaba sentando-se no banco e puxa conversa com ele, diz que tem vontade de ir a Lindóia, por causa de uma música que ouvia quando criança, e gosta de ficar na rodoviária vendo as pessoas irem e virem, desculpa-se por estar incomodando. Ela lhe pede uma fumadinha, diz que os olhos dele são belos, depois fica falando sobre o sexo das frutas. O irmão da moça órfã é um poeta, o tio dono de bar reprova. ela fala sobre palavras bonitas e palavras feias. Palavras são como gente, tem de todo jeito: bonitas, feias gordas, magras, simpáticas, antipáticas, sérias, alegres, engraçadas, alegres, tristes; todo jeito. Ela compara os poetas a loucos, se diz uma solitária, uma esquisita. Logo tem um ataque de choro e volta repentinamente ao "normal". O tio aparece e interpela o observador. Ele não quer que a sobrinha converse com estranhos, principalmente porque ela é mentalmente perturbada, acha que o irmão que morreu está viajando. A menina e o tio vão embora e o observador levanta-se para ir embora, segurando a corrente que margeava o passeio. O tema explorado é a loucura, que é apresentada com uma aura de romantismo, de poesia. A menina Françoise é um ser que tenta superar a dor do acidente em que perdeu o irmão evadindo-se da realidade. "Felicidade" apresenta o contraste entre o que se convencionou ser feliz e o que as pessoas realmente desejam. O infeliz aniversário é uma camisa de força, de sorrisos forçados, piadas forçadas, discursos idem. O único momento feliz é proporcionado pela ida ao banheiro, que traz minutos de sossego. Esse é o mundo amargo apresentado nos contos de Vilela. As poucas esperanças que a vida proporciona estão nas remotas possibilidades de transgressão de um sistema opressor e fortemente estabelecido, como a loucura, a poesia, o amor sincero, a pureza, a fantasia. Essas transgressões, entretanto, são tentativas efêmeras e impotentes diante da máquina de perversidade que movimenta as relações entre as pessoas. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
É uma saborosa narrativa satirica em que a cupidez e o ridiculo do comportamento nacional andam lado a lado. Parodiando o enredo dos antigos relatos sobre a "corrida do ouro", nas Estados Unidos do final do século XIX. o Autor monta um cenário em que, além da crítica universal ao comportamento humano, ressalta a pobreza de imaginação e falta de criatividade do Homo Brasilicus. Um lugarejo do interior do Rio de Janeiro, Tubiacanga, recebe um morador estranho que intriga a todos com seu comportamento arredio. Após algum tempo é admirado por sua generosidade e doçura no trato com as pessoas. O novo morador, Raimundo Flamel, procura as pessoas mais importantes e respeitadas do lugar: o farmacéutico Bastos, o procurador Carvalhaes e o Coronel Bentes para que testemunhassem sua grande descoberta: é capaz de fabricar ouro, tendo ossos humanos como matéria prima. Em seguida desaparece misteriosamente. Após alguns dias, o cemitério começa a ser assaltado e as sepulturas profanadas. Monta-se uma guarda com moradores voluntários, que matam um dos profanadores (carvalhaes) e prendem o outro (coronel Bentes). Bentes revela o nome do terceiro: é o farmacêutico Bastos. Revelado o mistério, as pessoas vão para suas casas, cada uma delas com o pensamento voltado para um só objetivo:

A riqueza fàcil que resolveria, de imediato, os problemas e atenderia à fantasia de luxo e bem-estar econômico. Aos poucos, com o passar das horas, a cidade parece voltar à calma. Estão dormindo. Mas qual!... Sorrateiramente os habitantes dirigem-se ao cemitério e buscam reunir a maior quantidade possível de ossos para produzir ouro. Moças sonhadoras e orgulhosas de sua brejeirice, senhoras compenetradas, homens respeitáveis, funcionàrios públicos, comerciantes e humildes trabalhadores engalfinham-se e escarafuncham as sepulturas em busca da preciosa mercadoria. As máscaras são desvendadas, cada um com sua essência desprezivel, reprovável e nem sequer sonhada pelos demais. O tumulto termina em baderna, agressão e mortes. O único a escapar do ridiculo da situação é o bêbado contumaz de Tubiacanga que, enbragado com o álcool, não se dá conta ou não quer se envolver em algo tão mesquinho e rigosamente material. O farmacéutico foge sem revelar o segredo de se transformar ossos em ouro. O texto parodia o enredo dos antigos contos sobre a "corrida do ouro" no Oeste dos Estados Unidos, a final, transformar ossos humanos em ouro é uma piada macabra para o capitalismo selvagem Raimundo Flamel, o sábio e respeitado, põe à disposição de homens ganaciosos (Coronel Bentes e o famaceutico simbolizam o poder, Carvalhaes é o coletor de impostos) , um conhecimento temível: a riqueza fácil que é possivel e está ao alcance das mãos. Para alcançá-la, entretanto, é preciso abdicar-se de valores arraigados como família, tradiçào, respeito aos antepassados e imagem pública. Sátira às leis cientificas, tão exploradas pela literatura realista/naturalista, o texto ri da famosa Lei da Conservação da Matéria, dos nossos estudos de Química, no Segundo Grau: "Na natureza, nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma.". Ossos humanos são transformados em ouro, assim como pessoas aparentemente respeitáveis transmutam-se em seres abjetos, movidos pelo sentimento sórdido da cupidez (um dos sete pecados capitais). O autor antecipa a postura jocosa e irreverente do inicio do movimento modernista e realiza um texto atraente, bem urdido e com uma fabulação que prende o leitor do principio ao fim, numa linguagem corrente e de fácil assimilação. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Lendo esta peça, podemos sentir sua força poética e popular, o catolicismo que ela transmite, a simplicidade dos diálogos. A estrutura teatral e os tipos vivos fazem desta obra um exemplo raro na dramaturgia brasileira. Vemos os tipos de personagens nordestinos, e vemos também o tipo bem brasileiro neles, que é o de "dar conta do recado" com o famoso "jeitinho" brasileiro. Aqui vemos a forma de criação dos personagens segundo o autor: "Meus personagens ora são recriações de personagens populares e de folhetos de cordel, ora são familiares ou pessoas que conheci. No Auto da Compadecida, por exemplo, estão presentes o Palhaço e João Grilo. O Palhaço é inspirado no palhaço Gregório da minha infância em Taperoá. Já o João Grilo é o típico nordestino 'amarelo, que tenta sobreviver no sertão de forma imaginosa. Costumo dizer que a astúcia é a coragem do pobre. O nome dele é uma homenagem ao personagem de cordel e a um vendedor de jornal astucioso que eu conheci na década de 50 e que tinha este apelido."Vemos que o catolicismo está presente devido ao grande apego que os nordestinos tem a DEUS e o grande medo do diabo, vemos também que os personagens masculinos expressam o tipo "machões", mais na verdade alguns eles são muito medrosos, principalmente quando se envolve a figura de forças superiores.

O livro mostra a esperteza de muitos personagens também, é o caso de João Grilo, que aplica vários "golpes" ao decorrer da história, dando uma de personagem malandro e aproveitador dos idiotas e ingênuos. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Resenha sobre o conto Cidades Mortas de Monteiro Lobato



LOBATO, Monteiro. Cidades Mortas. In: ________________. Cidades Mortas. São Paulo: Globo, 2008. (falta o número da página)

José Bento Monteiro Lobato nasceu em 1882 em Taubaté no estado de São Paulo e faleceu em 1948 no mesmo local de nascimento, deixando uma extensa obra composta de contos, crônicas, ensaios, artigos e uma série de livros infantis como prova de sua participação ativa na vida cultural brasileira o que ocasionou sua popularidade entre os brasileiros, sobretudo entre os críticos de sua época.

O livro pode ser encontrado em livrarias e sebos nos valores estimados entre R$19,90 e R$35,00, em edições antigas ou repaginadas.

Foi através deste livro que o autor deu ênfase à sociedade interiorana, com seus aspectos culturais, costumes e formas de trabalho.

O FÍGADO INDISCRETO

Por José Bento Monteiro Lobato





Inácio era o rei dos acanhados. Pelas coisas mínimas, avermelhava, saía fora de sí e permanecia largo tempo idiotizado.



O progresso do seu namoro foi, como era natural, menos obra sua que da menina, e da família de ambos, tacitamente concertadas numa conspiração contra o celibato do futuro bacharel. Uma das manobras constou do convite que ele recebeu para jantar nos Lemos, em certo dia de aniversário familiar comemorado a peru.



Inácio barbeou-se, laçou a mais famosa gravata, floriu de orquídeas a botoeira, friccionou os cabelos com loção de violetas e lá foi, de roupa nova, lindo como se saíra da forma naquela hora. Levou consigo, entretanto, para seu mal, o acanhamento - e daí proveio a catástrofe...



Havia mais moças na sala, afora a eleita, e caras estranhas, vagamente suas conhecidas, que o olhavam com a benévola curiosidade a que faz jus a um possível futuro parente.



Inácio, de natural mal firme nas estribeiras, sentiu-se já de começo, um tanto desmontado com o papel de galã à força, que lhe atribuíam. Uma das moças, criaturinha de requintada malicia, muito "saída" e "semostradeira", interpelou-o sobre coisas do coração, idéias relativas ao casamento e também sobre a "noivinha" - tudo com meias palavras intencionais, sublinhadas de piscadelas para a direita e a esquerda.



Inácio avermelhou e tartamudeou palavras desconchavadas, enquanto o diabrete maliciosamente insistia: Quando os doces, Sr. Inácio?



Respostas mascadas, gaguejadas ineptas, foram o que saiu de dentro do moço, incapaz de réplicas jeitosas sempre que ouvia risos femininos em redor de si. Salvou-o a ida para a mesa.



Lá, enquanto engoliam a sopa, teve tempo de voltar a si e arrefecer as orelhas. Mas não demorou muito no equilíbrio. A culpa aqui foi da dona da casa. Serviu-lhe dona Luiza, um bife de fígado sem consulta prévia.



Esquisitice dos Lemos: comiam-se fígados naquela casa até nos dias mais solenes.



Esquisitice do Inácio: nasceu com a estranha idiossincrasia de não poder sequer ouvir falar em fígado - seu estômago, seu esôfago e talvez seu próprio fígado tinham pela víscera biliar uma figadal aversão. E não insistisse ele em contrariá-los: amotinavam-se repelindo indecorosamente o pedaço ingerido.



Nesse dia, mal dona Luiza o serviu, Inácio avermelhou de novo, e novamente saiu fora de si. Viu-se só, desamparado e inerme ante um problema de inadiável solução. Sentiu lá dentro o motim das vísceras; sentiu o estômago, encrespado de cólera, exigir, com império, respeito às suas antipatias. Inácio parlamentou com o órgão digestivo. Mostrou-lhe que mal momento era aquele para uma guerra intestina. Tentou acalma-lo a goles de Clarete, jurando eterna abstenção para o futuro, Pobre Inácio! A porejar suor nas asas do nariz, chamou a postos o heroísmo, evocou todos os martírios sofridos pelos cristãos na era romana e os padecidos na era cristã pelos heréticos; contou um, dois e três e glup! Engoliu meio fígado sem mastigar. Um gole precipitado de vinho rebateu o empache. E Inácio ficou a esperar, de olhos arregalados, a revolução intestina.



Em redor a alegria reinava. Riam-se, palestravam ruidosamente, longe de suspeitar o suplicio daquele mártir, posto a tormentos de uma nova espécie.



- Você já reparou, Miloca, na "ganja" da sinharinha? Disse uma das moças. - Está como quem viu o passarinho verde. E olhou de soslaio para Inácio.



O calouro, entretanto, não deu fé da tagarelice; surdo às vozes do mundo, todo se concentrava nas vozes viscerais. Além disso, a tortura não estava concluída; tinha ainda diante de si a segunda parte do fígado engulhento. Era mister ataca-la e concluir de vez a ingestão penosa. Inácio engatilhou-se de novo e - um, dois, três: glup! Lá rodou, esôfago abaixo, o resto da miserável glândula.



Maravilha! Por inexplicável milagre de polidez, o estômago não reagiu. Estava salvo Inácio. E como estava salvo, voltou lentamente a si, muito pálido, com o ar dos ressuscitados. Chegou a rir-se. Riu-se alvarmente, de gozo, como riria Hércules após o mais duro dos seus trabalhos. Seus ouvidos ouviam de novo rumores do mundo, seu cérebro voltava a funcionar normalmente, e seus olhos volveram outra vez as visões habituais.



Estava nessa doce beatitude, quando:



- Não sabia que o senhor gostava tanto de fígado, disse-lhe dona Luiz, vendo-lhe o prato vazio - repita a dose.



Fora de si outra vez, o pobre moço exclamou, tomado de pânico:



- Não! Não! Muito obrigado!...



- Ora, deixe-se de luxo! Tamanho homem com cerimônias em casa de amigos. Coma, coma, que não é vergonha gostar de fígado. Aqui está o Lemos, que se péla por uma isca.



- Iscas são comigo, confirmou o velho. Lá isso não nego, com elas ou sem elas, nunca as injeitei. Tens bom gosto rapaz. Serve-lhe, serve-lhe mais, Luiza.



E não houve salvação! Veio para o prato de Inácio um novo naco - este formidável, dose dupla.



Não se descreve o drama criado no seu organismo, e disfarçadamente ele aguardou o milagre.



E o milagre veio! Um criado estouvadão, que entrava com o peru, tropeçou no tapete e soltou a ave no colo de uma dama. Gritos, reboliço, tumulto. Num lampejo de gênio, Inácio aproveitou-se do incidente para agarrar o fígado e mete-lo no bolso.



Salvo! Nem dona Luiza nem os visinhos perceberam o truque - e o jantar chegou à sobremesa sem maior novidade.



Antes da dançata, lembrou alguém recitativos e a espevitadíssima Miloca veio ter com Inácio.



- A festa é sua, doutor. Nós queremos ouvi-lo. Dizem que recita admiravelmente. Vamos, um sonetinho de Bilac.Não sabe? Olhe o luxinho! Vamos, vamos! Quer decerto que a Sinharinha insista?... Ora, até que enfim! A douda de Albano? Conheço sim, é linda, embora um pouco fora de moda. Toque a Dalila, Sinharinha, bem piano... assim...



Inácio, vexadíssimo, vermelhíssimo, já em suores, foi para o pé do piano, onde a futura consorte preludiava a Dalila em surdina. E declamou a douda de Albano.



Pelo meio dessa hecatombe em verso, ali pela quarta ou quinta estrofe, uma baga de suor escorrida da testa parou-lhe na sobrancelha, comichando qual importuna mosca. Inácio lembra-se do lenço e saca-o fora. Mas com o lenço, vem o fígado, que faz... plaf! no chão. Uma tocida forte e um pé plantado sobre a infame víscera, manobras do instinto, salvam o lance.



Mas desde este momento a sala começou a observar um extraordinário fenômeno. Inácio, que tanto se fizera rogar, não queria agora sair do piano. E mal terminava um recitativo, logo iniciava outro, sem que ninguém lhe pedisse. É que lhe acorrentava àquele posto o implacável fígado!



E Inácio recitava. Recitou sem música: "O navio negreiro", "As duas ilhas", "Vozes da Africa", "O Tejo era sereno"



Sinharinha, desconfiada, abandonou o piano. Inácio, firme. Recitou "O corvo, de Edgar Poe, "Quisera amar-te", "Acorda donzela", citou poemetos, modinhas e quadras .



- Nun canto da sala Sinharinha estava, chora-não-chora. Todos se entreolhavam. Teria enlouquecido o moço?



Inácio firme. Completamente fora de si, e farto de recitativos de salão, recorreu aos Lusíadas. E declamou " As armas e os barões", "Estavas linda Inês", "Do reino às rédeas leve" - tudo!...



. E esgotado de Camões, ia lhe saindo um "Ponto" de filosofia de direito - A única coisa que lhe restava na memória, quando perdeu o equilíbrio, escorregou e caiu, deixando aos olhos arregalados da sala a infamérrima víscera exposta!



Adeus casamento, adeus terra, porque Inácio teve que se mudar dali, pois o malvado capitão Lemos espalhou por toda a cidade que Inácio era, sem dúvidas, um bom rapaz, mas com um grave defeito: Quando gostava de um prato, não se contentava em comer e repetir, ainda levava escondido no bolso o que podia!



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2. Cidades Mortas, de Monteiro Lobato

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4. Versão para impressão

5. Análise da obra

Publicado em 1919, pela Revista do Brasil, este segundo livro de Lobato levava o subtítulo Contos e Impressões e reunia trabalhos bastante antigos, alguns do tempo de estudante de Lobato. Em edições subseqüentes, novo textos acrescentaram-se à obra. O título do livro é tomado de um texto de 1906. Cidades Mortas está entre os primeiros livros corriam o país.

É no "ambiente marasmático" das pequenas cidades do Vale do Paraíba, em sua porção paulista, que o autor vai colher o material de seus escritos, alguns dos quais não podem ser considerados, propriamente, como contos. Ficam, nas palavras de Nelson Werneck Sodré, "numa espécie de limbo" - são "esboços, cenários, rascunhos de contos" que, em Cidades Mortas, discorrem sobre o cotidiano daquelas cidades, cuja decadência econômica impunha-se desde as últimas décadas do século XIX com a derrocada da produção cafeeira, deslocada para o Oeste paulista (Sodré, 1964: 416). Ainda que alguns textos de Lobato não possam ser considerados como contos, para nós são sinais, pistas e emblemas que sobrevivem para nos evocar e reconstruir a memória.

Em Cidades Mortas a língua ferina de Monteiro Lobato ataca o marasmo político-econômico-literário de seu tempo. Cada conto descreve personagens brasileiros típicos, situações engraçadas e comportamentos diversos.

Nos contos Cidades Mortas e Café! Café!, assim como parcialmente em outros, critica a queda do café e seus efeitos na população que sobrevivia dele. Em outras histórias insere a críticas a literatura tediosa e fraca de seu tempo (citando Alberto de Oliveira e Bernardo Guimarães por nome), ao desprezo pela honestidade, ao absurdo e ridículo das cidades do interior paulista (principalmente a fictícia Itaoca, mas cidades cujo nome começa com "Ita" aparecem em vários contos para mostrar cidades pequenas com habitantes com egos inflados), à crueldade e estupidez humanas, ao exagero de nacionalismo com a participação na Primeira Guerra (no conto O espião alemão), ao abuso feito por aproveitadores com os que trabalharam duro e várias pequenas histórias onde todos esses temas são tocados. Lobato descreve Oblivion e Itaoca como cidades onde o tempo parou. Transforma-as. No decorrer dos fatos, o autor mescla crítica e sagacidade, elegância e realidade, harmonia e sutileza.

Linguagem

O estilo de Lobato é simples direto, objetivo, avesso ao rebuscamento da linguagem. Estilo ou, como ele preferia, seu temperamento, já que "estilo é a última coisa que nasce num literato - é o dente do sizo. Quando já está quarentão e já cristalizou uma filosofia própria, quando possui uma luneta só dele e para ele fabricada sob medida, quando já não é suscetível de influenciação por mais ninguém, quando alcança a perfeita maturidade da inteligência, então, sim, aparece o estilo" (Lobato, 1951: 101).

Nota-se na obra a liberdade de vocabulário, e emprego de expressões que caracterizam aquelas cidades como “velha avó entrevada”, que “foi rica um dia e hoje é quieta”. São “histórias sobre gente medíocre, sonolenta, vivendo um sossego que é como o frio nas regiões árticas: uma permanente.”

Em vários contos emprega a onomatopéia.

Temática

A obra trata de assuntos relacionados à linguagem, religião, o comportamento na sociedade, criticando as futilidades de um encontro em casas de família.

Em Era no Paraíso, satiriza a formação do universo e a origem do homem. Critica a preguiça intelectual dos fazendeiros da época em Apólogo. Trata de assuntos polêmicos e questiona valores e moralidade em Um homem de consciência e O plágio. Crítica ao Romantismo. Trabalha constantemente com o humor como em O fígado indiscreto. Crítica ao Ministério da Agricultura. Em Os senhores do café critica a hipocrisia das classes privilegiadas. Manifesta com muito humor o espírito anti-germânico predominante no período da Primeira-Guerra em O espião alemão. Em Café! Café! critica a monocultura e reproduz o espírito do homem obcecado pela mesma. Crítica a desonestidade do homem, ou seja, os que buscam levar vantagem em tudo em Um homem honesto.

Resgata também os momentos de sua própria infância.

Espaço

Numa espécie de crônica ou ensaio, num tom entre irônico e saudosista, Lobato delineia o espaço de sua obra: o norte paulista do vale do Paraíba, "onde tudo foi e nada é: Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. "(...) cidades moribundas arrastam um viver decrépito. Gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes". É, portanto num cenário de decadência representado por ruas ermas, casarões em ruínas e armazéns desertos, que o livro introduz o leitor, fazendo-o acompanhar de um ponto de vista irônico figuras igualmente decadentes de homens e mulheres.

Itaoca é uma cidadezinha qualquer do interior paulista onde o escritor ambienta suas histórias; nela, aparecem casas de tapera, ruas mal iluminadas, políticos corruptos, patriotas, ignorância, miséria, e representa todas as cidadezinhas que Lobato viu se afundarem no vale do Paraíba: “Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrépito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas dantes”.

Estrutura da obra

Cidades Mortas contém histórias, algumas antigas, ainda do tempo em que Lobato era estudante do Largo do São Francisco. São elas: Cidades Mortas, A vida em Oblivion, Os Perturbadores do Silêncio, Vidinha Ociosa, Cavalinhos, Noite de São João, O Pito do Reverendo, Pedro Pichorra, Cabelos Compridos, O Resto de Onça, Por Que Lopes se casou, Júri na Roça, Gens Ennyyeux, O Fígado Indiscreto, O Plágio, O Romance do Chopin, O Luzeiro Agrícola, A Cruz de Ouro, De Como Quebrei a Cabeça à Mulher do Melo, O Espião Alemão, Café! Café!, Toque Outra, Um Homem de Consciência, Anta que Berra, O Avô de Crispim, Era no Paraíso, Um Homem Honesto, O Rapto, A Nuvem de Gafanhotos, Tragédia de um Capão de Pintos.

Entre todas, destacam-se fundamentalmente algumas: Cidades Mortas, Pedro Pichorra, Cabelos Compridos e a impagável Um homem de consciência. Cabelos Compridos e O Espião Alemão são os dois contos mais conhecidos do livro.

Personagens

O retrato de seus personagens é sempre de carteira de identidade: fiel, objetivo, autêntico. São personagens não apresentam profundidade psicológica.

Os contos de Cidades Mortas entremeiam-se com digressões, como a aguda crítica aos ficcionistas românticos (Alencar, Macedo, Bernardo Guimarães), que transcrevemos:

"No concerto de nossos romancistas, onde Alencar é o Piano querido das moças e Macedo a Sensaboria relambória dum flautim piegas, Bernardo é a sanfona. Lê-lo é ir para o mato, para a roça- mas uma roça adjetivada por menina de caudalosos, as matas virentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonoros, as rolinhas meigas. Bernardo descreve a natureza como qualificativos surrados do mau contador. Não existe nele o vinco enérgico de impressão pessoal. Vinte vergéis que descreva são vinte perfeitas invariáveis amenidades. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas morenas cor de jambo. Bernardo falsifica o nosso mato. Onde toda gente vê carrapatos, pernilongos espinhos, Bernardo aponta doçuras insetos maviosos, flores olentes. Bernardo mente."


6. CIDADES MORTAS
Monteiro Lobato

7. *Profa. Maria Jerusa Rodrigues Marinho

8. 1. O AUTOR – DADOS BIOGRÁFICOS
José Renato Monteiro Lobato ( o segundo nome, depois, foi substituído por Bento), nasceu em Taubaté, em 1882. Cursa Direito por imposição da família. Participa de grupos e jornais literários e depois de formado é nomeado promotor público. Torna-se fazendeiro ao herdar a fazenda do avô, a qual é vendida para que ele crie a Editora Monteiro Lobato. Embora tenha dinamizado o mercado livreiro, sua editora vai à falência, o que o leva à imprensa do Rio de Janeiro, onde passa a ser colaborador. Mora em Nova York, e na Argentina, que acolhe muito bem suas obras, principalmente as infantis. Participa de inúmeras campanhas públicas e até foi preso por suas idéias revolucionárias. Morre vítima de espasmo pulmonar a 04 de outubro de 1948.

9. 2. OBRAS
Literatura em Geral – Urupês, Cidades Mortas, Idéias de Jeca Tatu, A Onda Verde, O Choque das Raças ou O Presidente Negro, O Escândalo do Petróleo, entre outras. – Literatura Infantil – Narizinho Arrebitado, O Saci, Fábulas de Narizinho, O Marquês de Rabicó, A Caçada da Onça, Aventuras do Príncipe, História do Mundo, As Caçadas de Pedrinho, Emília no País da Gramática, História das Invenções, Geografia da Dona Benta, Dom Quixote das Crianças, entre dezenas de outras obras.

10. 3. CARACTERÍSTICAS GERAIS
ü Escritor combativo e arrojado.
ü Autor de contos, ensaio e crítica polêmica.
ü Primeiro escritor a elaborar um projeto editorial para crianças.
ü Defensor de uma língua sem a “gramatiquice” – o velório da língua.
ü Defensor ardoso das riquezas brasileiras; famoso é o seu grito de guerra: O Petróleo é Nosso!
ü Um aristocrata (menino de tempo do império) republicano.

11. ESPAÇO
Itaoca é uma cidadezinha qualquer do interior paulista onde o escritor ambienta suas histórias; nela, aparecem casas de tapera, ruas mal iluminadas, políticos corruptos, patriotas, ignorância, miséria. Representa todas as cidadezinhas que Lobato viu se afundarem no vale do Paraíba.

12. ESTRUTURA DA OBRA
Cidades Mortas, A vida em Oblivion, Os Perturbadores do Silêncio, Vidinha Ociosa, Cavalinhos, Noite de São João, O Pito do Reverendo, Pedro Pichorra, Cabelos Compridos, O Resto de Onça, Por Que Lopes se casou, Júri na Roça, Gens Ennyyeux, o Fígado Indiscreto, O Plágio, O Romance do Chopin, O Luzeiro Agrícola, A Cruz de Ouro, De Como Quebrei a Cabeça à Mulher do Melo, O Espião Alemão, Café Café, Toque Outra, Um Homem de Consciência, Anta que Berra, O Avô de Crispim, Era no Paraíso, Um Homem Honesto, O Rapto, A Nuvem de Gafanhotos, Tragédia de um Capão de Pintos.



Eu agradeço desde já se puder fazer esta resenha pra mim, pois preciso com urgência!



Segui aí a sequência de como eu preciso:

1º apresentação de dados da obra.

2º dados do autor ( biobibliográficos ).

3º discorrer sobre a obra.

4º conclusão

Exemplo: o conto é distribuído em 5 páginas, da 1º linha até a 5, fala disso, disso e disso.

O que é que o texto quer dizer?

Qual é a minha visão de acordo com o texto?

Na conclusão : o conto é recomendado p/ leitura por causa disso, disso e disso.

Contextualizar a obra o que há de marca naquela obra que justifique na obra.
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Raimundo, porteiro do edifício Deauville, abandona a portaria de madrugada. Enquanto isso, acontece a morte de Paulo Gomes Aguiar. O comissário Alberto Mattos encontrou um anel de ouro com a inicial "F" gravada no banheiro da empresário morto. O chefe da guarda pessoal de Getúlio programava um atentado contra Carlos Lacerda. Paulo Gomes Aguiar era casado com Luciana e esta era amante de Pedro Lomagno. Pedro era casado com Alice. Inicialmente, Mattos acha que o anel era de Gregório Fortunato, depois descobriram que era de um negro por causa dos pelos encontrados no sabonete. Mattos conversa com raimundo e este diz que um negro foi ao apartamento de Luciana. Luciana e Pedro dizem que foi um macumbeiro. Pedro manda Chicão matar Raimundo. Pedro vai com mattos ver o macumbeiro, mas ele nãoe ra grande, forte e com os dedos grossos como o anel indicava. Gregório era o mandante da Rua Tonelero, onde Climério, Alcino e o taxista Nelson estavam envolvidos. Alcino, ao invés de matar Lacerda, acabou matando o Major Vaz. O taxista foi pego, pois sua placa foi identificada e contou tudo. Climério foge e vai para Tinguá, mas é denunciado e preso. A morte de vaz tem uma percussão muito grande. Os aliados de Lacerda estavam fazendo o povo acreditar que foi Getúlio Vargas que mandou matar o Major Vaz. Os aliados queriam de Getúlio renunciasse. Todos os policiaisrecebiam dinheiro dos banqueiros do bicho para que os bicheiros não fssem presos. Mattos e Pádua eram os ínicos que não aceitam o suborno.

Ilídio tenta comprar Mattos e este lhe dá um pontapé. Então Ilídio quis matar Mattos, contratando Turco Velho. Os outros bicheiros não deixam que isso ocorra. Pádua descobre que foi Turco Velho que quis matar Mattos e o elimina. Luiz Magalhães Sustentava salete e esta era namorada de Mattos. Gregório é preso e diz que foi Lutero Vargas o mandante do crime da rua Tonelero. Pedro Lomagno foi quem planejou a morte de Paulo Gomes Aguiar. Paulo tinha que morrer ou acabaria levando a Cemtex à falência. Contratou Chicão para matá-lo. Alice briga com Pedro e passa a moara na casa de Mattos. Como era meio desiquilibrada, tenta incendiar a casa de Mattos. Getúlio Vargas estava sendo pressionada a renunciar, enTão pediu licença do governo. Na mesma noite suicidou-se. Houve revoltas do povo, indignados com a morte de Getúlio. Mattos prende todos policiais numa sala e solta todos os presos. Teodoro conversa com Rosalvo. Paulo Aguiar estava metido em negociatas com o senador Freitas, licenças da importação foram conseguidas com fraudes com Cexim. Sabia demais e foi morto. ele achavam que mattos desconfiava que foi o senador Vitor Freitas que mandou matar paulo, para esconder sua participação na roubalheira. Teodoro contou para Clemente sobre as suspeitas de Mattos. Clemente contrata Genésio para matar Mattos. A cada dia que passa, Mattos sofre mais com sua úlcera duedenal. Salete vai morar com ele em sua casa. Chicão vaia a casa de Mattos e recebe se anel de ouro devolta. Quando Mattos vai ligar para a polícia, Chicão mata Mattos e Salete, a mando de Pedro Lomagno. Pois Mattos havia descoberto que o assassino era Chicão e o perseguiria para sempre caso vivesse. Pouco depois, Genésio chega na casa de Mattos e encontra os corpos estendidos no chão. Genésio diz a Clemente e Teodoro que havia matado Mattos e Salete. Com isso recebe seu dinheiro. Pádua suspeita que foi Ilídio que mandou matar Mattos, então o mata. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
LERNER, D. e SADOVSKY, P. O sistema de numeração:um problema didático

11. LERNER, D. e SADOVSKY, P. O sistema de numeração:um problema didático. In: PARRA, Cecília; SAIZ Irmã; [et al] (Org.). Didática da Matemática: Reflexões Psicopedagógicas. Tradução por Juan Acuña Llorens. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. p. 73-155.
Como e porque se iniciou a pesquisa sobre a aquisição da noção de número.
A relação entre os grupamentos e a escrita numérica tem sido um problema para as crianças nas experiências escolares o que tem levado pesquisadores e educadores realizarem esforços, com experimentos de recursos didáticos diversos, para tornar real a noção de agrupamentos numéricos às crianças nas series iniciais. A gravidade do problema foi detectada através de entrevistas com crianças que não eram trabalhadas nos programas que usavam estes recursos.
Elas utilizavam métodos convencionais nas operações de adição e subtração (vai um) sem entenderem os conceitos de unidades, dezenas e centenas. Mesmo naquelas que pareciam acertar, não demonstravam entender os algarismos convencionais na organização de nosso sistema de numeração. (Lerner,D 1992).
As dificuldades foram detectadas e analisadas em crianças de vários países. Chamou a atenção dos pesquisadores o fato das crianças não entenderem os princípios do sistema numérico. Foi verificado que as práticas pedagógicas não consideravam os aspectos sociais e históricos vividos pelas crianças, ou seja, o dia-dia que traziam para escola não era importante quando os alunos chegavam à escola, e mesmo no decorrer do ano letivo; a preocupação estava centrada apenas na fixação da representação gráfica.
Era necessário compreender o caminho mental que essas crianças percorriam para adquirirem este conhecimento. Para tornar claro esse fenômeno, iniciaram pela elaboração de situações didáticas. Assim foi necessário testá-las em aula para descobrir os aspectos relevantes para as crianças no sistema de numeração, tais como: as ideias elaboradas sobre os números, formulação de problemas e conflitos existentes.Foi por meio de entrevistas com as crianças de 5 a 8 anos que se es-clareceu o caminho que percorrem, de forma significativa, na construção de conceito de número. Através das ideias, justificações e conflitos de-monstrados nas respostas foi possível traçar novas linhas de trabalho didático.

- História dos conhecimentos que as crianças elaboram a respeito da numeração escrita
A pergunta levantada pelos pesqui¬sadores é: como as crianças compre-endem e interpretam os conhecimen¬tos vivenciados no seu cotidiano no meio social-familiar de utilização da numeração escrita? A hipótese era que as crianças elaboram critérios própri¬os para produzir representações numéricas e que a construção da notação convencional não segue a ordem da sequência numérica.
Para buscar a resposta às hipóteses levantadas, situações experimentais, através de jogos foram projetadas e relacionadas à comparação de nú-meros. Através das respostas das crianças entrevistadas chegou-se a su-posição que elas elaboram uma hipó¬tese de "quanto maior a quantidade de algarismos de um número, maior é o número", ou "primeiro número é quem manda".
As crianças usam como critério de comparação de números maiores ou menores elaborando a partir da interação com a numeração escrita, quando ainda não conhecem a denominação oral dos números que comparam. Ao generalizarem estes critérios, outras crianças mostraram dificuldades com afirmações contra¬ditórias quando afirmavam que "o numeral 112 é maior que 89, por que tem mais números, mas logo muda apontando para o 89 como maior por que - 8 mais 9 é 17 -, então é mais."
Assim concluiu-se que a elaboração de critério de comparação é importante para a compreensão da numeração escrita.(p. 81).
posição dos algarismos como critério de comparação ou "o primeiro é quem manda"
Um dos argumentos usados pelas crianças respondentes é que ao comparar os números com a mes¬ma quantidade de algarismos, diziam que, a posição dos algarismos é determinada pela função no sistema de números (por exemplo: que 31 é maior que 13 por que o 3 vem primeiro). Assim elas descobrem que além da quantidade de algarismos, a magnitude do número é outra característica específica dos sistemas posicionais. Tais respostas não são precedidas de conhecimentos das razões que originaram as variações.
Para as crianças da 1a série que ainda não conhecem as dezenas, mas conseguem ver a magnitude do nú¬mero, fazem a seguinte comparação: o 31 é maior porque o 3 de 31 é maior que o 2 do 25.
Assim "os dados sugerem que as crianças se apropriam primeiro da es-crita convencional da potência de base."Papel da numeração falada
Os conceitos elaborados pelas crianças a respeito dos números são baseados na numeração falada e em seu conhecimento descrita conven-cional dos "nós".
"Para produzir os números cuja escrita convencional ainda não haviam adquirido, as crianças misturavam os símbolos que conheciam colocan-do-os de maneira tal, que se correspondiam com a ordenação dos termos na numeração falada" (p.92). Sendo assim, ao fazerem comparações de sua escrita, o fazem como resultado de uma correspondência com a numeração falada, e por ser esta não posicional.
"Na numeração falada a justaposição de palavras supõe sempre uma operação aritmética de soma ou de multiplicação - elas escrevem um número e pensam no valor total desse número. Como exemplo: duzentos e cinquenta e quatro -escrevem somando 200+ 50+ 4 ou 200504 e quatro mil escrevem 41000- dando a ideia de multiplicação".
A numeração escrita regular é mais fechada que a numeração falada. É regular porque a soma e a multiplicação, são utilizadas sempre pela multi-plicação de cada algarismo pela potência da base correspondente, e se somam aos produtos que resultam dessas multiplicações." É fechada porque não existe nenhum vestígio das operações aritméticas racionais envolvidas, sendo deduzidas a partir da posição que ocupam os algarismos.
Ex: 4815 = 4x 103 + 8x102+ 1x 101 + 5x10.
Através destes insipientes resulta¬dos acima citados, é possível dedu¬zir "uma possível progressão nas correspondências entre o nome e a no-tação do número até a compreensão das relações aditivas e multiplicativas envolvidas na numeração falada".
As crianças que realizam a escrita não-convencional o fazem a seme-lhança da numeração falada, pois demonstraram em suas escritas numé-ricas que as diferentes modalidades de produção coexistem para os números posicionados em diferentes intervalos da sequência ao escreverem qualquer número convencionalmente com dois ou três algarismo em correspondência com a forma oral. Exemplo: podem escrever cento e trinta e cinco em forma convencional (135), mas representam mil e vinte e cinco da seguinte forma: 100025. Mesmo aquelas crianças que escrevem convencionalmente os números entre cem e duzentos, podem não generalizar esta modalidade a outras centenas. Por exemplo, escrevem 80094 (oitocentos e noventa e quatro).
Assim é que a relação numeração fala/numeração escrita não é unidirecional. Observa-se também que a numeração falada intervém na conceitualização da escrita numérica.
O que parece é que algumas crianças demonstram que utilizam um critério para elaborar a numeração escrita. Assim acham que mil e cem e cem mil sejam a mesma coisa, pois elaboram o elemento símbolo, qualificação e não quantificação. Desta forma as crianças apropriam-se pro-gressivamente da escrita convencional dos números a partir da vinculação com a numeração falada. Mas pergunta-se, como fazem isto? Elas supõem que a numeração escrita se vincula estritamente à numeração falada, e sabem também que em nosso sistema de numeração a quantidade de algarismos está relacionada à magnitude do número representado.
Do conflito à notação convencional
Há momentos em que a criança manipula a contradição entre suas conceitualizações sem conflito. Às vezes centram-se exclusivamente na quantidade de algarismos das suas escritas que produziram, e parece ignorar qualquer outra consideração a respeito do valor dos números re-presentados. Assim também parece claro que não é suficiente conhecer o valor dos números para tomar consciência do conflito entre quantidade de número e a numeração falada.
Em outros momentos a criança parece alternar os sistemas de conceitualizações dos números. Em outro momento, o conflito aparece, pois ao vincular a criança a numeração falada na produção da escrita, mostra-se insatisfeita achando que é muito algarismo.
Exemplo: Ao pedir-se para escreverem seis mil trezentos e quarenta e cinco, fazem 600030045. Ao mesmo tempo escrevem 63045. Isto mostra que nesse momento encontra-se em conflito pela aproximação da escrita convencional e a falada.
O conflito é percebido após compararem e corrigirem a escrita numérica feita por eles mostrando uma solução mais ou menos satisfatória.
É percebido que pouco a pouco a criança vai tomando consciência das contradições procurando superar o conflito, mas sem saber como; pouco a pouco através da re-significação da relação entre a escrita e a numera-ção falada elaboram ferramentas para superar o conflito. Essa parece ser uma importante etapa para progredir na escrita numérica convencional. Portanto, as crianças produzem e interpretam escritas convencionais an-tes de poder justificá-las através da "lei de agrupamento recursivo".]
Sendo assim torna-se importante no ensino da matemática considerar a natureza do objeto de conhecimento como valorizar as conceitualizações das crianças à luz das propriedades desse objeto. - Relações entre o que as Crianças sabem e a organização posicional do sistema de numeração.Devido a convivência com a linguagem numérica não percebemos a distinção entre a propriedade dos números e a propriedade da notação numérica, ou seja, das propriedades do sistema que usamos para representá-lo.As propriedades dos números são universais, enquanto que as leis que regem os diferentes sistemas de numeração não o são. Por exemplo: oito é menor que dez é um conceito universal, pois em qualquer lugar, tempo ou cultura será assim. O que muda é a justificativa para esta afirmação, pois varia de acordo com os sistemas qualitativos e quantitativos dos números ou posicionai dos algarismos.
A posicionalidade é responsável pela relação quantidade de algarismos e valor do números.
A criança começa pela detecção daquilo que é observável no contexto da interação social e a partir deste ponto os números são baseados na numera¬ção falada e em seu conhecimento da escrita convencional ("dos nós").
IV - Questionamento do enfoque usualmente adotado para o sistema de numeraçãoO ensino da notação numérica pode ter modalidade diversa como: trabalhar passo a passo através da administração de conhecimento de forma "cômoda quotas anuais" - metas definidas por série - ou através do saber socialmente estabelecido.
Pergunta-se: é compatível trabalhar com a graduação do conhecimento? Ou seja, traçar um caminho de início e fim, determinado pelo saber oficial? E qual é o saber oficial? E o que se estar administrando de conhecimento numérico nas aulas?
O processo passo a passo e aperfeiçoadamente, não parece compatível com a natureza da criança, pois elas pensam em milhões e milhares, elaboram critérios de comparação fun¬damentados em categorias. Podem conhecer números grandes e não saber lidar com os números menores.
Os procedimentos que as crianças utilizam para resolver as operações têm vantagens que não podem ser depreciadas se comparadas com procedimentos usuais da escola.
No esforço para alcançar a compreensão das crianças no sistema de numeração e não a simples memorização é que muitos educadores tem utilizado diferentes recursos para materializar o grupamento numérico. Alguns utilizam sistemas de códigos para traduzir símbolos dando a cada grupamento uma figura diferente como, triângulo para potências de 10, quadradinho para potências de 100, ou a semelhança do sistema egípcio para trabalhar a posicionalidade de um número ou empregam o ábaco como estratégia para as noções de agrupar e reagrupar a fim de levar a compreensão da posicionalidade.No entanto todos estes pressupostos não são viáveis por razões próprias da natureza da criança, como também considerando o ambiente social, no qual convivem com os números.
As crianças buscam desde cedo a notação numérica. Querem saber o mais cedo possível, como funciona, para que serve, como e quando se usa. Inicialmente, não se interessam pela compreensão dos mesmos e sim pela sua utilidade. Dessa forma, a compreensão passa a ser o ponto de chegada e não de partida.
Outro problema com as aulas de aritmética é que os professores ofe-recem respostas para aquilo que as crianças não perguntam e ainda ig-noram as suas perguntas e respostas.
V - Mostrando a vida numérica da aula
O ensino do sistema de numeração como objeto de estudo passa por diversas etapas, definições e redefinições, para então, ser devidamente compreendida.
Usar a numeração escrita envolve produção e interpretação das escritas numéricas, estabelecimento de comparações como apoio para resolver ou representar operações.
Inicialmente o aprendiz, ao utilizar a numeração escrita encontra pro-blemas que podem favorecer a me¬lhor compreensão do sistema, pois através da busca de soluções torna possível estabelecer novas relações; leva à reflexões, argumentações, a validação dos conhecimentos adqui-ridos, e ao inicio da compreensão das regularidades do sistema.
O sistema de numeração na aula.
A seguir serão discutidas algumas ideias sobre os princípios que orien¬tam o trabalho didático através da reflexão da regularidade no uso da numeração escrita.
As regularidades aparecem como justificação das respostas e dos procedimentos utilizados pelas crianças ou como descobertas, necessários para tornar possível a generalização, ou a elaboração de procedimentos mais econômicos. P.117
Assim, a análise das regularidades da numeração escrita é uma fonte de insubstituível no progresso da compreensão das leis do sistema.
uso da numeração escrita como ponto de partida para a reflexão deve, desde o inicio ser trabalhada com os diferentes intervalos da sequência numérica, através de trabalho com problemas, com a numeração escrita desafiadora para a condução de resoluções, de forma que cada escrita se construa em função das relações significativas que mantêm com as outras. Os desafios e argumentações levam as crianças serem capazes de resolver situações-problema que ainda não foram trabalhadas e à sociali-zação do conhecimento do grupo.
As experiências nas aulas são de caráter provisório, às vezes complexas, mas são inevitáveis, porque no trabalho didático é obrigado a considerar a natureza do sistema de numeração como processo de construção do conhecimento.
No trabalho de ensinar e aprender um sistema de representação será necessário criar situações que permitam mostrar a organização do siste-ma, como ele funciona e quais suas propriedades, pois o sistema de nu-meração é carregado de significados numéricos como, os números, a re-lação de ordem e as operações aritméticas. Portanto comparar e operar, ordenar, produzir e interpretar, são os eixos principais para a organização das situações didáticas propostas.
Situações didáticas vinculadas à relação de ordem
O entendimento do sistema decimal posicionai está diretamente ligada a relação de ordem. Por isto as atividades devem estar centradas na comparação, vinculada à ordenação do sistema. Alguns exemplos podem melhorar o entendimento dessas relações, são elas: simulação de uma loja para vender balas, em pacotes de diferentes quantidades. Ao sugerir que as crianças decidam qual o preço de cada tipo de pacote, estarão fazendo comparações em conjunto com os colegas, notações, com¬param as divergências, argumentam e discutem as ideias, orientadas por uma lógica. Assim os critérios de comparação podem não ser colocados imediatamente em ação por todas as crianças, pois algumas irão realizar com maior ou menor esforço o ordenamento, outras ordenam parcialmente alguns números, e os demais se limitam a copiar a que os outros colegas fizeram. Todos nesta atividade se interagem. Os primeiros têm a oportunidade de fundamentar sua produção e conceitualizar os re-cursos que já utilizavam. As crianças que ordenam parcialmente aprendem ao longo da situação, levantam perguntas e confirmam as ideias que não tinham conseguido associar. As crianças que não exteriorizaram nenhuma resposta, também se indagam e podem obter respostas que não tinham encontrado. As crianças que se limitam copiar, é importante que o professor as estimule com intervenções orientadas para desenvolver nelas o trabalho autônomo. Também devem ser estimuladas a perguntarem a si mesmas antes de ir aos outros, recorrer ao que sabem e descobrir seus próprios conhecimentos, e que são capazes de resolver os problemas. Enfim, deve ser incentivada a autonomia.
Uma segunda experiência é aquela que pode usar materiais com nume-ração sequencial com fita métrica, régua, paginação de livros, numeração das casas de uma rua. Todas estas atividades ajudam as crianças buscarem por si mesmas as informações que precisam.
No trabalho conjunto todas as crianças tem oportunidade de aprender, mesmo que em ritmos diferentes, aprendem com o trabalho cooperativo na construção do conhecimento.
Outra proposta de atividade pode ser direcionada a interpretação da escrita numérica no contexto de uso social do cotidiano de cada uma. Pode ser realizado através de: comparação de suas idades, de preços, datas, medidas e outras. Experiências como: formar lista de preços, fazer notas fiscais, inventariar mercadorias, etc. Através de experiências semelhantes, é possível levar as crianças considerar a relevância da relação de ordem numérica. As atividades desenvolvidas produzem efeito no sentido de modificar a escrita, ou da interpretação originalmente realizada. A longe prazo, devem ser capazes de montar e utilizar estratégias de relação de ordem para resolver problemas de produção e interpretação.
Se nas atividades a professora detecta que determinado número tem diferentes notações na turma, deve trabalhar com argumentações até que cheguem a interpretação correta.
Percebe-se através dos argumentos utilizados pelas crianças a busca pela relação de ordem, mesmo naquelas que utilizaram anotações não convencionais, a ponto de transformarem a partir de sucessivas discussões e objeções que elas fazem a si próprias.
A relação numeração falada/numeração escrita é um caminho que as crianças transitam em duas direções: da sequência oral como recurso para compreensão da escrita numérica e como sequência da escrita como recurso para reconstruir o nome do número.
Para isso é importante desenvolver atividades que favoreçam a aplicação de regularidade podendo ser observado nas situações de comparação, de produção ou interpretação.
Mas pergunta-se: quais as regularidades necessárias trabalhar na contagem dos números? Estabelecer as regularidades tem o objetivo de tornar possível a formulação de problemas dirigidos às crianças, mas também para que adquiriram ferramentas para auto-criticar as escritas baseadas na correspondência com a numeração falada e na contagem dos números. Exemplo: as dezenas com dois algarismos, as centenas com três algarismos. Depois do nove vem o zero e passa-se para o número seguinteComo intervir para que as crianças avancem na manipulação da se-quência oral? Pode-se sugerir as crianças que procurem um material que tenha sequência correspondente e descubra-se por si mesma a regula-ridade. Buscar nos números de um a cem quais os que terminam em nove, identificar e nomear os números seguintes do nove. Esta é uma atividade de interpretação e tão importante quanto a produção na contagem dos números. Exemplo: Como descobrir as semelhanças e diferenças entre os números de um a quarenta. Localizar em todos os números de dois dígitos que terminam em nove e anotar qual é o seguinte de cada um deles. Esta atividade pode ser encontrada em materiais como calendário, régua e fita métrica.Um critério importante para trabalhar é estabelecer primeiro as regularidades para um determinado intervalo. A partir daí passar a sua generalização através do uso de materiais que contenham números mai-ores. Só então o indivíduo começa a questionar o seu significado.
As crianças são capazes de inventar algarismos próprios e colocam em jogo as propriedades das opera¬ções como conhecimento implícito sobre o sistema de numeração, importante para descobrir as leis que regem o sistema. Ao estudar o que acontece quando se realizam as somas é possível estabelecer regularidades referentes ao que muda e ao que se conserva.
As atividades como colocar preços em artigos de lojas, contar notas de dez em dez, fazer lista de preço, colocar novos preços aos que já tem, contar livros das prateleiras das estantes de uma biblioteca, e ao comparar a numeração das páginas de um jornal, é possível analisar o que transforma nos números quando lhes soma dez. utilizar dados nos aspectos multiplicativos em que cada ponto do dado vale dez e vão ano-tando a pontuação de cada um dos participantes do grupo. A partir desta atividade são levadas a refletir sobre o que fizeram e sobre a função multiplicativa e relacioná-la com a interpretação aditiva. Desta forma, levá-los a uma maior compreensão do valor posicional. Através de diferentes comparações estabelecem regularidades numéricas para os dezes e os cens e refletir sobre a organização do sistema.
As crianças têm oportunidade de formular regras e leis para as operações com números e concentram nas representações numéricas.
Na segunda série a calculadora pode ser introduzida, desde que de forma adequada, pois leva as crianças aprofundarem suas reflexões, to¬marem consciência das operações numéricas e torna possível que cada um detecte por si mesma quando é que estão corretas e o que não está certo, auto-corrija os erros e formule regras que permitam antecipar a operação que levará ao resultado procurado.
Assim, refletir sobre o sistema de numeração e sobre as operações aritméticas levam as crianças a formularem leis para acharem proce-dimentos mais econômicos. Leva a indagações das razões das regula-ridades de forma significativa. Busca resposta para organizar os siste-mas, para novas descobertas da numeração escrita. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
A implantação de ciclos institui o regime de progressão continuada que determina uma re-significação ao processo de avaliação e da aprendizagem dos alunos, alem de uma nova concepção dói processo de aquisição e produção do conhecimento, como processo de construção, onde o aluno é sujeito da ação constrói significados a partir de relações dos homens com o mundo entre si. Além dissom, provoca um confronto copm a lógica dominante da instituição escolar.

Condições para êxito:
• Agrupar alunos segundo idade cronológica e novel de progresso;
• Avaliação contínua de alunos e professores;
• Existência de programas que promovam diversidade de ensino;
• Adaptação da escola ao nível de desenvolvimento de seus alunos.

Recursos:
• Infra-estrutura escolar para os agrupamentos;
• Profissionais com possibilidade de trabalhar instrumentado de avaliação diagnosticas;
• Disponibilidade de tempo docente;
• Manutenção de registro sistemático do desenvolvimento de cada aluno
na LDB 9394, no artigo 23, há alternativas pra organização do ensino. A implantação requer uma reflexão coletiva e construção de novas propostas e respostas que garantam a democratização do ensino. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Em A Rosa do Povo, livro de Carlos Drummond de Andrade, ao qual pertence o poema "O Elefante", objeto central deste trabalho, encontra-se também o poema Procura da Poesia, em que o poeta coloca seu conceito acerca da construção da arte poética: "Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intacta." Em O Elefante, encontramos uma relação semelhante à desse texto acima transcrito: o poeta será aquele que se coloca diante de seu desígnio - a palavra -, esperando decodificá-la, nomeá-la poeticamente; feito isso, estabelece-se a relação criador/criação, autor/material. Tal fusão será tão intensa, que chegaremos ao momento em que um se confundirá com o outro, num mesmo instante poético. A dialética criador/criação é um dos pontos mais abordados pela arte literária moderna, tanto em sua escritura como em sua crítica. Modernamente, o conteúdo é conseqüência do trabalho que o poeta faz com a palavra, e não mais sua causa. A criação poética passa a ser exatamente essa relação entre o autor e seu material. Segundo Alfredo Bosi, em O Ser e o Tempo na Poesia, o homem, ao criar, coloca-se como o "deus" da criação, a partir do momento em que, como o "Grande Criador", tem o poder de nomear os seres.

Nomear significa reconhecer, identificar; no nome, encontra-se toda a vivência do criador: é como ele vê o mundo, como entra em contato com ele, como estabelece esta inter-relação. No caso do poeta-criador, este mundo a ser reconhecido é o "reino das palavras"; a palavra é o seu desafio maior, no desígnio de nomeá-la, dando-lhe sentidos especiais, tornando-a poética. Sendo assim, ao nomear, é como se se colocasse diante da vida, criando um processo metalingüístico dela. É o reconhecimento de que a "Grande Obra" do Criador está incompleta... Afinal, é como se Ele deixasse uma parte - pequena apenas na aparência -a essa sua criatura, que se transforma em criador ao relacionar-se com ela. A sensibilidade do poeta reconhece tudo isso: à imagem do Criador, que se estende em sua Grande Obra, desdobra-se na criação... desdobra-se tanto, até chegar a um momento em que não há diferença entre um e outro - criador e criação fundem-se num único espaço e tempo, sem limites, como resistência - conforme coloca Alfredo Bosi - diante da rotulação pré-estabelecida. Assim, também busca algo, ao mesmo tempo grande e grandioso em seu desígnio: sua criação é um elefante; não é o elefante, mas um elefante; não se pretende único, definido, específico, mas busca apenas ser um, modestamente composto de "poucos recursos"; é grande (elefante), porém, indefinido (um). É como se houvesse aí o primeiro de uma seqüência de paradoxos: "o elefante"- como nós o conhecemos- é definido ao extremo (visível e espalhafatoso em sua forma), mas "um elefante"- este, criado pelo poeta - será indefinido, etéreo, com todo o direito a sê-lo... é sua criação, em sua capacidade de perceber a forma, que pede para ser interpretada. O material de que será composto sairá da observação da "vida presente" (de que o poeta fala em "Mãos Dadas"), parte a parte, ainda etéreo, indefinido: "Um tanto de madeira / tirado a móveis velhos / talvez lhe dê apoio". É assim o pretenso apoio do elefante- "móveis velhos"; o mundo, a vida já existente, que o poeta pretende recriar. Sua essência mantém a estrutura diáfana: "... o encho de algodão, / de paina, de doçura". Ele é leve - é tudo o que não esperávamos de um elefante! As orelhas são "pensas", mantendo a estrutura inicialmente delineada: tem nelas, pela sua audição, seu acesso inicial - embora ineficiente - ao mundo. Mas "a parte mais feliz / de sua arquitetura" é a tromba. O elefante, como observamos no prosseguimento da montagem, terá nela seu acesso mais possível: é possível sentir o cheiro do mundo, inalá-lo e envolvê-lo no enchimento de doçura e algodão, todavia é pouco possível ouvi-lo e comunicar-se com ele. Quem enxergaria um elefante tão etéreo ("Vai meu elefante/ pela rua povoada, / mas não o querem ver")? Tal impossibilidade de comunicação será ainda mais flagrante na tentativa de figurar as presas. Todos sabemos que o mundo valoriza o marfim; mata-se por ele... e é exatamente essa parte que o criador não consegue edificar - esta ele deixa para os circos; seu elefante é para a rua. Na atitude de o poeta colocá-lo na rua, localiza-se o ponto alto de tensão do poema: o elefante é a criação do poeta mandada às ruas, num desejo de contato sensacionista, num desejo de comunicação... é querer atingir o mundo... o criador expõe-se através da criatura, no início da fusão entre o autor e o material. A tensão resulta do fato de que o eu poético não concretizará seu desejo. O primeiro índice disso está no fato, já anteriormente mencionado, de não conseguir figurar as presas, exatamente aquilo que, de forma mais convencional, é observado num elefante. A riqueza de sua criação irá parta os olhos - "a parte do elefante / mais fluida e permanente, / alheia a toda fraude", pois, enquanto portais da alma, os olhos transmitem e geram vida; assim sendo, ninguém mata por eles: ninguém os ambiciona, porque ninguém os entende. Nessa tensão, o elefante, ingenuamente, tenta o contato, pois "sai à procura de amigos": "e move lentamente / a pele costurada / onde há flores de pano / e nuvens, alusões / a um mundo mais poético / onde o amor reagrupa / as formas naturais". É esta a sua arma maior: o amor. Como Platão, também acredita no Amor como energia maior do Mundo Inteligível, capaz de reagrupar, articular o que se apresenta desarticulado. Sua inocência é tão etérea quanto sua forma incognoscível; sua percepção não é suficiente para captar sua imensa fragilidade ("a cauda ameaça deixá-lo ir sozinho").Num processo de gradação, consegue ser "todo graça", embora "as pernas não ajudem / e seu ventre balofo / se arrisque a desabar / ao mais leve empurrão". O ventre, refúgio da vida, é preenchido também de doçura... mas ainda falta, sempre falta, e ele ainda está "faminto" Como não é visto, corre o risco de ser empurrado; como é apenas costurado, corre o risco de arrebentar e desabar. Mesmo assim, sustenta "sua mínima vida", mesmo que não haja "...na cidade / alma que se disponha / a recolher em si/ desse corpo sensível / a fugitiva imagem". Sensível e engraçado, dois adjetivos paradoxalmente entrelaçados. O paradoxo se dá devido à existência de dois ângulos de enfoque: ele é sensível em sua essência; é engraçado a partir do olhar alheio - é tocante, mas não é tocável. É como se os seres, no máximo, conseguissem ter pena dele... mais daí a tocá-lo, há uma grande distância, visto que, para chegar-se perto do que não se conhece, dá medo, é arriscado, principalmente se for algo que pode desabar a qualquer momento, de tão pesado. É um peso a não compreensão... o elefante está balofo de tanta vida; ele respira pela tromba enorme. É vivo demais para que se possa suportar, daí a idéia da comicidade... o riso preenche a lacuna deixada pela falta de entendimento: algo cômico torna-se algo descompromissado e, por conseguinte, não há razão para se entender. O mundo recua... e ele avança, acentuando o paradoxo inicial; tudo porque "o campo de batalha" o convida. Em detrimento do riso alheio, o elefante mantém-se faminto. É a tensão do Eu X Mundo que se reforça: os outros riem; ele tem fome. A contraposição intensifica-se na conjunção adversativa utilizada pelo poeta - "mas" - revelando toda a desarmonia, a desarticulação entre o universo do criador/criatura e o do mundo. "Mas faminto de seres / e de situações patéticas" - também (e, talvez, principalmente) o patético faz parte da "vida presente"; porém é preciso entendê-lo para poder prosseguir. O patético riso é o desafio para chegar-se aos "encontros ao luar / no mais profundo oceano / sob a raiz das árvores / ou no seio das conchas / de luzes que não cegam / e brilham através dos troncos mais espessos" - é a máxima docilidade, que busca atingir o que o comum jamais atinge, o estrato vivo e essencial de cada ser, a luz, brilho na totalidade, desde o "profundo oceano", chegando ao "seio das conchas" - o fora (oceano, árvores) e o dentro (conchas)... num caminho ascendente, sem causar danos a nada, "sem esmagar as plantas / no campo de batalha". Mais importante que tudo é caminhar "à procura de sítios, / segredos, episódios / não contados em livro", aquilo que "os homens ignoram", por trazerem a "pálpebra cerrada"; novamente, para o homem, é preciso ignorar por medo de surpreender-se. Feito de "nuvens" e "flores de pano", ele "volta fatigado / as patas vacilantes / se desmancham no pó". Os passos, até agora desengonçados e constantes, fraquejam, por alguns instantes, tristes e cansados. "Ele não encontrou o de que carecia, / o de que carecemos, / eu e meu elefante, / em que amo disfarçar-me." Até esse instante do poema, tínhamos um elefante andando sozinho, buscando sozinho, qual personagem criado, "o de que carecia, / o de que carecemos". O pronome demonstrativo o é neutro: a essência buscada é vaga, ampla, grande demais, pois é luz (como anteriormente se mencionou), toda resumida no demonstrativo o; é a simplicidade reforçada. A criação carece... o criador carece... mais do que isso, um carece através do outro e vice-versa. Enfim, "eu e meu elefante, / em que amo disfarçar-me", num momento de epifania para o leitor: o elefante fabricado é o poeta e sua poesia (autor/material). Desta vez, o gauche do "Poema das Sete Faces" transformou-se num grande e desengonçado elefante, mantendo, em sua origem, o estigma de personagem torta: "caiu-lhe o vasto engenho / como simples papel", descolado, "e todo o seu conteúdo / de perdão, de carícia, / de pluma, de algodão, / jorra sobre o tapete, / qual mito desmontado"... imagem triste que pode gerar a idéia de que o criador vai desistir. Novamente, contrariando nossas expectativas, com a forma simples que lhe é característica, ele afirma: "Amanhã recomeço". Recomeçar, reconstruir, refazer... a poesia, constante diálogo com o mundo, perpetua-se na certeza da possibilidade de busca... é a palavra tornando-se vida, continuamente. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
A marca de uma lágrima (1986) - Editora Moderna

É uma recriação de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. A idéia romântica do autor francês é muito boa, mas sua forma, atualmente, é rebuscada demais para uma leitura popular. Usei apenas a idéia central das cartas escritas secretamente, mas criei outra história. Há, porém, equivalências: a guerra, em Cyrano, virou o crime, em A marca...; a cena do balcão é feita ao telefone; a famosa fala do nariz está no final, quando Isabel desiste de Cristiano.

Por que eu transformei uma grande personagem masculina em uma personagem feminina? Porque, se eu usasse um rapaz, correria o risco de fazer autobiografia; lançando mão de uma menina, vi-me obrigado a pesquisar, a sentir fora da minha pele, a imaginar o que pensa alguém que eu nunca poderia encarnar. E não é essa a função de um escritor?

Para este livro, desde o título, adotei descaradamente a forma folhetim por duas razões. Primeiro, porque este é o estilo de Rostand, o autor de Cyrano, e segundo porque eu creio que esta forma apaixonada, radical, melodramática de comunicação ajuda muito a conquistar as jovens leitoras, principalmente aquelas pouco afeitas ao hábito de ler. E, como estas são a maioria...

A marca de uma lágrima tem um interessante recurso literário que, até agora, pelo menos que eu saiba, ninguém percebeu. Eu pretendi criar uma personagem feminina que descobre bastar-se a si mesma, descobre poder realizar-se e ser feliz sem que a felicidade dependa única e exclusivamente do apêndice masculino, tomando-se apêndice em seus dois sentidos, o social e o sexual.

Não importa o que eu penso sobre isso, importa a coerência interna da personagem Isabel, uma cabeça superior, realizadora, corajosa e independente. Neste livro, é possível ver que, no transcorrer do enredo, a lógica aponta para uma solução, se não solitária, pelo menos de grande independência em relação ao sexo oposto. Assim, como pode ser visto no desfecho dramático do enredo, há um rompimento moderno do estilo folhetinesco que eu adotei para este livro.

Procurei, com o final racionalizante, uma saída a la Brecht, com a quebra de clima e tudo o mais. O tal distanciamento brechtiano. Em seguida, baseando-me no mesmo Brecht, usei a solução genialmente bolada por ele em A ópera dos três vinténs.

Esta peça termina de modo lógico, racional, com o enforcamento de Mac Navalha. No momento em que o carrasco vai puxar a corda, o Autor interrompe a peça e faz um dos personagens ir à boca-de-cena e explicar para a platéia que o Autor sabe que as pessoas não vêm ao teatro para ver finais infelizes e que gostam de voltar para casa com a alma lavada pela catarse. Eis então que, pensando nisso, o Autor preparou um outro final.

Nesse instante, a peça assume um clima operístico e entra em cena um mensageiro com um perdão real, Mac Navalha abraça sua namorada, é perdoado por todos e os espectadores saem do teatro com uma sensação de terem sido cinicamente enganados e manipulados pelo Autor em sua (deles) expectativa estética convencional. Desse modo, criei também um segundo final para A marca de uma lágrima, operístico, novelesco, falso, no melhor estilo de M. Delly.

Parece, felizmente, que as leitoras entenderam estas boas intenções, ou encontraram outras qualidades aqui não indigitadas. O livro é um grande sucesso de vendas. A marca... foi também bem acolhido pela crítica, recebendo o Prêmio A.P.C.A. como O melhor livro juvenil de 1986. veja os vídeos do Programa Zmaro: Humor inteligente de forma descontraída. Acesse www.Zmaro.com.br  
Romance em que o autor deixa de lado as intenções regionalistas. O romance é dividido em 2 partes. A primeira descreve a infância dramática da personagem principal. A segunda a sua adolescência afetada pelo drama da infância. Este romance deveria ser lido inteiramente. A leitura é muito agradável e facilitada pelos capítulos curtos. Parece ter havido a intenção de permitir que o livro fosse lido num transporte coletivo ou em viagens curtas. Primeira parte O cenário é a cela de um presídio no Rio de Janeiro. A personagem principal é o prisioneiro Julio, 20 anos de idade, estudante de direito. Na falta do que fazer resolve escrever sobre sua vida e dizer só a verdade. O companheiro de cela, um homem taciturno a quem ele falou uma única vez sobre seus escritos e teve resposta enigmática sobre as boas intenções de um tio de Júlio que esconderiam algo e isso será uma preocupação constante. Não mais se falaram. Este companheiro irá se suicidar quando estiver próximo do término da pena, para fugir de responsabilidades. Júlio, filho temporão, tem duas irmãs e a mãe D.Leocádia uma mulher amarga que demonstra desamor doentio pelo filho temporão. O filho temporão causava a ela um constrangimento. Talvez a coincidência do nascimento com a falência dos negócios do pai tenham agravado o problema afetivo. Desejava que ele não houvesse vingado. O pai morre pouco depois. Isidora, a irmã mais moça, dá a ele todo o amor que a mãe nega.

Ela fica noiva de um médico, Dr. Luiz, com total apoio da mãe, ganha posição privilegiada e provoca a inveja da irmã mais velha, casada contra a vontade da mãe. Muitas brigas ligadas a herança ocorrerão, inclusive na justiça. Júlio direciona para a irmã o amor que seria para a mãe, com muito mais intensidade do que seria o normal. Ama Isidora de forma doentia. Na mesma medida que ama a irmã ele odeia o noivo que considera estar roubando o amor que é dele. O repúdio e a aspereza da mãe deformará a personalidade de Júlio de forma terrível. O amor que a irmã lhe dedica não atenuará essas deformações e o amor que Júlio lhe tem também é doentio. Metade dos escritos na cela é para descrever o drama do menino de dez anos implorando, sem sucesso, uma demonstração de carinho. É inimaginável o que se passa na mente dessa criança. A mãe de Júlio não aplica a ele um único castigo físico e, no entanto a distancia que obriga o filho a manter dela, com a sua frieza, é talvez infinitamente mais dolorosa. E impossível reproduzir. Uma criança de dez anos com um enorme sentimento de culpa. Tenta resolver seus problemas fugindo de casa, mas é logo levado de volta. Depois, com dez anos, descobre que a morte pode ser solução para os problemas. Isto parece lhe dar certa paz, funcionando como uma espécie de recurso disponível. Esta descoberta lhe permite cogitar seriamente de soluções radicais. Tendo a morte como um refugio pode se permitir qualquer coisa. O amor por Isidora também é um sentimento bem complicado envolvendo um ciúme doentio da irmã e o ódio pelo noivo, o Dr. Luiz. O relacionamento da irmã com o noivo, durante o período de noivado até o casamento desencadeia uma confusão na cabeça do menino e o amor pela irmã parece ter algo de incestuoso, transformando-se algumas vezes em ódio e, após o casamento, quando a irmã morre de parto, ele demonstra uma estranha indiferença, talvez por se sentir traído, enganado. Laura, a outra irmã de Júlio, casada, é mulher invejosa e rancorosa, inconformada com o que considerava perseguições contra ela e contra o marido Jorge. Julio tem, ainda, a tia Catarina, irmã de Leocádia, casada com um juiz, Dr. Fontes. É totalmente diferente da irmã. Mora em Alfenas, está bem financeiramente e veio para ajudar nos preparativos do casamento. Pessoa muito boa e habilidosa no trato com as pessoas resolve todos os desentendimentos que surgem na família e ainda cuida do dia a dia. Dr. Fontes, juiz, é pessoa muito considerada na família. Nas questões sérias depende da opinião mulher, tia Catarina. Acabam levando Júlio para alfenas, e no tempo certo mandam-no para o Rio de Janeiro fazer a faculdade de Direito e irá morar numa pensão do Catete. Segunda parte A segunda parte dos escritos falam de sua vida de jovem universitário com os problemas normais de todo rapaz. A dona da pensão é D. Glória que tem três filhos, Jaime, Noêmia e Eurídice, moça sem juízo e que mantém um caso com Faria, companheiro de quarto de Júlio. Jaime, muito trabalhador, pouco fica em casa, apaixonado por futebol, zela pelo comportamento das imãs. Inspira respeito e certo temor. Os pensionistas de D. Glória são: D. Olegária, meia idade, gosta de poesia, sonha com casamento, conhece um um vigarista que lhe propõe casamento e leva todas as suas economias. As censuras ao seu comportamento e o constrangimento leva a muitas brigas na pensão. Ela acaba se mudando e pouco depois se tem notícia do seu suicídio; O Sr. Campos, conhecido como Campos das Águas, funcionário do Dept de Águas. Meia idade, mora lá há dez anos, quando chegou fez proposta de casamento para D. Glória que recusou. Considera as moças como filhas. Vangloria-se do seu sucesso com as mulheres e, ainda hoje, namora uma ou outra jovem. Gosta dos poetas clássicos e se considera um poeta inspirado. Já teve coluna em jornais importantes dirigidos por um Sr. Brício. É conhecido e considerado na Cidade e popular na zona boêmia. O senhor Campos irá ser um conselheiro de Julio. Carregou-o algumas vezes para a zona boêmia. Estas primeiras experiências que são normalmente complicadas, para Júlio foram terríveis por haver alguma estranha associação com a figura da irmã Isidora que não o deixa. Esses fracassos lhe causavam algum constrangimento; Faria, último ano de direito, escolhido pelo tio Fontes para cuidar de Júlio, seria seu colega de quarto. Veste-se com apuro, preocupa-se somente com os estudos, orienta e aconselha Júlio que o tem como modelo. É admirado e respeitado na pensão e na faculdade pelo seu comportamento irrepreensível. Júlio observa um relacionamento do companheiro com Eurídice e finge dormir. No início, fingia dormir para não perturbar. Depois passa a sentir uma forte excitação que irá dominá-lo completamente. Passa a odiar o companheiro hipócrita e a desejar Eurídice de forma incontrolável. Eurídice gostava de Faria e para tê-la cogita seriamente da morte do rival. Nessa ocasião Faria começa a participar de um movimento político, o integralismo, que visava combater o comunismo e tomar o poder pela força. Morre numa dessas tentativas. Eurídice mostra-se indiferente e ela que, já antes da morte de Faria, dera esperanças a Júlio, vai ao seu quarto algumas vezes apenas para conversar e depois recua definitivamente deixando-o transtornado. Eurídice torna-se uma obsessão e Júlio não consegue pensar em mais nada. Marcam um encontro num bosque. Júlio tenta beijá-la e ela se afasta. Júlio é possuído por um ódio intenso que domina todo o seu ser. Vem-lhe à mente todo o drama familiar. Ele a agarra e termina por esganá-la. Quando vemos na televisão a brutalidade de um crime passional, ficamos desejando saber o que passa pela cabeça dum assassino naquele momento. O último capítulo é esclarecedor.

Texto extraido do último capítulo
A ÚLTIMA FUGA DE EURÍDICE

Fiquei em desespero. Uma ânsia irresistível de sair, de andar, me arrastou da cama ainda com a madrugada.
A cidade dormia, e quando cheguei ao Largo do Machado, os pássaros tiravam as suas alvoradas. Quis absorver-me ao olhar as coisas quietas, mas era impossível. Eurídice, sempre Eurídice a cercar-me, a atormentar-me. Ficara-me o cheiro do seu corpo, como uma nódoa no meu olfato. E este cheiro persistia, avançava sobre mim em ondas que me envolviam. Andei muito, cansei-me de atravessar a praça. Agora muita gente aparecia de todos os cantos. Os bondes passavam cheios. Detive-me a olhar as criaturas que transitavam, com o intuito de comparações. Estava todos pacificados. Nenhum carregaria aquela obsessão que me escravizava. Voltei para casa, e encontrei os hóspedes ao café. O velho Campos se espantara de minha saída tão cedo. Expliquei-me com a necessidade que tivera de levar um conhecido de Minas ao trem. Mas Eurídice me olhava com tal malícia que me arrasou a serenidade com que procurava fingir. Tremia nas minhas mãos a xícara. E não ouvia nada da conversa da mesa. Sei que D. Glória falava de D. Olegária, e que Noêmia sorria. Eurídice me olhava.
E quando a casa ficou silenciosa e vazia, veio ela ao meu quarto. E tranqüilamente falou-me de fatos corriqueiros. Alheia inteiramente àquela outra Eurídice que escapara de minhas mãos na noite anterior. Esforcei-me para fingir a maior indiferença um domínio absoluto de nervos. Um cheiro infernal me cobria o raciocínio. Quase nada lhe disse, mas marcamos um passeio para a tarde. D. Glória chamou-a em tom de advertência. E como não podia permanecer no quarto, saí. Não encontrei ninguém para conversar. O mal que andava dentro de mim crescia, a cada instante. Lembro-me de que Faria ficou comigo, a censurar-me. Lembro-me de que Isidora, triste e abandonada, me apareceu, e de minha mãe furiosa, de todas as mágoas que se avivaram naquelas horas de ansiedade. E o estranho é que aquele cheiro de Eurídice, que não se consumia, em vez de exaltar-me para o amor, conduzia-me para um ódio cruento. Acredito que foram estas horas de espera, para o encontro marcado pela mulher que amava, os mais terríveis instantes de minha vida. Curioso em tudo isto é que, ao passo que se aproximava a hora, se apoderava de mim uma calma esquisita. E assim, ao ver Eurídice, no ponto dos bondes de Santa Teresa, aproximei-me, sem espécie alguma de medo. Estava senhor de mim, ao atravessar o viaduto, mas quando o seu corpo quente chegou-se ao meu, no aperto do bonde, foi como se uma faísca elétrica se despencasse sobre a minha cabeça. Um fogo misterioso ferveu o meu sangue nas veias. Não sei se ouvia a fala de Eurídice. Tinha como que perdido toda a consciência. Senti que andávamos no meio de árvores e vi o sol por cima de nossas cabeças. Voltara a mim para ver Eurídice ao meu lado. E recordo-me de seus olhos verdes, e mais do que nunca o cheiro de seu corpo se expandia, sufocava-me. Andamos um pedaço pela mata sombria. Havia cigarras cantando, ouvia bem o trinado de pássaros e o rumor de nossos pés pelas folhas secas. Agora o que existia em mim era uma mistura de ira e amor, de asco e de desejo indomável. Eurídice falava, falava manso, e a sua voz foi me arrastando para uma espécie de precipício. Queria fugir e não podia. E nos sentamos num recanto escondido. Ouvi bem o que ela falava de Faria, e o seus olhos estavam molhados. Procurei beijá-los, e ela fugiu de minha boca. Então, em mim se desencadeou uma fúria que não era uma vontade minha. A fala de Eurídice mais ainda me exasperava. Ouvi-a como se fosse a voz áspera de minha mãe. Ao mesmo tempo as palavras pareciam sair da boca de Isidora. Por fim calou-se, e o calor da tarde de março se diluía no correr manso do riacho aos nossos pés. Uma força estranha se apoderou de mim. O cheiro do corpo de Eurídice subia, me afogava. Ela estava ali, quieta, mole, vencida. E senhor de mim, capaz de vencer todos os obstáculos, debrucei-me sobre ela para esmagá-la. Eurídice resistiu, quis erguer-se do chão úmido, mas a minha força era de uma energia descomunal. Sabia que a tinha em minhas mãos e que as minhas mãos eram de ferro. E procurei a boca que fugia, que gritava, e aos poucos tudo foi ficando em silêncio pesado. Ad minhas mãos largaram o pescoço quente de Eurídice. E ela estava estendida, como nas minha cama. O corpo quase nu na terra fria.
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